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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Fora, cadeira de ferro

     Uma cadeira de ferro. Uma cadeira de ferro e não uma de plástico. Sabe por quê? Juro que não sei, paisano. Fiquei, no entanto, pensando nelas duas – na de ferro e na de plástico – enquanto enchia a pança no café da manhã de hoje. Não era, diga-se de passagem, um desjejum qualquer. Era um evento na cidade que mais cresce em Santa Catarina – Palhoça. E segundo o prefeito do município, que lá estava, Palhoça será a maior cidade catarinense daqui a quinze anos. O chefe do executivo municipal informou que esse dado inédito será divulgado em breve e é resultado de um estudo feito pelo Governo. Política à parte, a cadeira de ferro me encasquetou. Antes de começar a comilança, a moça que comandava o cerimonial explicou algumas coisas a cerca do ajuntamento. Entre as exposições veio a cadeira de ferro. Na verdade ela não explicou, apenas disse que era importante escolher cadeiras de ferro ao invés de cadeiras de plástico.

     Quando fui me levantar, puxei a cadeira e fiquei só com o assento nas mãos. “Hum, essa cadeira de ferro é meio Jaguara”, comentei com o colega ao lado. Jaguara é o termo que os moradores da Serra catarinense usam como sinônimo para cachorro vira-lata. As pobres cadeiras plásticas não dariam tal vexame, mesmo assim foram preteridas. Ê, cadeira de ferro. Sem falar no frio. Os treze graus deixavam a armação fantasiada de barras de gelo. Um encostãozinho e... ui. Ponto para as ausentes cadeiras plásticas. Quando os esfomeados presentes moveram-se em direção ao bufê, foi aquela barulheira. Os pés de ferro brigavam com a cerâmica. Mais um ponto para as primas pobres. Danem-se, todas as cadeiras de ferro do mundo. Danem-se todos os pés de ferro. Eu quero é plástico. Quero a pobreza e a simplicidade do plástico. Quero a mobilidade do plástico. Fora, cadeira de ferro.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Um relato pré-morte

     Ontem recebi o email de um leitor deste blog. Avesso a postar comentários, preferiu enviar a mensagem. Contou que lê quase todos os textos do reporteando depois que um amigo dele recomendou umas espiadas nas crônicas. E perguntou a minha idade. Lá pelas bandas de Pindamonhangaba, num fim de semana frio como foi o último, passou os olhos em O cinismo espeta a verdade e entendeu que eu já teria pelo menos setenta aninhos de vida. Achou o relato muito pré-morte. Respondi que estou apenas na minha quinta década neste mundo de meu Deus, que acredito que esse asteróide pequeno – como poetiza Zé Ramalho – é um lugar bom, mas que o fato de contar sobre o que já fui não significa que estou abrindo mão da existência. Pelo contrário. Afirmando que já fui, sentencio que sou. E-vi-den-te, paisano. Veja uma árvore de oitenta anos: cada novo anel que adquire, dá-lhe nova aparência, o anterior fica aprisionado para nunca mais voltar a receber lufadas de vento. Serve, contudo, de base para o que se arvora. Ao perder a capa protetora ganha outra muito mais viçosa. É isso, meu caro. Avisei ao camarada que responderia via crônica.

     Já fui, sim, e continuo vivíssimo. Ainda bem que descobri isso a tempo de repensar valores por outros embutidos em minha cabecinha inocente – e lá se vão algumas décadas, meu Pai.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Não precisamos de vereadores

Outdoor 1
Faltam: médicos, medicamentos, creches e leitos hospitalares.
Não precisamos de mais vereadores.

Outdoor 2
Operário: 44 horas semanais.
Professor: 40 horas.
Vereador: 5 horas.
Não precisamos de mais vereadores.

Outdoor 3
Salário Mínimo: R$ 545,00
Professor: R$ 609,46
Vereador: R$ 7.316,00
Nao precisamos de mais vereadores

Essa é uma campanha contra a criação de novas vagas para vereadores em uma cidade de Santa Catarina. É, no entanto, uma luta inglória. As tais vagas são, via de regra, arranjos políticos feitos para empregar mais aves de rapina sedentas do dinheiro público. E a população pode espernear, chamar de ladrão ou o que for, não vai adiantar. Os municípios precisam urgente de controle. Prefeitos e vereadores fazem o que bem entendem com o rico dinheirinho do povo e raras vezes são responsabilizados. Iniciativas isoladas, por mais bem intencionadas que sejam, de nada vai adiantar. Que a luta dos indignados catarinenses se espalhe pelo Brasil.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O cinismo espeta a verdade

     Já fui paciente. Inclusive em hospitais e clínicas, que exigem estrema paciência por parte de quem chega por lá. Já fui paciente; do verbo não sou mais. Meu pavio, nos dias mais coloridos, dá para ser medido em milímetros. Talvez por isso, começo a perceber que enclausuro a voz. As palavras, no recrudescer da impaciência, calçam arame farpado, vestem manto de urtiga e esmurram feito Mike Tyson no auge da carreira. Chegando, inclusive, a investir à dentadas sobre um distraído ouvinte. E para domar a impaciência, essa hiena, ignoro. Ignorando, brinco. Brincando não levo a sério - falando nisso, também já fui sério. E gargalho. Sorrio da sisudez. Com um cinismo que espeta a verdade de quem insiste em saber mentir. E minto também.

     Já fui verdadeiro. Até mesmo com mentirosos inveterados que pediam para que eu dissesse a verdade. Com o tempo fui aprendendo que a verdade, assim como a felicidade, é uma arma branca – amolada como navalha de exímio barbeiro, corta a carne alheia, embebe-se do rubro líquido irmão. Não deve ser entregue, essa peçonha, a qualquer noviço. Seria maldade não mentir. Já imaginaste, paisano, o mal que provocaríamos ao dizer que está feia uma debutante? E afirmar uma asneira dessas a uma noiva de véu e grinalda? É imperioso, em ambos os casos, que se minta. E há, adianto, uma dantesca distância entre um mentiroso e um cara que mente. O primeiro não sabe ler, ou não lê nada. Se lê, desconhece as minúcias de um texto bem escrito. Está em trevas. O segundo, o cara que mente, está em pleno processo evolutivo. Navega em águas profundas e sabe que todo cuidado é pouco para não naufragar. E ser verdadeiro com tudo e com todos é ter a certeza que vai terminar os dias no fundo do mar.

     Alguém que você conhece, simpatia, não mente? Algum sábio sobre quem você já investiu tempo lendo não mentiu? Aponte-me um humano, até mesmo o mais religioso deles, que não mentiu. Já que não encontrarás dois na história, aponte-me, peço, um. Conheço certos homens apaixonados pela causa divina que acharam uma expressão para justificar o ato de mentir: “Que isso, Gilead, o que Fulano fez foi esconder a verdade; ele seria incapaz de mentir”. Sei, sei,sei. Já fui verdadeiro.






quarta-feira, 22 de junho de 2011

Menina de cinco anos ganha o Nobel de Futebol

     Outro dia um leitor disse que sou muito cáustico. Que o meu texto, via de regra, esconde sob a pele uma lâmina ultra afiada. Apolônio, meu amigo, até que tento ser mais light. Até que quero pintar uma crônica bem colorida feito um arco-íris. Até que me esforço para falar das flores, dos sorrisos amáveis dos políticos honestos, da canção de final feliz feita para ninar casais romantizados. Tento, juro, levar à risca o que um editor de jornal pediu para um repórter fazer: “faça uma matéria com o prefeito, mas faça uma coisa boa, busque não falar mal dele; você consegue”. O problema é a realidade, Apolônio. Confesso que, vez ou outra, enfio a peixeira na minha consciência e escrevo sobre futebol. E faço isso principalmente quando não tenho muito tempo e meus neurônios estão sonolentos. Sabe como é o esporte que consagrou Pelé, não é? São onze contra onze. Quem está debaixo da trave, veste uma camisa de manga longa e usa luvas é o goleiro. O número nove geralmente é o centroavante. Os que ficam perto do goleiro, impedindo que a torcida adversária grite gol, são os zagueiros. Os que ficam na beira do campo xingando os que estão correndo são os treinadores.

     Tirando a questão do impedimento, que é preciso saber falar “mamãe” para poder entender, as regras são facílimas. Mesmo assim o árbitro, aquele sujeito de mal com a vida que adora querer aparecer, erra mais do que acerta. Ele aproveita que os atletas não conhecem as regras – o que parece brincadeira – e faz o que bem entende. Um esporte tão simples pode ser comentado por qualquer aracnídeo. O que for dito pode ser aproveitado. Por isso se diz que todo brasileiro é um técnico de futebol. Preste atenção, paisano, nos chamados jornalistas esportivos. Primeiro, eles – quase 100% deles – só falam de futebol. São, nesse caso, jornalistas futebolistivos e não esportivos. Se os caras cuspissem a cada asneira dita, morreriam afogados dentro do estúdio antes de acabar o primeiro tempo da partida.

     E porque vossa majestade acha que as pessoas dizem que não gostam de falar de política? Pergunte, só por curiosidade, aos seus chegados se eles sabem o que compete a um presidente da câmara dos vereadores, a um presidente da mesa diretora ou a um relator de uma CPI. Pergunte qual a diferença entre forma e sistema de governo. Pergunte como as leis são feitas, qual o caminho que elas seguem até entrarem em vigor. É, senhoras e senhores, é muito mais fácil falar de futebol. É muito mais terapêutico, admito, esbravejar contra a mãe do árbitro. Muito mais saudável estourar as cordas vocais comemorando um gol. Um ignorante de plantão vai – tenha certeza – me enviar um email irritadíssimo. Antes, porém, quero alertar: se para falar de pelada fosse necessário inteligência, já teriam criado o Nobel de Futebol.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Criança quer sexo, droga e pancadão

     Lendo um jornal de circulação diária do nosso Brasil varonil, dei com as fuças na seguinte manchete: “Pais devem acostumar os filhos a dormir na hora certa desde cedo”. O complemento informava: “Garantir um bom sono durante a infância estimula esse hábito na fase adulta”.

- Ô editor, meu garoto, para com isso, mermão. Tu ta maluco, animal. Tas querendo que nossas crianças sejam fantoches, é? Tas insinuando que os pais devem estabelecer um horário para os filhos caírem no sono? Tas querendo que os inocentes se acostumem a dormir cedo? Tu ta mais por fora do que mão de afogado, louco. Sai dessa vida e cai na real, jacaré. E tem mais: se você continuar colocando matérias manipuladoras nesse teu jornaleco, vais findar com um baita processo nas costas.
 
     Ora, ora, onde já se viu uma coisa dessas? Onde é que vamos parar? Nossas crianças precisam ser independentes desde cedo – comer o que querem, dormir à hora em que bem entendem e ganhar uma cópia da chave de casa aos sete anos. E se entre pai e filho tiver que haver um dominador, que seja o de menor idade. Pânico na TV, o programa de televisão mais visto por adolescentes brasileiros, por exemplo, termina às 23h30 do domingo. Se o pimpolho tiver que dormir às 22h, perderá a oportunidade de ver bundas, piadas preconceituosas e bizarrices outras.

     E o que dizer dos horários de funcionamento das boates? A coisa por lá só bomba depois das 23h. Como a entrada é permitida a qualquer pessoa que pague, os menores não vão ficar de fora. Aí uma moça de 14 anos vai estar dormindo nessa hora e perdendo a oportunidade de fumar unzinho, tomar uma dose de uísque com energético e depois transar dentro de um carro de um maconheiro que ela acabou de conhecer? Sei que quem fuma maconha odeia ser chamado de maconheiro, mas acho que isso é auto-preconceito. Você gostaria, pai, a senhora gostaria, mãe, que sua filha perdesse a juventude dela dormindo, ao invés de estar se divertindo? Em casa ela provavelmente não terá cocaína para cafungar. Isso a belezura só encontrará na “casa da amiguinha”, onde precisará dormir para “fazer um trabalho de escola”.

     Tem gente que é antiquada e quer que os filhos também o sejam. Dormir cedo é coisa do tempo em que Legião Urbana ainda era rural. A moçada hoje quer sexo, droga e pancadão. E essas diversões costumam ser disponibilizadas depois que os ultrapassados pais de família estão dormindo. Ora, ora, paisano, uma adolescente não pode perder a festa por causa de um idiota de um pai que quer dormir cedo. Que durma, então, o sonolento, mas não atrapalhe o divertimento das nossas crianças.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Comportamento de manada

     Comportamento de manada. Percebo isso nos bovinos de modo muito claro. Quando um deles se apavora e sai em disparada pelo pasto, todos fazem a mesma coisa. Sem raciocinar, sem pensar duas vezes, sem dizer: “calma, vamos analisar a situação”. Necas de pitibiriba. Se um corre, todos correm. Na hora da ração é um deus nos acuda. Basta o primeiro se dirigir para o curral que a corriola vai atrás. Botou a boca no cocho é sinal de coisa boa. O gesto é repetido pelos demais. Animais. São todos iguais. Só muda o...? Só muda o dono, meu chapa. De fato, todos têm quatro patas – salvo alguma anomalia. Refiro-me aos bois, não aos donos. Todos têm rabo, barriga, costela e por aí vai. E cabeça, claro. Cabeça que não serve para pensar, ressaltemos. Cabecinha que está lá para abrigar a boca, os olhos e os chifres. Nunca, isso mesmo, nunca para pensar. Nunca para ponderar. Nunca para reclamar que estão sendo feitos de bobos. Nunca para se indignar. Nunca para dizer chega. Nunca para constatar que são vacas e não burras. Comportamento de manada. Falando nisso lembrei-me de um evento que fui outro dia.

     Como não tinha nada para fazer, fiquei olhando tudo e todos. Os músicos eram muito bons. O lugar, maravilhoso. Na beira do mar. E na beira do mar, como diz o poeta, “nego joga bola”. Não uma bola literal, daquelas maltratadas por peladeiros nos campos de futebol. Mas a bola da vida, dos momentos que se apresentam para serem moldados conforme as hábeis mãos de quem deles dispõe. Sentado, passei a observar as damas que transitavam de um lado para o outro feito baratas sem GPS. E fui notando as similitudes entre elas. Uma coisa, no entanto, agarrou-se em meu olhar: as bolsas. Todas carregavam bolsas. Todas, sem exceção. Se é todas é sem exceção, óbvio. Mas faço questão de dizer que o todas aqui empregado é todas no mais abrangente sentido do todas. Não pense, paisano, que estou me referindo a uma bolsa qualquer. Não. Uma bolsa pequena, por exemplo, talvez nem me despertasse o olho esquerdo. As bolsas da festa eram grandes. Comportavam, tranquilamente, três quilos de açúcar, dois de arroz, um de farinha, meio de carne fresca, algumas batatas para fazer um purê e uma ou duas frutas para a sobremesa. Aquilo sim eram bolsas.

     Irritei-me. Ou melhor, fui irritado. Minha irritação é abrupta. Não vem subindo pelas unhas dos pés. Não percorre cada dedo, cada tendão dos meus pisantes. Não palmilha as pernas e outras partes do corpo antes de explodir pela boca e pelos olhos. Ultimamente tenho controlado mais minha cólera e evitado – sempre que possível – que ela ganhe liberdade pela boca. Os olhos têm sido a porta de saída que abro para minha ira ganhar a imensidão. E tenho me especializado em criar olhares: tem o olhar do “vai te catar, rapaz”; tem outro, semelhante, porém mais agressivo que diz “vai ~#$^*&”. A maioria das pessoas entende a linguagem dos meus olhos. Outro dia o árbitro lá da AABB me deu cartão amarelo só porque lancei-lhe um olhar de “és um ^$#*&”. Verdade. Juro que não mostrei o dedo médio para o camarada. Só olhei. Ele, feito um touro na arena, vociferou: “quer levar um cartão?”. Agucei o olhar. Sem conhecer outra forma de demonstrar autoridade, enfiou a mão no bolso e mostrou-me o cartão. Voltando à festa, vou revelar meu descontentamento.

     As bolsas das senhoras, embora o tamanho, estavam murchas. Em algumas percebi um montinho. Talvez um molho de chave, um batom ou um completo kit de maquiagem. Ora, ora, gente amiga, que desperdício de dinheiro e de praticidade, pensei: se é para não levar nada, para que comprar um paiol daqueles? Conversei com um colega e ele foi direto: “é moda, Gile”. Moda, é isso. Sendo assim, não tenho o direito a ficar com raiva. As nobres senhoras são vítimas de oportunistas que empurram-lhes acessórios desnecessários a um preço elevadíssimo. Diante de uma propaganda elas são proibidas de pensar, de refletir, de analisar, de ponderar. Mas isso não tem nada a ver com comportamento de manada, por favor.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Tô fora mermão

     "Vai te danar, Rodrigo Pimentel". Foi assim que resmunguei hoje pela manhã, quando assistia o burguês Bom Dia Brasil - da Rede Globo. Que por sinal, é o único programa que vejo da emissora. Ah, tem também o futebol que, se não passar na concorrente, ou mesmo na SporTV – que também é Global, porém com melhores profissionais – costumo dar umas espiadas. A verdade é que fiquei indignado logo ao acordar. Por favor, botocudo, quando digo que o matutino dos Marinhos é burguês não estou querendo depreciá-lo. Ou achas que ele é destinado ao populacho? Às sete da matina o pobre está dentro de uma lata de sardinha em direção ao trabalho. Quando já não está ralando. Vamos ao que interessa: a apresentadora chamou o comentarista de segurança para comentar sobre um sequestro ocorrido em Brasília.
     Depois de uma meia dúzia de três ou quatro palavras ditas pelo camarada – que o meu cachorro, o Sheid, já as conhece de cor e salteadas – a jornalista resolveu apresentar um manual de sobrevivência, segundo ela elaborado por Rodrigo. O título da obra, colocado na tela de abertura dizia: “Manual da vida segura com Rodrigo Pimentel”. Ora, ora, paisano, não quero ter, nem muito menos que minha família tenha, uma vida segura com o senhor Rodrigo Pimentel. Não o conheço. E mesmo se o conhecesse, sou casado. Prefiro uma vida insegura ao lado da minha esposa do que uma segura de mãos dadas com o seu Pimentel. To fora, “mermão”, como dizia Tim Maia.
 
     Foi aí que minha primeira dama interveio: “O que eles estão querendo dizer é que o manual foi feito por Rodrigo Pimentel, só isso”. Ignorante homem que sou. Como não desconfiei que a Globo aderiu a sugestão do MEC e acatou a supremacia da oralidade sobre a norma culta. Nesse caso, o importante é comunicar. E euzinho aqui pode ficar tranquilo que a Globo está apenas querendo dizer: Manual da vida segura - Rodrigo Pimentel. Ou ainda: Manual da vida segura, por Rodrigo Pimentel. Maldito Cabral, bem que ele podia ter ido direto para as Índias. Talvez tivéssemos sido colonizados por ingleses. Nossa língua seria bem mais fácil.

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Não dá para acreditar

     É sério. O caso - neste caso, um caso, mesmo - aconteceu aqui na bela Floripa. O gerente da agência bancária me segredou e eu vou botar a boca no trombone. Sem dar nome aos bonitões, é lógico. Até porque esse negócio de falar mal de polícia cheira a bala. Dizer em praça pública que um policial é gay é o mesmo que assinar a própria sentença de morte. "Mas sem exageros, meu caro Gile", dirá um comandante amigo meu. Sendo assim, não vou afirmar que o camarada dessa história era da nossa querida coorporação estadual. Faço igual ao lema da bandeira paraibana - Nego. O fato é que um trintão entrou no estabelecimento onde se empresta dinheiro acompanhado de um vintão. O mais velho contou uma conversa sinistra para o gerente: estava sendo sequestrado e precisava sacar uma grana para pagar ao moçoilo que entrara com ele. Na verdade, conforme o policial, mais dois comparsas do seu acompanhante estavam do lado de fora da agência aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Acho até, pelo que apurei, que o gerente quis pagar para poder libertar o cliente, mas o danado do trintão não tinha um realzito na conta. E agora, seu Zé?

     Ah, meu amigo, o funcionário deu uma de bobo e chamou a polícia. Enquanto os fardados não chegavam, o bancário foi entretendo os dois visitantes. Morrendo de medo, confesou-me depois. O cliente policial, visivelmente contrariado e enrrolado, tentava persuadir o gerente a adiantar-lhe uma mixaria. Nada feito. Depois de meia hora, chegou um suado e solitário PM. A pé, o desgraçado. Ora, ora, meus senhores, como é que um cara vem atender uma possível tentativa de sequestro sozinho? E ainda por cima a pé? E não pesava 60kg o desgraçado. O engravatado já estava aflito. Àquelas baixuras, quase todos os funcionários estavam de orelha em pé. Os dois comparsas que vigiavam do lado externo da agência, ao notarem a chegada de um fardado, viraram gás, escafederam. O policial que veio desbaratar o sequestro estava mais perdido do que cachorro quando cai da mudança. Aos poucos, entretanto, foi tomando pé da situação e chamou o gerente numa sala.

     O gerente, então, dirigiu-se ao policial cliente e deu-lhe a solução: "Vamos ligar para sua esposa e pedir que ela venha trazer o dinheiro".
- Não, pe-la-mor-de-deus! - suou o trintão - Não quero que ela saiba de nada.
- Sendo assim, não posso fazer nada - deu uma de Pilatos o bancário.
- Por favor, seu gerente, consegue esse dinheiro para mim?
- Não posso - respondeu sem nenhuma ponta de sensibilidade - O jeito é ligar para sua mulher.

     Quinze minutos depois entra uma senhora enlouquecida. Aos gritos, revela o segredo do marido:
- Safado! Ainda tem coragem de fingir que foi sequestrado?! Vai com um macho para o motél, gasta todo o dinheiro com drogas e depois não tem como pagar o programa?! E depois eu tenho que vir aqui pagar, me sujeitar a uma humilhação dessa?!

     "A cena era constrangedora", atestou o gerente. O policial de serviço, o Stallone de Florianópolis, aliviou para o colega e saiu de fininho. Com o pagamento no bolso, o vintão agradeceu à mulher do cliente do banco e dele, e se foi. Sem um grama de moral, o "sequestrado" saiu sob xingamentos da consorte. Na agência, o pasmo era geral. Dois dias depois, enquanto me contava tudo, o gerente dava risada. Fiquei sem saber se era para rir, chorar, ou ficar sem saber o que fazer. Fiquei sem saber o que fazer. É, paisano, quando eu penso que já vi tudo...


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Se beber, não case! 2 - assista e vomite

     Você pagaria, meu brother, para ouvir uma palestra em que quatro ou cinco homens pregassem escancaradamente que cocaína e outras drogas do gênero deixam a vida mais divertida? Você pagaria para ouvir norte-americanos ridicularizando outros países? Você pagaria para ouvir que nações consideradas pobres, como a Tailândia, por exemplo, precisam de um estadunidense para torná-las mais ordeiras? Você pagaria para ver conterrâneos de George Bush zombando de religiosos budistas? Você pagaria para ver - e daria risada ainda por cima – gente civilizada exibindo um macaco fumante? E se esse mesmo macaco fosse um aviãozinho do tráfico, você aplaudiria? Você pagaria para ouvir um punhado de ianques alardeando que esbórnia, quebra-quebra e desrespeito a outras culturas é uma coisa engraçada? Não?! Pois eu paguei.

     Meio a contragosto, mas paguei. Não só eu, como milhares de pessoas em todo o mundo. E nesse aspecto, louvemos os norte-americanos. Os caras conseguem rir da cara - os caras rindo da cara é horrível - dos não-norte-americanos e ainda os fazem pagar pelos gracejos. E fazem isso no formato filme. Se beber, não case! 2 é uma dessas películas que lotam as bilheterias dos cinemas. Não me tenha por puritano ou algo semelhante. Muito menos como um taciturno incapaz de gargalhar. O filme é uma apologia às drogas, sim. E o faz isso sob a máscara da comédia. Claro que um parvo vai dizer que euzinho aqui não entendeu o “espírito da coisa”. Vai procurar um marido, respondo a esse filhote de demência. Tem mais:

     No filme, um velho monge budista é sacaneado por turistas estadunidenses em plena Bangkok. A capital tailandesa é mostrada como se fosse um antro onde se aninha tudo o que não presta no mundo. É aquela mania que alguns países têm de se acharem o umbigo do mundo e que o resto, ao pé da letra, é puro resto. A bebedeira é mostrada como algo engraçado, inocente e para ser aceita como tempero da vida. A cocaína é retratada como um ingrediente saboroso capaz de deixar o usuário mais descontraído e menos chato. Lógico que vai ter um discípulo de lúcifer me mandando email e me chamando de otário, quadrado, antiquado. “Não sabe nem ver um filme, babaca”, dirá o celerado. O fato é que tenho mais de um neurônio. E são suficientes para me fazerem ver o que está por trás – e até pela frente – de uma película como a que me refiro.

     Paguei, paguei para rir da desgraça. Paguei para rir do grotesco, do bizarro, da incultura. E agora, meu Deus do céu? O que fazer para redimir minha pobre alma? Também não é para tanto, Gile. Já estás arrependido. Chegaste até a escrever esta crônica purgatória. Oxalá Palocci fizesse o mesmo. E que igual fizesse FHC, Sarney, Gilmar Mendes e outros artistas tupiniquins. Na comédia chamada Brasil, o choro das crianças famintas, a morte por descaso na segurança pública e a corrupção endêmica roubariam a cena. Mas ai, em se tratando de roubo, a disputa por melhor ator seria acirrada.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Cruz de Malta é o meu pendão

     Depois de onze anos sem conquistas no cenário nacional, o Vasco da Gama sagra-se campeão da Copa do Brasil 2011. O grito calado dos torcedores vascaínos só largou a garganta depois da última apitada do árbitro. Iludido, o Coritiba até que tentou - contando inclusive com o os pontapés e os socos do atacante Bil -, mas vai ter que esperar. Infinitamente superior, o time carioca fez um gol logo no primeiro ataque e passou a dominar as ações. Em duas falhas da, até então, irretocável defesa, levou a virada. No segundo tempo, contudo, tratou de igualar o marcador. Mesmo sem jogar bem, querendo vencer na base da força, os paranaenses conseguiram o terceiro gol após um desvio mal feito do capeão. Eder Luiz, melhor jogador em atividade no Brasil ontem à noite, ainda entortou três marcadores do Coxa e presenteou Bernardo, mas o moço parou no goleiro Edson Bastos.

Parabéns, Vasco da Gama. Parabéns torcida cruzmaltina. Agora é só aproveitar o Brasileirão para treinar. A Libertadores 2012 já tem um candidato. Resta comemorar com os vencedores:
  
Vamos todos cantar de coração
A Cruz de Malta é o meu pendão
Tu tens o nome de um heróico português,
Vasco da Gama, a tua fama assim se fez!

Tua imensa torcida é bem feliz
Norte e sul,
Norte e sul deste Brasil
Tua estrela, na terra a brilhar, ilumina o mar!

No atletismo és um braço;
No remo és imortal;
No futebol és o traço de união Brasil-Portugal!

No atletismo és um braço;
No remo és imortal;
No futebol és o traço de união Brasil-Portugal!



 


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ronaldo, o pré-sal futebolístico

     Como dizem os serranos: “Se foi, o cascão”. E pronunciam o “se” como tendo um circunflexo sobre o e. Cascão, gordo, gorducho, dentuço, Ronaldo... Nome ou apelido jamais caiu-lhe tão bem quanto o mais famoso de todos – Fenômeno. Quem viu, como eu, o magricelinha jogador do Cruzeiro aprontando suas peripécias enquanto bordava os gramados no seu primeiro campeonato brasileiro, sabia que aquele menino não era só cheio de dentes que mal cabiam na boca. Era um pré-sal futebolístico. Uma certeza de lucros astronômicos para quem nele investisse. E foi o que fizeram os europeus. Levaram nossa jazida – sim, nossa; hoje todo brasileiro sabe que Ronaldo é do Brasil – por uma quinquilharia. Mesmo assim, burilaram o guri e ele veio a ser o maior artilheiro das copas do mundo.

     Há quem diga que a crônica feita por um fã fica sempre sub judice. Ora, dane-se quem pensa assim. Não é porque admiro – é seria um parvo se pensasse diferente – o gordo que vou deixar de escrever sobre ele. Conversando com um colega ontem à noite, ele me espetou: “Não faça a crônica, o texto ficará muito imparcial”. Fala sério, jacaré, desde quando o jornalismo é imparcial? Desde quando o ser humano é imparcial? A imparcialidade é um mito usado por quem quer esconder suas preferências. Você, nobre leitor, tem irmãos, primos, tios, pais, colegas ou coisas do gênero? E entre teus irmãos não preferes um determinado? E entre teus primos não gostas mais da companhia de um em detrimento da de outro? Quando se gosta, paisano, quando se tem preferência, nossos julgamentos passam pelo crivo do coração. E o coração, simpatia, jamais será imparcial. É por isso que muitas vezes ficamos indignados quando vemos a mãe de um criminoso defendendo o rebento. Não aceitamos tamanho absurdo. Coisas do coração, meu caro. Só entendemos quando caímos na mesma trincheira da mãe do transgressor. Voltemos ao cascão.

     Ele jogaria no meu time mesmo com trezentos quilos. Ou os senhores acham que algum time do futebol brasileiro tem um centroavante com a qualidade dele? Jogando pelo São Paulo ele faria – de tanta assistência de Dagoberto -, no mínimo, três gols por jogo. E bastaria jogar, como ontem, quinze minutos. É uma pena o futebol ser tão retrógrado. Tivesse no comando da FIFA pessoas mais evoluídas na arte de administrar, e o esporte bretão seria como o basquete ou o vôlei. O atleta poderia entrar e sair da partida por vezes indeterminadas. Aí o Brasil não teria perdido o Fenômeno tão cedo. Já pensou, cidadão, se o Santos contasse com os preciosos serviços do dentuço? Já poderia considerar-se campeão da Libertadores. O futebol, entretanto, insiste em viver na era das cavernas. Seus dirigentes, atolados em denúncias, estão mais preocupados em salvar a pele e garantir uma polpuda conta bancária. E nós, reles mortais, temos que ficar órfãos de craques. Adeus, Ronaldo, o futebol te deu a glória, o futebol tirou-a. Continuarás, mesmo assim, durante os próximos 45 séculos, sendo o eterno Fenômeno. E quando tiver um campeonato aqui na AABB de Floripa, vou te ligar para seres o goleador do meu time.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Assassinatos no campo

     Fui criticado. Injustamente, diga-se de passagem. Nove. Foi esse o número de emails que recebi de alguns leitores deste blog. Imagine, paisano, que chegaram a me chamar de jornalista ditador. E tudo porque me autonomeei interventor da República Três Platôs. Um camarada mais preocupado com a qualidade de vida dos bovinos alertou-me que está pensando em fazer uma denúncia contra mim na sociedade protetora dos animais. Segundo ele, estou interferindo na ordem da natureza. Ora, ora, como se ele não estivesse usando energia advinda de uma hidrelétrica que, para ser construída, avariou quase que um ecossistema inteiro. “Ah, jacaré, para ter direito a me criticar tens que voltar às cavernas”, respondi-lhe complementando que o modo de vida que adotamos tem alterado drasticamente o meio ambiente. Chateado, mandei que ele fosse procurar um marido, lavar uma louça ou limpar um quintal. E para deixar claro, não pretendo me demitir do cargo que ora assumo. A não ser que meu patrimônio cresça de modo incompatível com o cargo que tenho. Aí, meu chapa, não serei um cara de pau de quilate elevadíssimo para querer justificar batom na cueca. Mas por enquanto...

     Além do mais, a República precisa de mim. Desde que me tornei interventor, a vida dos quadrúpedes melhorou sensivelmente. O campo virou um lugar mais tranquilo para a bicharada. Para se fazer uma comparação, vejamos o que acontece na república brasileira. No Pará – fique de queixo caído -, 98% dos assassinatos no campo ocorridos nos últimos dez anos ficaram impunes. Esse dado é do governo federal. Não me levem a mal, amigos, mas não permitirei que uma lástima dessas aconteça na República Três Platôs. Tendo um grama de vergonha no olho já poderei evitar esse flagelo. Caso eu não o faça, podem ter certeza, aliei-me a grileiros, a fazendeiros que eliminam vidas por um hectare de mata nativa, a madeireiros que não têm limites para a ganância, a policiais e fiscais corruptos – que recebem mais dinheiro quando ficam calados -, a juízes e promotores comprados por caminhões de reais sujos de sangue. Sangue de homens pobres que se puseram contra interesses escusos. A intervenção no Três Platôs vai continuar. Tenho alguns motivos para isso.

     O primeiro deles é que não fui eleito com a ajuda de empresários avarentos. Nenhum dono de empresa deu-me um centavo para a campanha. Até porque não houve campanha. Tivesse euzinho recebido, teria que governar para satisfazer interesses de hienas que não pensam duas vezes antes de abocanhar a riqueza do campo. O segundo é que não estou vinculado a nenhum partido político. Essas instituições, que mais parecem covis, são algemas que aprisionam as convicções de qualquer homem público. Não, não deixarei que a República Três Platôs torne-se um Brasil, onde a anarquia disfarçada reina deitada eternamente em berço esplêndido. Ficarei interventor até que a ordem e a disciplina – fruto da educação – sejam uma realidade consolidada. Que me mandem email, que digam que sou ditador, que me achem cruel. Pior, muito pior, é governar um país com tantos assassinatos no campo e não fazer nada para mudar o panorama.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Uma república se faz com quadrúpedes

     Não teve jeito, a República Três Platôs agora tem um interventor. Eu. Isso mesmo, euzinho em carne e osso – ultimamente, mais carne do que osso. Sim, porque já fui mais osso do que carne. Aquele tipo que para se esconder basta ficar de lado. A magreza, no entanto, não era falta de saúde. Usava a bicicleta como transporte – coisa que hoje acho um suicídio quando feito nas ruas das grandes cidades. Nadava, jogava futebol tocava. E antes das peladas ainda tinha – o professor de artes marciais Nelson Arevallo, de Blumenau, pode confirmar – uma hora e meia de socos e pontapés. O futebol ainda pratico, mas se outrora fui ponta esquerda, hoje limito-me à zaga central. Pontapé ainda dou, basta um firuleiro se meter à besta. Como costumo jogar entre colegas na AABB de Floripa, raramente preciso puxar a peixeira para botar um boleiro para correr. Pedalar, entretanto, está fora dos meus planos. O ciático, esse desgraçado amante dos quarentões, não tolera um selim. Minhas bikes estão semi-aposentadas. São como honestidade em político – só de vez em quando. Em se tratando de natação... zero. Uma braçada ou outra. E no verão. Quanto à música, só na República Três Platôs. Um violãozinho, umas nesgas de queijo e salame. Sem crise, sou interventor.

     A nomeação foi feita por mim mesmo. Aprendi a técnica com os donos do Brasil. Se o judiciário pode, se o legislativo pode, se o executivo pode, eu também posso. Chamei a mim mesmo num canto, e disse: “a República precisa de você, homem de Deus”. Esses quadrúpedes precisam de regras, de um chicote, de um mandatário. Estabeleci meu salário, como fazem nossos magistrados, estipulei minha exígua carga horária, semelhante aos legisladores, e dei-me ao luxo de fazer o que bem entendo, como o executivo. Pronto, fácil assim virei, da noite para o dia, um interventor. E tratei de mostrar aos bovinos como é que se vive. Um balde de ração por dia para cada um. É o famoso bolsa-ração. Quem não me obedece, companheiro, tem que pastar. Pirata, o manda-chuva dos moradores da República Três Platôs, entendeu bem minha política. Parece até que fizemos um acordo. Não que tenhamos feito, evidentemente. Ele ganha, contudo, bem mais farelo que os demais. Como tenho poder de polícia, posso mandar prender e mandar soltar quem bem entendo, Gerineldo anda de cara amarrada pro meu lado. Acha que estou pegando demais no pé dele e deixando Jipão fazer o que quer. O danado entende que, por se tratar de uma república, todo o sistema é corrupto. Ele que não se meta comigo. Sou capaz de forjar provas contra ele e encerrá-lo num curral até o dia dele ir parar num frigorífico.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ei, bonitão, atende o celular

     Digo não ao rejeitar uma chamada do celular. Digo não sem ficar vermelho. Digo não sem me importar com a cara de quem está do outro lado da linha. Digo não com uma insensibilidade maior do que a de um governante que não disponibiliza médico para seus eleitores. Digo não. Digo não com a empáfia de um professor que não aceita reavaliar a nota de um aluno. Digo não antes de ouvir ao menos um olá. Digo não porque tenho na ponta de um dedo, o que aperta a tecla não, o poder. O poder de dizer não. O maior de todos os poderes. Mais destrutivo do que a bomba atômica lançada sobre Hiroshima. Mais violento do que político que rouba merenda escolar de crianças. Crianças essas que muitas vezes vêem no colégio uma chance de encher a pancinha aflita. Ah, o poder de dizer não. Mais forte que o tornado. Esse limita-se a destruir o que está na superfície. O não vai lá dentro, ao âmago da alma. E extrai da raquítica o que resta de vida, de auto-estima, de lucidez. O não do celular é o sim ao desprezo. É o sim ao “vai te danar”. Por isso é inexorável. Mesmo quem não sabe o que significa inexorável pode sê-lo; o não permite. Digo não e tomo um drink. Digo não e grito gol. Digo não e mastigo um sanduíche de frango. Digo não e gargalho. E digo.

     O não do celular. Tem a prepotência de um ignorante. Sabe aquele cara que se tivesse a mínima noção do que fala ficaria calado? O não do telefone é mentiroso, como o candidato que promete o que sabe ser impossível cumprir. O não causa a sensação de poder. Ora, ora, paisano, o poder do não é inatingível. O poder do sim é dele um estafeta. O sim é dos atoleimados, dos desocupados, dos românticos. O sim é dos fracos, dos sensíveis idiotizados, dos zés-ninguém. E o que é o homem, animal? Os dentes não resistem um ano sem ir ao dentista. Vira um caco esburacado. E fedido. Os olhos capengam ante qualquer lusco-fusco. A sapiência escafede ao mirar um rabo de saia, ou uma barriga de tanquinho. A robustez e a beleza viram farrapos à ingestão de um pastel vencido. E o poder do homem é transportado em um caminhão limpa-fossa. Ah, ah, ah. Eis o homem. Eis a beleza. Eis o poder. Eis o não do celular. Diga sim e seja homem.

     Diga sim e tenha força para explicar. Diga sim e escute. Diga sim e lance ao mar o que mais te pesa. Diga sim e jogue-se ao mar. Diga sim e admita a própria impotência – nada é mais humano que esse sentimento. Diga sim e chore. Diga sim e admire-se de não poder sorrir. Diga sim e sinta-se supremo ao menos por dois segundos. Diga sim e ouça o “que bom que você atendeu” do outro lado. Diga sim e seja educado. Ou manda a boa educação que viremos a cara a quem passa por nós na rua e diz “ei, fulano, quero falar contigo”? Diga sim e peça desculpa por não poder conversar por muito tempo. Diga não ao não. Diga sim e tenha um bom fim de semana.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Democracia...rsrsrs

     No sítio quem manda é o Pirata. É o mais velho, o que tem o chifre maior e o mais forçudo. Apesar de ser touro, Gerineldo ainda é um frangote e não tem força suficiente para enfrentar o boi mestiço de Jersey com Charolês. Sendo assim, mesmo castrado Pirata é o presidente da República Três Platôs. Três Platôs é o nome do sítio onde eles vivem, e, apesar de não constar no documento da propriedade, chamo-o de República. E, de fato, é isso mesmo, uma República com todas as letras. Pirata, dando chifrada em um e coice noutro, é o mandatário. Apesar de parecer um amor de animal, vira um Arthur Bernardes quando defende os próprios interesses. Bernardes, lembra dele, aquele presidente da república do brasil – assim mesmo, com um ‘b’ pequeno – que cumpriu o mandato inteiro com o país em Estado de Sítio? Perseguindo a tudo e a todos, boicotando a fraquíssima imprensa da época e vendo chifre em cabeça de cavalo, o “Paulista de Macaé”, como era conhecido, governou o gigante adormecido. Pirata segue a mesma linha, ao primeiro sinal de ameaça, desfere uma cabeçada no raquítico Gerineldo. “E daí?”, você pode está pensando. Em frente, paisano.

     Daí que Gerineldo está crescendo e, sendo um touro, será eleito pelas próprias forças como o novo regente do pedaço. Engana-se quem pensa que, uma vez tendo combatido o tirano Pirata, o mestiço de Nelore com Jersey – é essa a genética de Gerineldo – estabelecerá a democracia no campo. Necas de pitibiriba, papangu. Gerineldo, assim como fez Getúlio Vargas ao tomar o poder de Washington Luiz em 1930, imporá uma ditadura que fará Idi Amim Dada parecer um anjo bicudo. É assim, meu caro, entre os animais de chifre. É assim na República Três Platôs. É assim sob o plumboso céu de meu Deus. E acho mesmo que até lá em cima a coisa é na base da força. Basta saber que, conforme a Bíblia, Lúcifer era um “bola cheia” do céu até fazer oposição ao criador – danou-se inferno adentro.

     Gerineldo acha que Pirata precisa ser mais flexível, dividir o poder e ser menos reacionário. Pirata, cônscio da efemeridade do posto que ora ocupa, nem discute tamanha absurdez. Somos todos democratas, em casa, na escola ou no trabalho. Em casa enquanto filhos, na escola enquanto alunos, no trabalho enquanto reles funcionários. No dia em que assumimos o jugo de pais, no dia que viramos professores, no dia em que vestimos a roupa de chefes, a democracia vira um passado distante, cujos raios luminosos são insuficientes para clarear um centímetro quadrado. Eh!, República, eh!, democracia. Eh!, nós.