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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ei, bonitão, atende o celular

     Digo não ao rejeitar uma chamada do celular. Digo não sem ficar vermelho. Digo não sem me importar com a cara de quem está do outro lado da linha. Digo não com uma insensibilidade maior do que a de um governante que não disponibiliza médico para seus eleitores. Digo não. Digo não com a empáfia de um professor que não aceita reavaliar a nota de um aluno. Digo não antes de ouvir ao menos um olá. Digo não porque tenho na ponta de um dedo, o que aperta a tecla não, o poder. O poder de dizer não. O maior de todos os poderes. Mais destrutivo do que a bomba atômica lançada sobre Hiroshima. Mais violento do que político que rouba merenda escolar de crianças. Crianças essas que muitas vezes vêem no colégio uma chance de encher a pancinha aflita. Ah, o poder de dizer não. Mais forte que o tornado. Esse limita-se a destruir o que está na superfície. O não vai lá dentro, ao âmago da alma. E extrai da raquítica o que resta de vida, de auto-estima, de lucidez. O não do celular é o sim ao desprezo. É o sim ao “vai te danar”. Por isso é inexorável. Mesmo quem não sabe o que significa inexorável pode sê-lo; o não permite. Digo não e tomo um drink. Digo não e grito gol. Digo não e mastigo um sanduíche de frango. Digo não e gargalho. E digo.

     O não do celular. Tem a prepotência de um ignorante. Sabe aquele cara que se tivesse a mínima noção do que fala ficaria calado? O não do telefone é mentiroso, como o candidato que promete o que sabe ser impossível cumprir. O não causa a sensação de poder. Ora, ora, paisano, o poder do não é inatingível. O poder do sim é dele um estafeta. O sim é dos atoleimados, dos desocupados, dos românticos. O sim é dos fracos, dos sensíveis idiotizados, dos zés-ninguém. E o que é o homem, animal? Os dentes não resistem um ano sem ir ao dentista. Vira um caco esburacado. E fedido. Os olhos capengam ante qualquer lusco-fusco. A sapiência escafede ao mirar um rabo de saia, ou uma barriga de tanquinho. A robustez e a beleza viram farrapos à ingestão de um pastel vencido. E o poder do homem é transportado em um caminhão limpa-fossa. Ah, ah, ah. Eis o homem. Eis a beleza. Eis o poder. Eis o não do celular. Diga sim e seja homem.

     Diga sim e tenha força para explicar. Diga sim e escute. Diga sim e lance ao mar o que mais te pesa. Diga sim e jogue-se ao mar. Diga sim e admita a própria impotência – nada é mais humano que esse sentimento. Diga sim e chore. Diga sim e admire-se de não poder sorrir. Diga sim e sinta-se supremo ao menos por dois segundos. Diga sim e ouça o “que bom que você atendeu” do outro lado. Diga sim e seja educado. Ou manda a boa educação que viremos a cara a quem passa por nós na rua e diz “ei, fulano, quero falar contigo”? Diga sim e peça desculpa por não poder conversar por muito tempo. Diga não ao não. Diga sim e tenha um bom fim de semana.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O palavrão - Parte I

          Ei, fila da puta, atende essa porra! Calma, calma. Não aderi, de vez, a pornofonia. Também era o que faltava, começar 2010 enchendo os teus ouvidos de impropérios. Por isso explico o motivo da religiosa frase inicial: eu estava em um determinado lugar passando o final de semana chuvoso. Desculpe-me, mas não direi onde. Porem dei a dica; estava chovendo. Verão com chuva,e muita, só pode ser em Florian... De repente ouvi o pedido supracitado. Se bem que isso não é mais um pedido. É uma ordem. Pois então, passado o susto e com os cabelos no devido lugar entendi do que se tratava.