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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Prefeitura de Picuí defende-se de matéria publicada

     A prefeitura de Picuí/PB entrou em contato comigo para dar a versão dela sobre as críticas que fiz à cidade quando passei por lá no último dia dezesseis. Com a palavra, a defesa:

     "Bom, querido Gilead, li sua matéria sobre minha cidade "Picuí, terra da carne de sol", no entanto vou discordar. Veja só, Picuí amargou por muitos anos o descaso, realmente, mas o prefeito Rubens Germano, vem trabalhando e muito para mudar esta realidade. O montante de obras realizadas no município para melhorar a qualidade de vida da população foi intensa nesta gestão. Sabemos que falta cobrir algumas arestas, mas estamos caminhando. Dê uma olhadinha nos nossos indicadores sociais, afinal de contas estes, independentemente de qualquer coisa, ressaltam a eficácia de uma administração pública. Até porque de que adiantaria a cidade ter monumentos exuberantes e sua população viver miseravelmente, como acontece por este Brasil a fora? Ademais, me coloco a disposição pra qualquer dúvida. Só pra justificar e não parecer que estou mentindo, a pavimentação asfáltica só está assim devido o constante tráfego de caminhões e carretas, uma vez que o município, por ser divisa com o RN, tem um volume muito grande deste meio de transporte, mas sempre são feitos os reparos deste trechos. Quanto a entrada da cidade está cheia de buracos, também é por causa dos caminhões. Não sei se quando você passou na saída viu uma empresa fazendo "tapa buracos". E só pra lembrar Picuí está situada na Paraíba, 4º Estado mais pobre, ou seja, numa região que não recebe tantos investimentos quanto a que você reside. Ah! Nós temos lugares bonitos e bem estruturados tambem, Venham conhecer!"

Rosemary Farias - Assessora de Comunicação 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Yama, o filho de Mefisto

     O camarada acorda às três e meia da manhã. Apavorado, imagina que ainda está dormindo, sonhando. Não, tendo um terrível pesadelo. Se bem que, se é pesadelo, é sempre terrível. Entre o real e o abstrato, nota três olhos observando-o. Seria Yama, o filho de Mefisto, aquele horrendo bruxo que fazia de tudo para matar Tex Willer, meu herói de infância da revista em quadrinhos? Naquela época, um lençol resolvia o problema. Bastava apertar as pálpebras ao limite, cobrir-se da ponta do pé à cabeça e esperar que a camuflagem afugentasse aquele bruxo de rosto cadavérico e barbicha em forma de cone. Nem mesmo o calor do Nordeste impedia a construção de minha improvisada trincheira sobre a cama de campanha no barracão onde eu dormia na companhia de meu avô materno e de meus irmãos. De tanto medo, adormecia. No outro dia, ainda ressabiado, procurava a revista para ler outra vez. "Yama, seu desgraçado, quero ver você me apavorar agora sob esse sol que espanta demônios", pensava minha inocência de oito anos incompletos. Quando as trevas caíam sobre o sítio em meio à mata atlântica, eu me preparava para mais uma violenta guerra sobrenatural. Com receio de provocar mais ainda a ira de Yama, não contava a ninguém de seus assustadores ataques.

     Nossa casa ficava a cinquenta metros do rio que chamávamos de Ponte Velha.  O curso d’água levava o nome por passar sob a antiga ponte da BR-101. Luz elétrica nem pensar, o que já era um baita ingrediente para a imaginação de uma criança. A chama dançarina do candeeiro fazia surgir imagens medonhas do arqui-rival de Tex nas paredes. Entre uma colherada e outro de cuscuz, o infeliz Yama fazia ameaças do tipo “espera, menino”. Meu avô, o maior santo que conheci, era minha única esperança caso o tinhoso desferisse um ataque forte o suficiente para ultrapassar o delgado lençol que me protegia. Pai Nié, era esse o nome do baixinho de olhos azuis a quem eu estendia a mão antes de me deitar e pedir “a bença”. Avô, naquele tempo era um ser sagrado e consagrado, digno de abençoar um neto indefeso antes de dormir. Claro que Yama fugiria feito uma bala se Pai Nié flagrasse ele perturbando o sono do neto mais novo. A briga com o malvado era, entretanto, pessoal. Perturbar o avô estava fora de cogitação. Meu pai dormia na casa ao lado e diria, caso eu me queixasse a ele: “deixe de ser besta, rapaz”.

      Os ataques de Yama perdiam força quando meu irmão Gilson comprava novas revistas de Tex que não traziam o feiticeiro como personagem. Aí eu podia ler à vontade. De pistoleiro eu não tinha medo. Sim, lá em casa tinha arma de fogo e com elas eu estava acostumado. O tempo passou e o Gile cresceu. Enfrentou gente bem pior do que Yama. Conheceu uns tipos que fariam, sem dúvida, do tenebroso Yama um office-boy. Não vou citar nomes para não gerar desconforto no inferno. Agora, na quarta década por este mundo de meu Deus, sou acordado por três olhos de outro mundo. Quando retomo a consciência é que o mistério se desfaz. Um olho grande, vermelho, vinha da parte inferior da televisão. Outro, também vermelho era do aparelho de DVD.  O terceiro, o mais aterrorizante, verde e se mexendo, era do decodificador da TV por assinatura e informava o canal número trezentos, que eu ativara para ouvir duas músicas antes de entrar no mundo dos sonhos. 
           É, Yama, nossos combates eram muito mais saudáveis.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Nízia Floresta não é a burguesia, mas fede

     Vamos supor que vossa senhoria seja convidada a votar na performance de alguém. Chega às vossas mãos uma ficha contendo três opções para você optar por uma: ótimo, bom e regular. Acontece que você achou o desempenho algo assim... sofrível, horroroso, uma lástima. Como é que você vai fazer para opinar? Se marcar ótimo, estará mentindo; se assinalar bom, também; optando por regular, nem assim estará dizendo o que pensa. E agora, José? Pois foi assim que me senti ao acessar o site da prefeitura municipal de Nízia Floresta, cidade localizada a 35 quilômetros de Natal/RN. Vi uma enquete onde o internauta poderia avaliar a administração da prefeitura. E grifo “prefeitura” com p minúsculo porque não tenho um p menor. As alternativas eram exatamente as mesmas que relacionei acima. Gente do céu, eu estive lá. É uma tristeza. O prefeito, conforme servidores públicos me confidenciaram, “só aparece na cidade uma vez por semana”. Fiquei horrorizado e perguntei a um funcionário: - Mas o prefeito não mora aqui?- E ele ironizou: - Ta brincando rapaz, ele só frequenta esta cidade no ano da eleição.



- Qual o salário do prefeito?- perguntei.

- Não posso dizer não "sinhô". – respondeu.

- Mas essa informação é pública -, retruquei.

- Ah, é? Então... é doze mil –



     Nossa senhora das botijas escondidas! O camarada recebe uma dinheirama dessas por um emprego e não precisa comparecer ao local de trabalho?! A cidade tem um litoral de praias belíssimas, as casas de veranistas multiplicam-se como formigueiros. Imagine, seu moço, o quanto a prefeitura arrecada de IPTU! A menos de vinte quilômetros distante da praia, esconde-se a pequena sede do município. As ruas são fétidas. Os esgotos correm por cima da pavimentação. O município tem 23 lagoas e abastece várias cidades do Estado potiguar. Mesmo assim, o lençol freático fica à mercê de pútridas lamas que serpenteiam pelo meio das ruas. Ora, ora, amado mestre, pois não é que o prefeito asfaltou certas ruas e deixou de fazer o saneamento básico? Ouvi falar, mas não creio que seja verdade, que o prefeito, que está no quarto mandato, é engenheiro. Não, não creio que um engenheiro seria tão irresponsável. O lugar da cidade melhor cuidado é o cemitério. Verdade, é limpo, pintado, e parece pronto a receber aqueles que não suportarem a catinga das ruas. Agora, vamos combinar, o cara ser prefeito de uma cidade e não ter coragem de morar nela, já diz tudo.


As barracas da feira são emolduradas pelos esgotos

A falta de esgoto permite que a frente da escola fique assim

Ainda bem que a tela não reproduz o cheiro

Bem vindo ao cemitério


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Belezas do Rio Grande do Norte


Barra de Cunhaú


Aposentado? Fala sério


Muito preocupado com a crise no Egito


Até que é um bom lugar para se bater papo


Na hora do almoço? Rsrs


Praia de Sibaúma





Praia de Camurupim



Praia de Tabatinga



Rendeira em Tabatinga








sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Danem-se, miseráveis

     As construções precárias, algumas de pau-a-pique e chão batido, parece terem sido projetadas pelo mesmo arquiteto que fez os hediondos círculos retratados pelo florentino Dante Alighieri em sua Divina Comédia. Um pedaço de inferno no Nordeste de um Brasil tão rico. Raríssimas são, quase que num contra senso, as casas em que o céu não esteja representado. Em uma delas, duas, noutra, três. Às vezes, cinco anjos de olhos cintilantes e barrigas crescidas por abrigar tantos vermes, brincam sem saber que o futuro é perdição. O que pedem da vida? Quase nada. Uma bola de plástico, quando muito, para dar vazão às puerilidades, ou uma boneca sem braços. Talvez, presentes de um protetor que ceifa-lhes o sopro divino aos poucos – o prefeito. Sim, senhoras e senhores, o prefeito e seus vereadores são os demônios que eliminam quaisquer possibilidades de tais crianças ascenderem socialmente. Roubam-lhes o direito a saúde. Ao invés de sanear o município, e evitar assim a presença de pestes, fazem arremedos de pavimentos que, superfaturados, tornar-se-ão em belas casas de praias, apartamentos luxuosos e carros importados. Oferecem salários de miséria aos professores e atraem, para a nobre função, profissionais desencorajados e também vencidos pela desgraça. A merenda escolar, que para alguns anjinhos é a principal refeição do dia, chega em forma de comida de cachorro. Cachorro de pobre, diga-se de passagem. Por quê? Porque políticos inescrupulosos precisam de filé-mignon na mesa de suas mansões. "Danem-se, miseráveis, o que nos interessa são apenas os votos dos teus pais", gritam pelas ruas quando fazem comícios. Depois, correm para o céu do litoral. Gula, avareza e luxúria lhes esperam – só para citar alguns pecados. Ah, fotografias em jornais, aparições na TV e coisas do gênero acompanham o Manual do Explorador. Não podem, isso não podem, esquecer do próximo dia das crianças. Uma nova boneca de 1,99 e uma nova bola, também de 1,99, aquietarão os filhos dos escravos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Uma questão de saúde

"Política e saúde não combina". Quem disse isso foi uma enfermeira de plantão no hospital regional de um Estado nordestino. Para ela, o principal problema desses estabelecimentos são os péssimos administradores dos hospitais. "Eles são colocados aqui por políticos. Não entendem nada de administração, muito menos de hospital". Ela também denunciou que alguns médico não comparecem aos plantões nos finais de semana. "Os pacientes chegam e não tem quem os atenda. Depois o médico apresenta um atestado e fica por isso mesmo", indignou-se a profissional que trabalha no setor público há mais de vinte anos.

Andando por esse Brasil varonil, deparo-me, impotente, diante de pessoas como a enfermeira acima citada. Brasileiros irritados com a impunidade, com o desmando e com a falta de perspectiva para a solução de problemas que corroem o país.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Droga, droga e droga

Aproxima-se da meia noite. O posto de combustível às margens da BR fervilha. Mesmo assim, as bombas não despejam uma gota de gasolina, álcool ou óleo diesel nos tanques dos veículos. A movimentação é no pátio, onde caminhões estacionados servem de trincheiras para traficantes, viciados com narizes eufóricos e prostitutas. O estrago causado à sociedade é impossível de ser quantificado. Um rapaz de 19 anos comanda a boca. Aristeu, chamemos assim o moço, é um velho conhecido da polícia. Vende crak, maconha e cocaína. A mãe dele é falecida. O pai, potiguar, mora com uma pernambucana. O casal não aprova o modo de vida adotado por Aristeu. Jercino, nome fictício do pai, não permite que produtos advindos de roubo ou tráfico entrem em sua casa. “Não aceito vagabundo. Não quer trabalhar honestamente, então não apareça perto de mim”, esbraveja em tom de desabafo.

Por volta das 2h da madrugada, Aristeu chama um taxi. Vai à capital, há cerca de 20 km, buscar uma nova remessa de drogas. Ao ser perguntado se não tem medo de ser pego pela polícia, fala grosso: “Eu vendo para policiais, também. Se acontecer alguma coisa comigo, eu entrego todos eles. Meus clientes, aqui, são, na realidade, os caminhoneiros”. Um rapazola de 17 anos está agachado sob a carroceria de uma carreta. O cachimbo movido à pedra está em frenesi. Seu nome? Messias. É irmão de Aristeu. Quase alheio ao que se passa em redor, sorri quando um passante lhe diz uma pilhéria. Não estuda. Não trabalha. É um nordestino sem esperança de dias melhores. Um brasileiro anônimo. Um filho que morreu para o pai, embora não tenha ciência disso. E que está morrendo aos poucos pela boca. Ninguém faz nada. “Será preciso mais que um ‘messias’, para salvar Messias”, penso entristecido.

“Aqui ta tudo tomado pela droga”, diz Anastácia, madrasta dos rapazes. “Tem ‘minino’ de dez anos viciado em maconha”, assusta-me. “Outro dia, meu marido pegou Messias fumando ‘peda’ e deu-lhe uma surra. Queria fazer ele comer a ‘peda’. Só não matou porque eu não deixei. Eles - Aristeu e Messias - moram num barraco perto da nossa casa. Jercino não quer eles aqui. Mas quando ele sai para trabalhar, eu dou comida a eles. Tenho pena”.

O que contei, vi na periferia de uma capital nordestina. Um lugar empobrecido, onde o dinheiro do meu imposto parece não chegar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O sabor das cores

       Verde limão, azul calcinha, rosa pink, amarelo ouro e branco. Pense numa combinação digna de Tiririca. Assim eles passaram diante dos meus olhos. Ninguém me disse, eu vi. Vi com esses meus observadores que verão, domingo, o Fluminense ser campeão brasileiro de futebol. Calmos, serenos e tranquilos – se bem que acho esses três adjetivos a mesma coisa. Aquela infusão de cores do tipo mamãe não me perca na neblina gritaram exigindo minha atenção. E eu não me fiz de rogado. Não dei uma de político pós- campanha. Não, dei-lhes a devida atenção. Atenção mais do que merecida, afinal não é todo dia que podemos ver umas beldades daquelas desfilando em via pública. Parei.


Para ser sincero, eu já estava parado quando eles apareceram. E parado fiquei. Parado feito jumento quando embirra. E por falar nos quadrúpedes, ontem ouvi mais uma falácia própria dos ignorantes. Estava esse babaca aqui em um jantar, quando um colega afirmou que os nordestinos comiam carne de cavalo. Eu, cheio de delicadeza, fui direto ao escutador de novela do camarada.

- Em qual cidade do nordeste você comeu cavalo, animal?

- Não, eu não comi, Gile. - Me falaram.

- E quem foi o jumento que falou tal asneira? – Questionei tirando logo a possibilidade que ele tinha de dizer que foi um parente, um amigo ou alguma outra pessoa do seu círculo íntimo.

- Nem lembro, acho que eu era muito novo. Devia ter uns 15 anos na época. – Respondeu tentando, sem perceber, jogar a informação para um tempo remoto que não merece credibilidade.

- Quem vai pela cabeça dos outro é piolho, meu amigo. Aonde já se viu!, nordestino comendo cavalo!?

Voltando à festa das cores, fiquei tão embasbacado que nem percebi o sinal ficar verde. Continuei saboreando o par de tênis depois que ele cruzou a faixa de pedestre.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Herdeiros das mesmas sacanagens

          Que fique claro: sou brasileiro. Como você, catarinense, pernambucano ou carioca que está lendo este conteúdo. Digo isso porque tem gente - e como tem, meu Deus! – que entende ser o Estado onde vive, um país. Ora, ora, tupinambá, como brasileiros que somos, podemos, e até devemos, criticar qualquer unidade da federação. Claro, se o senhor ou a senhora não gosta de exercer o criticismo, é uma opção que precisa ser respeitada. Eu, particularmente, habituei-me a não crer em algo que não resiste a uma enxurrada de críticas. Por crítica entenda-se uma apreciação minuciosa, sistemática e aprofundada de alguma coisa. E quando critico algum catarinense, não o faço por mera satisfação em denegrir a imagem do meu patrício. Moro e pago meus impostos – que são muitos, diga-se de passagem – em Santa Catarina. Tenho direito constitucional de escrever sobre quem bem entender. Desde que seja verdade. Ontem um leitor questionou-me por não fazer críticas aos políticos nordestinos. Chega inclusive a citar Édson Lobão, Renan Calheiros e Sarney. Mama mia.

          Como diziam os mais velhos do que eu: dileto leitor, não me tome por insensato. A referida trupe já está por demais condenada ao limbo. Nem merece minha espetada. Vou dar tiro em pomba morta? Só não sei por que algumas oligarquias do sul do país ainda sobrevivem. Aliás, sei. É pelo mesmo motivo que ainda resistem as do nordeste: a ignorância dos eleitores. Muitos políticos nordestinos encheram o bolso explorando a pobreza. Faziam questão de mostrar as mazelas da região, assim conseguiam amealhar fortunas, teoricamente para salvar a população. Avarentos. Sulistas, por outro lado, enricaram escondendo a miséria. E isso não é falácia, basta estudar a colonização catarinense, por exemplo. A coisa vem desde o início da república, quando a tônica era europeizar o Brasil incivilizado. A Guerra do Contestado nada mais foi do que uma demonstração de força da elite de Santa Catarina. Eliminaram os pobres que viviam na região disputada por paranaenses e barrigas-verdes. O caboclo do sul sempre foi discriminado. A pobreza foi, e continua sendo, jogada debaixo do tapete.

          Mazelas, prezados, há em todos os Estados brasileiros. Pobres e miseráveis, também. Não podemos é ser manobrados por gente inescrupulosa, insensível à súplica do irmão. Precisamos conhecer nossa história , não omiti-la por questões mesquinhas. Já parou para pensar, simpatia, na exposição midiática da Guerra de Canudos? E porque não se fez o mesmo com a Guerra do Contestado? Vou te falar o que ouvi de dois escritores, um catarinense e outro paranaense: “Fui ameaçado de morte, caso publicasse alguma coisa sobre o que foi feito com as terras do Contestado”, revelou-me o catarinense. E isso há pouco tempo. Porque se ele fosse a fundo na questão da origem da riqueza de algumas famílias tidas por nobres, revelaria que de nobre eles não tem nada. O paranaense foi expulso do cartório de Palmas, quando começou a pesquisar a formação de latifúndios em seu Estado. Quem o expulsou? Os donos do Estado.

          Aí vem um ignorante da historiografia brasileira querer me criticar por “falar mal” de um catarinense? Poupe-me, coronel. Em nossas veias corr sangue indígena. E penso que devería-mos nos orgulhar de tal origem. Somos frutos dos mesmos adultérios, filhos da mesma prostituição e herdeiros das mesmas sacanagens. Aproveito e sugiro uma leitura para o feriadão: Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre. 

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O laptop venceu a barroca

          Fiquei alguns dias sem escrever porque meu laptop deu tiuti. Adoro escrever e confesso que já estava com os dedos coçando. Você estranhou alguma palavra da minha primeira frase? Não? Laptop, sabe o que é? Tiuti, também? Entao, se eu disser que deletei alguns contatos da minha lista de emails, você entenderá perfeitamente a que estou me referindo? Quando criança, minha brincadeira preferida era jogar barroca. O que, não sabes o que é barroca? Ha,ha, ha. Simpatia, barroca é um jogo em que se utilizam bilocas. Oh my god. Vai dizer que não conhece uma biloca?! Tudo bem, tudo bem, deves ser da era do vídeogame. Para jogar barroca, e ganhar, era preciso ter algumas expressões na ponta da língua: “preso esbigo”, “licença três pancada”, “num dô bebeuça”, “num dô buchuda”. Isso só para citar algumas. Preso e licença eras as palavras chaves. Quem queria tolher a açao do adversário, gritava: preso isso, preso aquilo. Quem precisava agir com liberdade bradava antes do companheiro: licença isso, licença aquilo. Entendeu? Vou desenhar.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Estupradores catarinenses ficam impunes

          “Quem tiver suas éguas que prenda, porque meus cavalos estão soltos”. Ouvi essa frase pela primeira vez lá pelos anos de 1970 no interior do Rio Grande do Norte. Apesar da pouca idade, mas faminto pela leitura, achei o seu autor um boçal. “Velho ignorante. Se tivesse estudo e cultura não falaria uma idiotice dessas”, resmunguei à época. Cresci, estudei, viajei e conheci muitos lugares. Vim parar em Florianópolis, capital modelo para muitos brasileiros. Boa qualidade de vida, cidadãos conscientes e educação em primeiro lugar. Um paraíso no atlântico sul. Tinha certeza que as palavras do ancião nordestino grosseiro não teriam eco por estas paragens. Será?

          No último mês de junho estava em Natal, coincidentemente, quando fiquei sabendo que dois rapazolas haviam estuprado uma menina de 13 anos em Florianópolis. A imprensa catarinense tentou encobrir. Foi sabotada, entretanto, pela agilidade e despudor da internet. Passou a circular emails na rede dando conta do crime, segundo a correspondência, praticado por dois filhos de “bacanas” da capital. Quando retornei à terra de Jorge Bornhausen, passei a acompanhar o trabalho de investigação. Percebi, de cara, que o ato delinquente ficaria impune. Por quê? Porque um dos marginais é filho de delegado de polícia, o outro criminoso é filho do diretor de uma rede de comunicação – RBS, afiliada da Rede Globo.

          Os calhordas foram descobertos por causa da denúncia na internet e por escreverem, na rede, idiotices que confirmavam suas maneiras arrogantes e criminosas de agir. Eles levaram uma menina, colega deles, para o apartamento do mais rico, drogaram-na e cometeram o estupro. Quando a imprensa percebeu que até os cachorrinhos de rua comentavam o assunto, resolveu noticiar o fato. Mas tudo feito com muita parcimônia. Os nomes dos bandidos foram omitidos por serem menores de idade. Tudo bem, mas por que não fizeram imagens deles, mesmo com o rosto desfocado, como fazem com os filhos dos pobres? Pior foi o que disse o delegado. O “homem da lei” veio na televisão dizer que não podia afirmar que houve estupro porque não estava no apartamento com os adolescentes, para saber se foi estupro ou sexo. É de chorar em alemão.

          Sem apelo na mídia, até porque, em Florianópolis, nem as emissoras concorrentes deram muito espaço, o crime foi se apagando rapidamente, como fogo de palha. A emissora do pai de um dos malfeitores insistiu em dizer que o caso estava sendo tratado com delicadeza, tendo em vista envolver menores. Segundo ela, era tudo em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Como eu já esperava, a justiça finalizou o inquérito, confirmou o estupro e – pasme, criatura! – aplicou medidas socioeducativas aos bandidos.  A promotora Walquíria Ruicir, da infância e juventude, concluiu que existem provas do estupro. A juíza Maria de Lourdes Simas Porto Vieira – grave esse nome porque um dia pode ser que ela se candidate e peça seu voto -  foi quem definiu as medidas. Ela simplesmente não quis falar sobre a decisão. Decisão essa que deixou a família da vítima estupefata. O advogado da família, Francisco Ferreira, afirmou que os pais da menor esperavam a internação dos facínoras. Francisco também disse que a decisão da justiça é um estímulo a outros casos de violência.

          Cá entre nós, eu já esperava tal atitude por parte da justiça. Um dos pilantras já desdenhava da justiça catarinense ha tempo. Em uma conversa entre ele e um colega, trazida ao ar pela Rede Record, foi perguntado se ele não temia ser preso. A resposta foi: “Tu tá zoando?”. O filhinho de papai sabia que estava imune aos rigores da lei. Interessante é que a decisão judicial não foi alardeada pelas páginas policiais de Santa Catarina. Eu nem me refiro à RBS, porque os coitados dos jornalistas que lá trabalham não são bobos de fazer matéria contra o filho do patrão. Mas a concorrência também silenciou. Parece-me, eu disse parece-me, que é mais ou menos assim: alivia para mim, que aliviarei para ti.

          Os estupradores estão soltos. Santa Catarina perdeu. Florianópolis perdeu. A justiça brasileira, mais uma vez, perdeu. O jornalismo catarinense perdeu. Quem ganhou, quem ganhou? O velho nordestino do início deste texto que disse: “Quem tiver suas éguas que prenda, porque meus cavalos estão soltos”. Lembro como se fosse hoje que achei aquele senhor um desgraçado. Achei que ele era um câncer na sociedade. Que era um inculto, iletrado e nojento. Não, ele não era nada disso. Ele era um exemplo para as gerações por vir. Seus ensinos, apesar de minha discordância, chegaram até o sul-maravilha. O Nordestino fez discípulos em Santa Catarina. Um deles, hoje é delegado de polícia, o outro é dono de emissora de televisão.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O futebol, a pobreza e eu

          Não sei se deliro, morro, ou tenho fome. Quero gritar, mas receio ser ouvido. Quero subir nas asas do sonho e ver o mundo azul, como fez o cosmonauta russo Iuri Gagarin em 1961. Anseio por entrar em um carro alado, como fez o profeta Elias, e dar by by ao mundo hostil que me recebeu décadas atrás. Enquanto esses desejos não passam de quimeras, contento-me em observar a realidade dos norte-rio-grandenses, meus conterrâneos. Faço isso enquanto aproveito os últimos dias longe do frio de Santa Catarina. Adoro o lugar que moro. Não escondo, entretanto, que são Gilead aprecia vir para o nordeste no meio do ano, época em que o calor de Natal, principalmente, é um convite para quem mora no sul-maravilha. Enquanto vivo esse momento lindo, conforme canta Roberto Carlos, dou minhas espiadelas no dia-a-dia dos meus compatrícios.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um trânsito acima da lei

         Chegou aos meus escutadores de lorotas, que a cidade de São José, a 25 km de Natal, tem um trânsito caótico. Eu, a princípio, não acreditei. Fui lá para conferir. Eu sou igual a São Tomé: só vendo para crer. Sou do tipo goiano: só pegando, pra saber se o trem é bom. Tirei algumas fotos e descobri coisas interessantíssimas.

A praça da igreja é o lugar mais movimentado da cidade.


Carro, ônibus, bicicleta, caminhão, moto, é um furdunço. Saí sem saber quem tinha a preferência.


Ôps, tinha "gente" que não tava nem aí.


Os motoqueiros de São José não se preocupam em usar capacetes. Que beleza!


Em São José descobri que família unida, passeia unida e, se bobear, "empacota" unida.


Identifique, se for capaz, quantas leis de trânsito este malino infrigiu. Só não vou chamá-lo de inútil porque ele serve de mau exemplo.


Foi aí que eu pensei: Não tem polícia aqui, não? Depois que baixei as fotos foi que ví um fardado no orelhão. Os créditos do celular dele acabaram e ele precisava, só podia ser isso, monitorar a patroa.


Enquanto a Igreja Católica sofre com a descredibilidade em todo o mundo, a paróquia daqui achou a solução para a crise.


Não viu?, preste atenção na faixa.


Ou seja: para se fortalecer, a Igreja Católica não precisa se livrar dos problemas com pedofilia envolvendo párocos, precisa é de uma conta polpuda.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Procura-se um prefeito; vivo ou morto

          Ontem eu deixei de lado as peladas da Copa do Mundo 2010 e resolvi viajar por algumas cidades próximas de Natal. É triste perceber o descaso dos políticos com o povo que os elegem. Os municípios são mal administrados. Falta infraestrutura. As escolas estão em péssimas condições. O descontentamento popular é grande. Conversei com várias pessoas que se diziam revoltadas com os prefeitos e seus secretários - vereadores. Para você, paisano, ter uma ideia, minha viagem foi pela Zona da Mata, a sub-região mais urbanizada e próspera do Rio Grande do Norte. Imagine as demais.

Essa estrada liga as cidades de Monte Alegre e Lagoa Salgada. Um dia, juro por tudo que é sagrado, teve asfalto. Em alguns mapas desorientados ela consta como asfaltada.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Hoje é noite de folia, é noite de fogueira

          Hoje é véspera de São João. Aqui, no Rio Grande do Norte, é motivo de festa. No interior do estado a tradição é mais forte. Em Lagoa Salgada, município distante 60 km de Natal, a praça é enfeitada com bandeirolas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Atenção, senhores passageiros

          Interessante como o ser humano lida com o tempo. Com a idade. Com as mudanças que são inevitáveis na graaaaaaaaande maioria das vezes. Com as sensações e, mais ainda, com as emoções. Coisas que pareciam banais assumem, no decorrer dos anos, valores grandes demais para corações que teimam em minguar, em se fazer pequeno. E diminuindo aperta o que guardou em seu interior. E apertando abraça. E abraçando ama efusivamente. Sinto isso quando volto ao Rio Grande do Norte. Quando regresso à minha gente. Quando retorno ao meu lugar. E hoje estou escrevendo, no avançado das horas, da casa dos meus pais – neste pedaço de Brasil chamado Nordeste.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Natal; verdade ou mito?

          Nesta semana sobrevoei o sertão nordestino. A caatinga amarronzada, o sol impiedoso e a falta de chuva deixam claro: Papai Noel não esteve ali. Mesmo assim o telejornal insiste em mostrar que o bom velhinho está vivo e solto no planeta terra. O aparelho de tv apresenta ruas, distantes da seca, movimentadas pelo frenético vai e vem das pessoas. São homens e mulheres que gastam parte do salário, ou todo ele, comprando presentes para os parentes mais próximos. Estou me aproximando de Natal, capital do Rio Grande do Norte, e o Natal dos cristãos parece cada vez mais perto.