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terça-feira, 3 de maio de 2011

Flores, política, religião e Ernest Hemingway

    Não, não me peça para falar de flores. Não, porque as lagartas precisam delas. Falar de flores é louvar as lagartas. Sim, eu sei, os beija-flores não merecem meu não. Adoro os pequeninos alados, e sei que as flores fornecem-lhe o alimento diário. Mesmo assim, prefiro o jardim sem lagartas. Ainda que meu ato represente o fim dos colibris, das flores e até mesmo do próprio jardim. As insaciáveis lagartas fazem as lindas flores desaparecerem em segundos. Elas formam uma legião de destruidores de canteiros. Apossam-se das floreiras com uma sede de extermínio semelhante a do exército Hitlerista. Empanturram-se do néctar que o semeador acreditou ser exclusivo dos cuitelinhos. Quando estes chegam com suas asas ultra velozes, só encontram restos dos talos que um dia hastearam flores, rosas e crisântemos. Ah, veem, por mais triste que possa parecer, hostes de pançudas lagartas refesteladas deslocando-se para novas flores que um sonhador plantou. Não me peça para falar de flores.

     Não me peça para falar de flores se não queres ouvir de lagartas. Não que eu tenha perdido a capacidade de sonhar, meu Deus do céu. Tivesse essa desgraça acontecido, eu seria um morto vivo, um zumbi, ou coisa do gênero. Só não posso me dar ao luxo de dormir enquanto lagartas vorazes dizimam meu jardim. Nem muito menos acreditar, como querem alguns, que as lagartas fazem parte de um processo natural. Para lá com essa conversa fiada. Coloquemos nossos sonhos na mochila e sigamos adiante. Chegará a hora de abrirmos. O momento, no entanto, é de agir. Capitais brasileiras, tidas como evoluídas social, financeira e culturalmente, tornaram-se ninhos de neonazistas que matam minorias. Câmaras municipais, estaduais e federais converteram-se em covis de salteadores do nosso rico dinheirinho. Lares, ou o que restou deles, viraram centro de consumo e distribuição de tóxicos e entorpecentes. Instituições religiosas, que até poucos anos algumas serviam para salgar a sociedade, estão gangrenadas por charlatões, hienas da fé e corruptos a serviço da politicagem purulenta. Não me peça para falar de flores.

     Não me peça para falar de flores se teus ouvidos são insensíveis a dor de quem chora em um corredor de hospital. Que sofre na madrugada de um pronto socorro por não ter um médico para atendê-lo. Sofre por não ter um leito. Sofre por não ter remédio. Porque o dinheiro para suprir tais necessidades paga a cocaína de políticos indecentes e criminosos. Compra o uísque que ajuda a embalar as noitadas de assassinos travestidos de defensores da sociedade. Pagam o motel e as meretrizes usadas por vereadores, deputados e senadores. Falar de flores quando crianças descem à sepultura por falta de alimentação? Porque empaletozados furtaram-lhe o direito à merenda? Falar de flores quando o assalariado paga imposto de renda, e o dono de iate gaba-se da restituição a que teve vez? Falar de flores quando a realidade se torna cada dia pior? Falar de flores quando a justiça é pervertida por bastardos julgadores comprometidos com a mentira? Falar de flores quando o “defensor da liberdade” aponta um míssil para quem empunha um bodoque? Lembro das palavras de Robert Jordan, personagem principal do livro Por quem os sinos dobram de Ernest Hemingway: “O mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele, e odeio ter que deixá-lo”. Lutemos agora, antes que as lagartas nos destruam e nos sepultem sob o que restar do nosso jardim.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Que dia de índio que nada!

     Para ser sincero, nem lembrei que antes de ontem, 19/04, foi o Dia do Índio. E tenho lá minhas razões para isso. Cresci ouvindo falar mal dos silvícolas, assistindo filmes onde eles apareciam como bandidos cruéis e sanguinários, anti-progressistas. Nos livros de histórias que estudei na adolescência, eram empecilhos para os portugueses desbravadores. Além do mais, eram idiotas, acreditavam que o bandeirante poderia tocar fogo nas águas e matá-los de sede. Preguiçosos, meu Deus do céu! Só queriam saber de pescar, festar e andar pelados. Ai, como eram libertinos. Foi isso, paisano que aprendi sobre os primeiros moradores das Américas. Sendo assim, parecia-me um contra-senso comemorar o dia deles. Talvez por esse motivo, nunca gravei a data.

     O tempo foi passando e a ignorância foi se achegando. Dos trinta em diante, então, eu já não sabia de quase nada. Nem da vida, nem do mundo e nem de mim mesmo. Imagina de índio! As certezas de adolescente abriram alas para a dúvida, a dúvida que amadurece, que é insaciável, que é descrente, que procura ver além da cortina. Seguindo a dica de Cristo – “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” -, debrucei-me sobre livros. Livros consagrados pela crítica, odiados pelos dominadores de plantão, baluartes da transparência. Baluartes, tão somente, já seria suficiente. Você pode está me perguntando: “E os livros de histórias do colégio?”. Simpatia, ainda hoje, lavo minha consciência para expurga-me das bestialidades contidas ali. Na busca pela verdade, viajei no tempo pelas letras de gente séria e encontrei fortes índios morando em aldeias saudáveis. De repente, portugueses desceram de embarcações e em nome de um reino tomaram posse do lugar. Religiosos pomposamente vestidos deram a chancela que os brancos precisavam. Pronto, reino e religião eram do que aqueles nativos careciam.

     Como cantaria, séculos depois, o Ultraje a Rigor, “não adianta nem nos desprezar, se a gente acostumar a gente vai ficar”. Os da selva, quando se viram enganados pelos europeus, odiaram-nos e desprezaram-nos. Não adiantou, os portugas se acostumaram e ficaram. O índio foi escravizado. Suas terras foram tomadas, seus filhos assassinados sob as bênçãos de um novo, e mais forte, deus. Suas vergonhas – conforme a carta de Pero Vaz de Caminha - foram cobertas, e eles foram envergonhados para sempre. Até o início dos século XX, eram assassinados covardemente por bugreiros – caçadores de bugres – que tinham carta branca para atirar em qualquer selvagem que vissem pela frente. Empurrados para o interior do país, foram sendo exterminados por balas, doenças e vícios trazidos pelos “civilizados” da Europa. Hoje em dia, vivem de favor em pequenas aldeias. Hipócritas como somos, temos a cara de pau de dar-lhes um dia. Nesse dia, as reportagens nos jornais – escritos, falados e televisivos – homenageiam os índios como se eles fossem animais domesticados que servem de espetáculo. O dia do índio, antes da chegada das caravelas de Cabral, era todo dia. Agora, o dia do índio já era, é apenas mais uma data comemorativa.  

terça-feira, 5 de abril de 2011

Arnaldo Jabor, irônico ou cínico?

     Fiquei tempos com Pornopolítica esticado na minha estante. Confesso que comprei o livro por impulso. Não gostei do título. Muito menos da capa. E um livro, meu chapa, não basta ser bom. Tem que seduzir, ter uma boa aparência e ser novo. Se não for assim, dificilmente compro. Cada vez que olhava aquela frente retratando Vênus, Sátiro e Cupido, desistia da leitura. Até que, nesse fim de semana, estava no sítio e terminei de ler uma aventura de um motociclista que saiu de São Paulo e foi até o Alasca. Ao concluir, busquei alguma coisa recém-comprada e não encontrei nadica de nadica. Restou-me a risada medonha de Sátiro.

     Mal comecei a ler, ainda na página dezessete, Arnaldo Jabor desafinou: “Vejam os bilhões de imbecis com o rabo para cima rezando todo dia para um ser que não existe”. Senti-me traído por mim mesmo. E essa, paisano, é a pior de todas as traições. É quando teu ser interior rompe com tuas ideias e te leva a cometer insensatez que jamais concordarias que fosse feita. Bem que eu não queria comprar, bem que eu não queria ler. A declaração do cineasta retratou, como se tivesse sido cunhada com essa intenção, a capa da obra. Arnaldo Jabor, meu filho, pede pra sair. É porque eu não sou, mas se eu fosse mulçumano gritaria: “Imbecil é você, Jabor. O que um burguesinho carioca como você sabe sobre o mundo islâmico? Um babaca que pegou carona em Nelson Rodrigues – é isso que você é - deveria escovar os dentes antes de falar de religiosidade. Um ateu desgraçado como você, Jabor, que adora ironizar, mas não sabe a diferença entre ironia e cinismo, deveria ler um, pelo menos um, livro sobre os mulçumanos”. Não sou mulçumano, por isso continuei o livro. Porém...

     “São recrutinhas fracos, com capacetes frouxos e cara de nordestinos analfabetos”. Espera aí, Jabor, agora você se passou. E só não te mando à PQP porque sou um cara educado. Fosse eu um desbocado diria: “Vai à &^%^)(&@, seu %$#@*&”. Só não toquei fogo naquela porcaria porque quero ter a prova do quão abjeto, infecto e purulento pode ser um homem que se acha inteligente. Dá uma de Doca Street, Jabor, e escreve um Mea Culpa. ah, não toquei fogo, também, porque sei que escrever um livro, por pior que ele seja, dá trabalho. E esse empenho não pode ser desprezado. Nem por mim, nem por mais ninguém.

terça-feira, 15 de março de 2011

"Copiei descaradamente"

     Já se aproximava das 12h30. Eu acabara de chegar e tinha escolhido uma mesa bem perto do bufê. O que fazer enquanto meu amigo não aparecia? Olhar pela vidraça e ver motoristas botando a mão para fora de seus templos e fazendo sinais provocativos a quem, supostamente, lhes prejudicou? Não, isso poderia tirar-me o apetite. Que tal prestar atenção em quem adentra o recinto? Que cabelo mal cortado. Olha aquele sapato, não combina com a calça. Não sei não, mas aquele casal lá do canto parece muito desconfiado. Cabelo, sapato e casal não me interessavam. Eu cairia na vala comum e, tal qual um fanático, julgaria meu próximo sem dor e sem piedade. Ao meu lado, bem sentada sobre uma cadeira, ela me olhava com aquela languidez convidativa. O leitor mais afoito, perguntará: “ela era bonita?, qual a idade dela?”. Sim, bonita e nova. Além de bonita, funcional. E, para deixar claro, novíssima. Não resisti. Vapt.
     Meti a mão na mochila recém-comprada e saquei um Gabriel Garcia. Ah, leitura deliciosa. Mais uma espiada, nova metida de mão e um marcador de texto apareceu junto com um lápis. Tem frases, paisano, que merecem a glória de um tom amarelo-esverdeado da caneta marca-texto. Agente vai lendo, lendo, lendo e “eureca”. Pode ser um aforismo, uma sacada filosófica ou mera puerilidade aflorada no teclado de um sexagenário. Mas que merece um destaque, ah, sim, merece. Quando meu companheiro de almoço chegou, eu estava com a mão na massa. “Porque tu marcas tanto teus livros?”, perguntou depois de um abraço. Expliquei e revelei um segredo: “no caso deste autor, gosto de destacar os efeitos lingüísticos que ele utiliza. Depois, imito-o nos meus textos”. Enquanto almoçávamos discutíamos sobre minha atitude. Seria um “copia e cola”. Claro que não. Uma imitação? Evidente, meu caro Watson.

     E o que é uma imitação senão um meio de assimilar as belezas alheias. Essa frase, sim, é uma cópia. Quem a cunhou foi o francês Albalat. E a imitação, ainda conforme o cara acima citado, vem da admiração. E eu imito. E atire a primeira pedra, ou faça o primeiro comentário alfinetador, quem não copia. Ora, ora, simpatia, só imita quem admira, e só admira quem enxerga beleza no alheio. O que não dá é ficar limitado à imitação de um só exemplo. Senão vira, no máximo, uma caricatura. Quando admiramos muitos, e muitos imitamos, criamos um estilo próprio e tornamo-nos nós mesmos. Tenho escutado muito sobre “originalidade” e “criatividade”. E é aí que se encontra a maternidade de tanta porcaria que permeia jornais, revistas e até livros que caem em nossas mãos. O sujeito não lê, não possui bagagem lingüística nenhuma e acha que tem “estilo próprio”. Meu filho, só quem cria a partir do nada é Deus. E como não tenho nenhuma pretensão em ser adorado, imito. O almoço estava ótimo.

"Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros; não se incomodaram com isso e copiar me fez muito bem." Moacyr Scliar

quinta-feira, 3 de março de 2011

Stalin, Rokossovski e eu - unidos por um livro

     Olha, amizade, o livro é, definitivamente, a saída da humanidade. E a entrada também, ressalte-se. Diz o aforismo que “quem não lê é como quem não vê”. Acrescento: e como quem não sente; como quem não cheira; como quem não ouve; como quem não discerne entre o doce e o salgado. Não, não pretendo entrar na discussão a respeito do suporte para o livro. Pode ser impresso em brancas folhas, pode ser digital – para ser mais contextualizado -, pode até ser cuneiforme – para ser pedante. Usei “cuneiforme” só para forçar você a relembrar a origem da escrita. Aquela coisa sumeriana, tá ligado? Tolice minha. Voltemos ao livro. Estava esse escriba jogando futebol com os colegas – e com os não-colegas também – na AABB de Florianópolis, quando um trem enchuteirado descarrilou e tombou sobre minhas costas. De cristal como sou, conforme já me disseram, fui obrigado a deixar o gramado. As dores na cervical venceram a fome de bola.



     Fui para casa. E como todo bom peladeiro, tomei um analgésico e relaxante muscular. Cinco dias depois, a dor continuava, teimosa como um torcedor do Flamengo que insiste que o time dele é hexa. Estava na hora de interromper o tratamento e procurar o médico. Pierre, cadê você? Ao me receber no consultório, o sexagenário abriu o sorriso: “Conte-me tudo, embora eu já saiba que tem a ver com futebol”. Exames preliminares indicaram lesão na lombar. “Um raio X imediato e uma injeção para aliviar a dor”, condenou-me o profissional. Uma agulhada é tudo que um cara como eu teme. "É um trauma de infância", desculpo-me. Sinto o sangue gelar enquanto aguardo meu calvário. Sentado, espero a vez do suplício. Abro a mochila e saco um livro. Voltemos ao livro.



- Stalin perguntou a um deles, Konstantin Rokossovski, talvez por lhe faltarem as unhas das mãos: “Foi torturado na prisão?

- Sim, companheiro Stalin.



     A Corte do Czar Vermelho, de Simon Sebag Montefiore, descreve, conforme transcrevi acima, o encontro entre o caudilho soviético – Stalin – e um general que havia sido torturado nas tenebrosas prisões da falecida república. Lendo, pude ter uma ideia do que é sofrimento. Imagine, paisano, a dor lancinante que um vivente experimenta ao ter as unhas arrancadas com um alicate. Foi quando o enfermeiro me chamou. Empertigado, assenti com a cabeça e subi ao patíbulo. Ora, ora, o que é uma injeção frente ao sofrimento de Rokossovski?! Fechei o livro – tato -, cerrei os olhos – visão -, senti o cheiro do medicamento – olfato -, escutei o tilintar das ampolas – audição -, e senti o gosto da vitória – paladar. Quinze minutos depois, as dores começaram a fugir da minha cristalina lombar. O poder de um livro!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Flamengo vence com ajuda da força

Um médico passa apressado.
- Disseram que não iam matar civis – grita.

Hassan está sozinho junto de uma cama onde se encontra o seu irmão mais novo, com estilhaços no estômago, a cara amarela em delírio.

- Tem que viver, tem que viver – chora Hassan e, entre soluços, conta: - Estávamos em frente à nossa casa, Ali, Jamil e eu. Eu não fui atingido, mas os meus dois irmãos mais novos caíram no chão numa poça de sangue. Este é o Ali, o Jamil morreu na hora. Tinha acabado de fazer 6 anos.

O trecho acima foi retirado do livro 101 Dias em Bagdá. E mostra a crueldade dos ataques americanos sobre a capital Iraquiana. O presidente dos Estados Unidos, numa guerra pessoal, atacou o país com o pretexto de que lá havia armas químicas de destruição em massa. Destruiu a infra-estrutural do lugar, matou inocentes e enforcou Sadan Hussein. Ora, ora, o mais ignorante dos leitores sabe que aquilo foi uma carnificina. Um jornalista francês que havia coberto guerras durante 20 anos, declarou, à época: “Nunca tinha visto na vida soldados com tanta vontade de matar”. Pergunto: George Bush foi julgado pelos crimes de guerra cometidos no Iraque? Claro que não. Quem tem o poder nas mãos aproveita-se da glória que ele lhe traz. E por mais que uns e outros questionem, os tiranos saem impunes. E ainda tem que os defenda.

Ontem, no jogo entre Flamengo e Boa Vista, valendo o título do primeiro turno do Campeonato Carioca, o jogador rubro-negro Renato entrou decidido a bater em quem lhe cruzasse o caminho. O máximo que recebeu como punição foi um amarelo cartão amarelo. No segundo tempo da partida, agrediu um adversário com uma joelhada no peito. O árbitro, para não entristecer a maior torcida do país, fez vista grossa. Vamos combinar: os times se equivaliam em ruindade. Quem tivesse com um jogador a mais, certamente tiraria proveito da situação. Não adiantou a reclamação dos atletas do Boa Vista. Mal da vista, ou da consciência, o árbitro amputou o time de menor poder. E assim a força mostra a sua força em qualquer lugar. No Iraque, no Afeganistão ou no campo de futebol carioca, quem é mais forte mata o mais fraco. E viva a força.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

101 dias em Bagdá

     Quer ler um bom livro? E quando digo bom, refiro-me a forma como é escrito, na abordagem de quem escreve, na beleza e leveza do texto, e, acima de tudo, no peso do conteúdo. 101 dias em Bagdá é tudo isso. Åsne Seierstad, a jornalista norueguesa autora de O livreiro de Cabul, conseguiu prender minha atenção até o fim das 383 páginas. A moça foi para o Iraque dias antes da invasão do país pelos empregados de Bush filho. E narra, com muita riqueza de detalhes, o dia a dia de um correspondente internacional naquele país. Conta como, na busca pela informação, subornou funcionários iraquianos – um dilema ético da profissão. Sem economizar em personagens, procura mostrar o dilema dos iraquianos nos dias que antecederam a destruição do país. A obra divide-se em três partes: O antes, o durante e o depois.

     O antes é, conforme o termo sugere, como estava Bagdá e seus moradores na véspera dos ataques. A maioria parecia não acreditar na invasão americana. Outros ansiavam pela queda de Saddam, mas não pretendiam ser governados por ocidentais sedentos de petróleo. O durante, mostra os horrores da guerra. O morticínio de inocentes. O massacre a civis e a derrota das forças leais ao tirano que espezinhou a antiga caldeia por mais de trinta anos. O depois é um relato de 4º páginas mostrando o caos gerado no país durante os primeiros dias da ocupação americana. A desilusão dos iraquianos, a prepotência dos conquistadores e a certeza de muito, muito sofrimento.

Vale a pena ler o livro.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Um coice na cara

     Dizem que os bichos são brutos, não pensam e não têm inteligência. Como diz o ditado, “cada quá com seu sarapiquá”. Eu, do meu lado, acho-os sensíveis, imaginativos e espertos. Não esperto no sentido de enganador, como se diz do jogador de futebol que ludibria o árbitro. Não esperto no sentido do guri, ou da guria, que engana o pai e a mãe dizendo que vai dormir na casa da amiga (o) e cai na vadiagem. Não esperto no sentido do político que gasta na campanha muito mais do que a soma de todo o salário que ganhará durante o mandato, sabendo que a teta pública é como a ponta de um iceberg, ou seja, o salário declarado é quase que uma gorjeta. Não esperto no sentido do empresário que apesar de andar de iate, recebe restituição do imposto de renda. A esperteza dos bichos é muito mais nobre. Falemos dos bovídeos.



     Outro dia, Bibigul deu-me uma aula de cidadania. Trata-se de uma terneira com seis meses. Leva esse nome em consideração a uma personagem do livro O Livreiro de Cabul. A matrona comia desesperadamente. E a minha Bibigul não é diferente. Sabendo que sempre lhe dou alguma comida especial, toda vez que ela me vê caminhando pelo pasto, dispara em minha direção. Os olhos da quadrúpede chegam dois metros na frente do corpo. É de assustar quem não a conhece. Quem a conhece gosta. Como dizia Chico Buarque, “Amo tanto e de tanto amar, acho que ela é bonita”. No entanto ela me lembra um coco-da-baía e um serrote embrulhados num jornal. Jipão detesta a coitada. Jipão é o nome de outra bezerra. Tem esse nome devido aos peitos exagerados que tem, apesar de ainda não ter feito o primeiro aniversário. O que tem a ver Jipão com mama grande? É uma história que contarei outro dia.


     Jipão e Bibigul têm os mesmos direitos no sítio. Jipão, entretanto, acha-se privilegiada. Deve ter a mentalidade daquele motorista que acredita que pode passar na frente de todos os carros que estão na fila do engarrafamento. Quando ela percebe a presença de Bibigul, corre para lhe dar cabeçada. Na hora que ganham ração, nem se fala. E foi numa dessas horas que Bibigul mostrou o que é ser cidadã. Ela estava comendo. Jipao veio babando para agredi-la. Bibigul esperou a aproximação e “pá”. Deu-lhe um coice no meio da cara. Jipão ficou desnorteada e saiu de banda. Bibigul, calmamente, exerceu o direito de comer. Entendi que entre eles a cidadania é conquistada, não vem de “mão beijada”. Pois, é.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A História Secreta dos Papas

          O sujeito entra na livraria e dirige-se direto a uma prateleira no terceiro piso da loja. Não, as ofertas colocadas em seu caminho não turvam-lhe o interesse. Procura por um livro. Não vai para casa sem ele, pensa. Troca o óculos escuro por outro que carregava na mochila. Sem o de grau ficaria bem mais difícil procurar um título entre tantos. Sobe o olhar, desce, vai até o alto da mais alta estante e nada. Não há jeito, por mais que não queira, terá que recorrer à vendedora. – Pois não, senhor -, sorri a jovem. – Você tem A História Secreta dos Papas, da editora Europa – pergunta o cidadão. A moça faz uma cara de quem nunca ouviu falar da obra e dá umas tecladas no computador a sua frente. - Não, senhor, não temos -, conclui sem saber que estava frustrando o freguês.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Hamas, Mosab e o cordeiro

          Nasceu Mosab. É manhã de sábado, acordo com os raios do astro rei, e com o cheiro de pão que vem do andar de baixo.  A janela do quarto está desprotegida. A cortina havia sido presa propositadamente na noite anterior. As frinchas das nuvens alargavam-se aos poucos e permitiam que a luz solar entrasse sorrateira no aposento. O piso de madeira do espaço onde acabo de abrir os olhos não é obstáculo para a fragrância que sai da panificadora elétrica. As partículas odoríferas parece que sobem as escadas, caminham pelo cômodo e gritam nas minhas narinas. Pão fresquinho e sol. Acordo. Antes de levantar da cama, espio pela vidraça e vejo uma criatura saltitando no morro. Parece um pedacinho de nuvem branca que despencou do céu.

          Tem mãe, tem pai, mas não tem nome. O parto deve ter sido de quinta para sexta. Percebo pela maneira que ele anda. Não há firmeza em seus passos. Apesar do frio, levanto-me e tomo banho. Tomamos um café da manhã e resolvemos caminhar. A essas alturas o céu está azul. Os últimos resquícios de cerração se foram. Manhã perfeita para esticar as pernas e melhorar o preparo físico. Antes, preciso dar uma examinada no recém-nascido. A mãe dele é a ovelha mais mansa do sítio. O pequenino comporta-se como ela e deixa que passemos a mão nele. Surge a dúvida: como chamá-lo? Penso em Sultan Khan, aquele personagem do livro O Livreiro de Cabul. Reprimo logo a ideia. Uma criatura tão pura e cândida não merece carregar o nome de um cara tão hostil e avarento. Adio a escolha.

          Após o almoço começo a ler outro livro. Diga-se de passagem, que não há coisa melhor para fazer, enquanto a cachoeira faz um fundo musical, do que ler um bom livro. E sempre carrego um comigo. Filho do Hamas é minha leitura. Trata-se da história de um palestino que se tornou espião do Shin Bet, o serviço de inteligência interno de Israel. Mosab Hassan Yousef, o centro do livro, é filho do xeique Hassan Yousef, um dos fundadores do grupo terrorista Hamas. Ao completar 18 anos, Mosab é preso pelo exército israelense. Convencido pelos judeus, trabalha 10 anos como espião. Depois de se converter ao cristianismo, pede para ser exilado nos Estados Unidos. O livro é um duro golpe no fundamentalismo mulçumano. Com um pouco menos de trezentas páginas, e custando cerca de trinta reais, o livro da editora sextante é uma ótima pedida para quem tem curiosidade acerca das questões que envolvem a disputa entre Israelitas e Palestinos.

         Terminei a leitura do livro e fui pesquisar na internet a respeito do que acabara de ler. Assisti alguns vídeos sobre Mosab, li artigos e reportagens, inclusive do jornal Haaeretz – de Israel. Conferi a existência dos personagens, porque sou igual goiano: gosto de pegar para saber se o trem é bom. Gostei do Mosab. Como costumo batizar meus animais com nomes de personagens dos livros que leio, resolvi chamar o cordeirinho de Mosab.