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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Droga, droga e droga

Aproxima-se da meia noite. O posto de combustível às margens da BR fervilha. Mesmo assim, as bombas não despejam uma gota de gasolina, álcool ou óleo diesel nos tanques dos veículos. A movimentação é no pátio, onde caminhões estacionados servem de trincheiras para traficantes, viciados com narizes eufóricos e prostitutas. O estrago causado à sociedade é impossível de ser quantificado. Um rapaz de 19 anos comanda a boca. Aristeu, chamemos assim o moço, é um velho conhecido da polícia. Vende crak, maconha e cocaína. A mãe dele é falecida. O pai, potiguar, mora com uma pernambucana. O casal não aprova o modo de vida adotado por Aristeu. Jercino, nome fictício do pai, não permite que produtos advindos de roubo ou tráfico entrem em sua casa. “Não aceito vagabundo. Não quer trabalhar honestamente, então não apareça perto de mim”, esbraveja em tom de desabafo.

Por volta das 2h da madrugada, Aristeu chama um taxi. Vai à capital, há cerca de 20 km, buscar uma nova remessa de drogas. Ao ser perguntado se não tem medo de ser pego pela polícia, fala grosso: “Eu vendo para policiais, também. Se acontecer alguma coisa comigo, eu entrego todos eles. Meus clientes, aqui, são, na realidade, os caminhoneiros”. Um rapazola de 17 anos está agachado sob a carroceria de uma carreta. O cachimbo movido à pedra está em frenesi. Seu nome? Messias. É irmão de Aristeu. Quase alheio ao que se passa em redor, sorri quando um passante lhe diz uma pilhéria. Não estuda. Não trabalha. É um nordestino sem esperança de dias melhores. Um brasileiro anônimo. Um filho que morreu para o pai, embora não tenha ciência disso. E que está morrendo aos poucos pela boca. Ninguém faz nada. “Será preciso mais que um ‘messias’, para salvar Messias”, penso entristecido.

“Aqui ta tudo tomado pela droga”, diz Anastácia, madrasta dos rapazes. “Tem ‘minino’ de dez anos viciado em maconha”, assusta-me. “Outro dia, meu marido pegou Messias fumando ‘peda’ e deu-lhe uma surra. Queria fazer ele comer a ‘peda’. Só não matou porque eu não deixei. Eles - Aristeu e Messias - moram num barraco perto da nossa casa. Jercino não quer eles aqui. Mas quando ele sai para trabalhar, eu dou comida a eles. Tenho pena”.

O que contei, vi na periferia de uma capital nordestina. Um lugar empobrecido, onde o dinheiro do meu imposto parece não chegar.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Isso é coisa de filho

          Não sei o que houve com Aguinaldo – chamemos assim o pobre homem. Fazia um pouco mais de um ano que eu não via o cidadão. Não, ele não estava preso. Proprietário de um restaurante às margens de uma rodovia que rasga Santa Catarina, o camarada está todos os dias no front. Ressalto que ele adora o que faz; pelo menos foi o que me assegurou quando o conheci há três anos. Por essas coisas que nem Freud explica, fiquei um ano sem almoçar no estabelecimento comercial do meu amigo. Na semana passada, por volta do meio dia, vindo para Florianópolis, decidi saborear uma costela com Aguinaldo. É que sempre que vou lá, ele faz-me companhia. Senta, pergunta pela vida, conta a dele, lamenta os maus resultados do Vasco da Gama e completa: “Nunca mais vou me candidatar”. De tanto ele afirmar isso, acho que ele sai para vereador nas próximas eleições. Da última vez foi diferente.

          Aguinaldo tem cinqüenta anos, aproximadamente 1,70m, cabelo ligeiramente grisalho, bigode no mesmo tom da cabeleira e uma farta conversa. Era, pelo menos, assim. “O que aconteceu com esse homem, meu Deus”, exclamei para mim mesmo. Em um ano ele envelheceu sete, no mínimo. Sabe aquele choque que você sente quando vai ao hospital visitar um amigo que acabou de passar por um tratamento e perdeu dez quilos? Aguinaldo parecia ter jogado cal na cabeça; branca, branca. O cansaço saltava-lhe a face. Até a fala, antes tão vibrante, limitou-se a um balbucio. Nem comentou sobre o escrete cruz-maltino, que neste ano conseguiu não voltar para a Série B. Eu, que nunca tinha perguntado sobre a família do comerciante, imaginei: “Isso é coisa de filho”. Sim, porque para destruir uma pessoa daquele jeito, só um desgraçado de um filho ingrato. Vamos combinar, os tipos de filhos que são fabricados hoje em dia é uma vergonha. E um mísero herdeiro, quando ensandecido, poderia, sim, ter causado tamanho estrago no catarinense em questão.

          Coitado do Aguinaldo. Pensei em sugerir que ele voltasse à política, mas hesitei. Era melhor não incentivar. Vai que ele resolve se alegrar a custa do erário? “Aparece, Gilead”, pediu enquanto eu acionava o motor da motocicleta. “Claro, meu amigo”, respondi tentando enxergar o Aguinaldo do ano passado. Será que é problema de saúde? Ou financeiro?! Não, ele até contratara um gerente para dividir a carga. Não sei o que houve com o Aguinaldo.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Assumindo o controle do teu morro

          Ninguém fala em outra coisa, aqui no Brasil: é só Rio, Rio, Rio. E não fugirei à regra. Não é, porém, da Cidade Maravilhosa que farei referência. Não, é ao teu Rio de Janeiro, ao meu e ao nosso Rio. Antes te pergunto: Como é que os morros cariocas chegaram à situação em que estão? Se você viu televisão, leu jornal ou escutou rádio, sabe que foi devido a ausência do poder público. Sem o mando do Estado, os traficantes ditaram as regras. E como é em nossas casas?
          Outro dia eu estava assistindo a um programa televisivo de domingo à noite e me apareceu uma família moderna. Uma mãe com três ou quatro filhos. O pai, que não é bobo nem nada, saiu pela tangente. No máximo paga uma pensãozinha. E muitos deles não dá mais um tostão quando o filho completa a maioridade. A mãe que se vire. Chamou minha atenção uma das filhas, por volta dos 15 anos, que estava com o namorado. Ela frisou que a não aceitava a mãe colocar um namorado dentro de casa. E a mãe, idiota, ficou mostrando os dentes. Enquanto isso, a pirralha estava com o namorado no sofá. Ou seja, a mãe que paga as contas não manda na casa, quem manda é uma babaquinha que ainda nem perdeu o odor das fraudas. E na tua casa, como é?

          Dia desses um rapaz, que mora com a mãe, disse que acha normal mandar a genitora tomar no “pi”. Outro, que mora com o pai, afirmou que já mandou o velho para a pqp. O que é isso? É inversão, meu chapa. Quem deveria ter o domínio no lar perdeu o pulso. O despreparado, o desmiolado, assumiu o comando. E o resultado? O resultado podemos acompanhar nos jornais diários. Aproveitando a deixa, será que não é hora de pais e mães retomarem o controle de seus morros?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Desgraçadas ruas

          Ele vinha a passos apressados no calçadão da Felipe Schmidt, Centro de Florianópolis. Não devia ter mais que dezoito anos. Os cabelos, tenho certeza, não conversavam com um pente havia dias. A pele do rosto quase não cobria o zigomático. A sola do pé já devia estar acostumada ao contato direto com o chão. Será que pesava 50 quilos? Talvez, osso pesa pra caramba. As roupas, ah, as roupas, pareciam ter saído de dentro de uma garrafa. Garrafa suja, diga-se de passagem. Os olhos, entretanto, corriam da esquerda para a direita procurando o que talvez só o rapazola soubesse. Afundados na cavidade ocular, arrastavam a cabeça toda vez que se mexiam. E a cabeleira negra ondulava. Ao vê-lo, ainda de longe, aquela correria do olhar chamou minha atenção. O que buscava?

          O cérebro, de certo, ainda trabalhava, apesar de seu possuidor parecer mais um autômato. Teria pai o tal guri? E mãe? Certamente, não. Alguém projetou irresponsavelmente, alguém pariu. O que não significa que são pais. Claro, é uma questão de achismo. Eu acho de um jeito, outra pessoa pensa diferente e uma outra concorda. Como aqui eu escrevo o que eu acho, pois a crônica é minha, aquele piá não tem pai e muito menos mãe. Se tivesse um pai, leitor e leitora, não estaria naquela situação. E não me tenha por ignorante, muito menos por intolerante. Nem me xingue de insensível, por favor. E se você me perguntar se os pais são os culpados pela decadência de um ser que um dia foi anjo, não penso duas vezes antes de responder: sim, os pais são os culpados. E digo sem pensar porque já pensei bastante.

          Lógico, se os pais do moço que vi na rua morreram quando ele ainda não tinha os primeiros dentes, isento-os de culpa. Se estão vivos, simpatia, deveriam ser responsabilizados. E talvez até estejam arcando com um alto preço pela miséria do filho. Talvez tenham passado as últimas noites sem dormir. Talvez tenham gasto os recursos que tinham na busca de tratamento para o rebento. Não vou dizer “bem feito” porque talvez eles sejam a continuação de uma geração desgraçada. Desgraçada por um discurso que permite aos filhos fazerem o que bem entendem, como se os menores tivessem condições financeiras e psicológicas de arcar com as conseqüências. Desgraçadas com a falta de limites, com a falta de autoridade paterna. Desgraçados pais, desgraçados filhos e desgraçadas ruas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

"Eu quero ser bandido"

          Antes de qualquer coisa, informo-lhe, paisano, que a história que vou contar é a mais pura verdade. Passou-se em uma cidade aqui perto de Florianópolis. Mudarei o nome dos personagens para evitar problemas para eles. Aconteceu com um casal que tem um filho de seis anos. Anos, não, aninhos, para ficar mais meigo. Se bem que, de meigo o guri não tem nada. Ou pelo menos não tinha. O sonho do menino era ser bandido. Isso mesmo, bandido, marginal, ladrão ou derivados. E os pais, coitados, preocupadíssimos com os anseios do pequeno. E vou te contar, o piá é o que costumamos chamar de pestinha. E olha que eu entendo dessas praguinhas. Sou capaz de identificar um garoto ruim no meio de uma plantação de alface. Quando lhe perguntavam o que ele queria ser quando crescesse, não pensava duas vezes: "Bandido". Agora vamos combinar, tem gente que não pode ver uma criança que já vai perguntando o que ela vai querer ser. Sinceramente, se eu voltasse a ser criança e um desgraçado de um adulto me fizesse a tal pergunta, eu seria malcriado e devolveria na lata: “ora, se você até hoje não sabe o que quer ser, eu que sou criança vou saber?!” Voltemos ao animalzinho catarinense.

          De tão preocupados os pais passaram a procurar uma forma de mudar a cabeça do, então, futuro delinqüente. Lembraram que tinham um amigo delegado. Estava feita a armação. Em dia combinado, levaram o admirador de Fernandinho Beira Mar à delegacia. Chegando lá, apresentaram o fulaninho ao homem da lei. Este foi duríssimo:

- Então é o senhor que quer ser bandido, não é? – e deu uma porretada com o cassetete na mesa. Falou aos berros. O inocente arregalou os olhinhos e apertou as mãos protetoras dos pais.

- Venha cá que vou mostrar ao senhor o que faço com os bandidos que eu prendo – e arrancou o anjinho da proteção paterna. Levou-lhe às celas lotadas. O calor era intenso, os presos suados e amontoados, como se fossem animais sem dono,não entendiam o que se passava. O cheiro de urina e fezes, próprio de delegacias convertidas em presídio, deixou nosso capetinha de testa franzida. E o delegado arrastava o cassetete pelas grades da detenção. Era um barulho amedrontador. De volta à sala, o homem deu o golpe de misericórdia:

- É isso que faço com bandidos. E fique sabendo, se o senhor virar bandido eu vou te caçar até achar. E não adiantará se esconder. Vou te pegar. Vou trazer você para minha delegacia. – Disse isso e despediu-se dos visitantes.

         À noite o pequeno não dormiu. Disseram-me os pais que ele não sossegou. A toda hora acordavam ouvindo barulho vindo do quarto do menor. Quando levantaram para tomar café, deram de cara com o convertido filho. Ainda com a carinha de preocupado o pupilo desarmou-se:

- Não quero mais ser bandido.- Fingido desentendimento os pais apoiaram a decisão do rapazola. E nunca mais, e já faz mais de seis meses, o menino falou em ser marginal. Tratamento de choque? Sim. Pode deixar traumas? Pode. Cá entre nós, melhor um traumatizado honesto e dentro da lei, do que um “maneiro” marginal.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Palmada, câncer e gangrena

          A palmada agora está proibida. Pai algum sairá impune, no Brasil, se ousar tocar com a mão no filho. É lei, amizade. E lei, você sabe como é, não é? Só não cumpre quem é fraco da cabeça, ou rico o suficiente para passar por cima dela. A grande parte da população verde e amarela se encaixa na turma que precisará obedecer a nova legislada. Eu, acredite, sou totalmente favorável à medida. Que papo é esse de pai bater em filho? Toda criança, desde que dá a primeira chorada neste torrão, tem a capacidade de analisar as próprias atitudes. E se erra, o problema é dela. Pai não existe para corrigir filho. É preciso que fique claro. No tempo que fusca era carro de luxo, até que vá lá, mas as coisas mudaram. A situação foi invertida, conterrâneo. Agora é o filho quem manda no pai. Durma com esse barulho.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A televisão me deixou burro? Cuidado, senão te dou um coice

         Sei que aqui não é um confessionário, mas quero confessar uma coisa para você: criticar é muito fácil; e como criticamos! Eu mesmo sou extremamente crítico. Você também deve dar suas cutucadas em alguém, é ou não é? Tudo bem, não é nenhum pecado criticar. Mas quando a crítica é infundada, malvada ou fruto da ignorância, o buraco é mais embaixo. Falo isso devido aos constantes comentários que ouço a respeito da televisão. Gente do céu, precisamos entender o papel de cada pessoa, cada entidade e, inclusive, cada veículo de comunicação na sociedade. É esta a ferida que vou tocar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Licença para matar

           Guarde bem estes nomes: José Álvaro Machado, Adriana Lisboa e Rubens Spernau. O que fazem: o primeiro é advogado, a segunda é juíza e o terceiro é político. O que são: tire suas conclusões enquanto lê. O que une os três? Um assassinato. Um não; três. Isso mesmo. O senhor Rubens, ex-prefeito de Balneário Camboriú/SC, tem um filho: Lucas Spernau, 19 anos, estudante. Pois bem, o rapazola estava saindo de uma noitada em Camboriú a bordo de uma caminhonete e, em alta velocidade, bateu contra um taxi. O taxista e dois passageiros morreram. Uma quarta passageira está na UTI.