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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Vai um carteiraço aí?

“Sabe com quem você tá falando?”

          Quem de nós nunca ouviu tal frase? Se não ouviu, conhece, de certeza, alguém que teve o desprazer de escutá-la. A pessoa que pergunta, geralmente, acha-se importante demais para ter que se sujeitar às regras e tratamentos dispensados aos comuns. É o conhecido carteiraço. E por mais antiquado que pareça, continua vivíssimo. Agora tem uma situação que me parece sensacional: o cara implora tua atenção, roga para ser ouvido e você não quer perder tempo com um cidadão que não tem a menor chance de latir um “sabe com quem você ta falando”. É que a gente se acostuma com os títulos, passa a respeitá-los e só dá trela para quem os carrega no peito ou na garganta.

          Certa vez, fim dos anos setenta e início dos oitenta do século passado, um amigo meu estava caminhando pelas quadras da Asa Sul, na minha saudosa Brasília. Digo minha porque além de ser a capital do país onde nasci e moro, abrigou-me por alguns anos. Chamo de saudosa porque só quem morou lá conhece as delícias da vida no planalto central. E mesmo com todos os dejetos humanos que os Estados da Federação para lá enviam, Brasília continua firme e forte, feito palanque no banhado. Voltemos ao meu amigo, voltemos à caminhada.

          Quando passou em determinada quadra, que confesso não lembrar qual, ouviu um tímido chamado. Um rapazola com seus dezesseis anos segurava um violão. E pediu que meu amigo escutasse as canções que fizera. Que as avaliasse. Estava aflito por uma aprovação, mesmo que fosse de um incógnito passante. Meu amigo, apesar de desconhecer o projeto de cantor, foi educado e ficou lá ouvindo algumas músicas. Depois o anônimo perguntou o que Marcelo – esse é o nome do meu amigo – achara das composições. O filho de catarinenses mostrou-se impressionado com a qualidade das canções. E foi embora.

          Anos depois Marcelo foi surpreendido com a presença daquele ex-anônimo, agora famosíssimo, empunhando uma guitarra e cantando a plenos pulmões em horário nobre da televisão. E Marcelo lembrou de imediato a música que ouvira anos antes em um banco qualquer de uma quadra residencial de Brasília: “Tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você. Não é me dominando assim, que você vai me entender. Eu posso estar sozinho, mas eu sei muito bem aonde estou. Você pode até duvidar, acho que isso não é amor”. Renato Russo não tinha nome, consequentemente não podia ter obrigado Marcelo a ouvi-lo. Marcelo, por sua vez, teve a honra de assistir a um show particular daquele que se tornaria uma lenda da música brasileira. Estamos preparados para escutar quem não tem carteira para nos mostrar?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Brasília diz não aos corruptos

       Parabéns brasilienses, vocês estão dando uma aula de consciência política  

          Brasília está fervendo. A revolta da população é visível. Da polícia também, só que essa está na contramão dos fatos. Ao invés de prender o “Papai Noel do Panetone”, ela resolveu agredir os cidadãos brasilienses. E, diga-se de passagem, a população da capital federal está de parabéns. Isso mesmo, não aceitou a postura dos seus governantes e foi às ruas exigindo mudanças imediatas. Agora me diga uma coisa, leitor: corrupção é prerrogativa do governador Arruda? No Estado onde moras, não tem corrupto? Sabe por que eu pergunto? Porque existe uma crença, disseminada pelo Brasil afora, de que em Brasília só tem corrupto. Ora, ora, amado mestre. A grandessíssima parte dos gatunos que se movem pelo Planalto central é enviada pela população dos demais Estados da Federação. Arruda é a ponta de um iceberg chamado “corrupção nacional”.