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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um calção velho, uma manga e uma vida besta

          “Um velho calção de banho”, cantou o poeta. Nada muito complicado. Coisa baratíssima. Pode ser o suficiente para alegrar o bendito possuidor. Não é preciso um iate de luxo. Muito menos um jatinho. Uma roupa desbotada pode ser mais do que perfeita para deixar feliz quem a usa. A felicidade é um alvo no qual miramos diuturnamente. O interessante é que as caras “amarradas” se multiplicam ao nosso redor. Será que atiramos tão mal? Qualquer “todavia” é motivo de separação entre casais. Um simples e educativo “não” é mais do que suficiente para um terneiro mamão se achar no direito de não falar com a mãe. Ou com o pai, se o bovino for presente. Queremos mais, queremos mais, queremos mais. A lógica consumista invadiu lares, do mais pobre ao abastado. Um bebê chorão de dez anos não suporta o peso de viver sem uma internet velocíssima. E pensar que eu brincava de ser fazendeiro – e lá se vão algumas décadas, Jesus Cristo! – espetando palitos em pequenas mangas e transformando as frutas em nelores, zebus e charolêses. Os palitos eram os pés dos quadrúpedes. Ah, cheguei a abastecer os maiores frigoríficos da América latina. Enricava enquanto trajava um legítimo calção vagabundo, verde com umas listras brancas. Debaixo da árvore eu comprei uma motocicleta, um opala e um sítio com gado de verdade.

         O tempo vai passando e nossos sonhos vão se concretizando. Um e outro se perdem na estrada do destino. As velhas mangas agora são milhões de reais a serem perseguidos. E as conquistas não trazem sorrisos descomprometidos. Carregam a insônia, a preocupação e os remédios. E me pergunto se aquela “vida besta, meu Deus”, da qual falou Drummond, era mesmo besta. Pensando nisso, eu comprei um jogo de dardos. Sempre quis ter um. Não é um brinquedo caro. Não me pergunte o motivo de não tê-lo adquirido antes. Talvez os bens mais caros tragam mais status. Mesmo sem perceber, somos engolidos pelo capitalismo de fachada. A verdade é que passamos o fim de semana espetando o piso de madeira, a parede e, às vezes, o alvo. Verdade é que depois de algumas horas já dominávamos a arte de lançar as pequenas setas de aço. E fiquei pensando no velho calção de banho, nas mangas e na vida besta.

Diversão barata para o fim de semana


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Um cara de sucesso

- O que é um cara de sucesso?
- Um cara que tem dinheiro.
- O que mais?
- Bem sucedido profissionalmente.
- O que mais?
- Que faz sucesso com a mulherada.
- O que mais?
- Que tem porte atlético.
- O que mais?
- Como, o que mais?, achas isso pouco?
- Tudo bem, tudo bem. Mas me diz mais uma coisa: o que é um jogador de sucesso?
- Ué, um que joga num time grande, tipo: São Paulo, Flamengo, Cruzeiro...
- Quer dizer que se o cara é jogador de futebol, atua em um time grande, é famoso, tem dinheiro e vive cheio de mulher, pode ser considerado um cara de sucesso?
- Óbvio, meu chapa. Tas começando a me irritar, com tantas perguntas.
- É que sou curioso mesmo. Não me leve a mal. Responde, porém: o que é viver cheio de mulher?
- Ô meu, de que planeta você é? Viver cheio de mulher é sair para as baladas e pegar quantas quiser. Se der, mais de uma por noite.
- Entendi. Só não sei se um cara agindo assim não pode ser confundido com um mau-caráter.
- Tá louco, Mané? Um cara assim é um ídolo. Não vem com esse papo de mau-caráter, não. Um cara assim é respeitado pela sociedade. É capa de jornal, de revista e o escambau.
- Saquei. Agora deixa eu ir que vou assistir as últimas notícias sobre um goleiro de sucesso.
- Que goleiro?
- Bruno, do Flamengo.
- Que nada, maluco, aquilo é um safado.
- Ué, ele não é famoso, tem dinheiro, vive cheio de mulher e joga num grande clube?
- Sim, mas ele se envolveu numa parada errada, vacilou.
- Não é um risco que corre um cara de sucesso?
- Deixa eu ir embora, outro dia a gente conversa. Valeu.
- Valeu.