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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Vereadores, motoqueiros e Berthold Brecht

     O vereador sobe à tribuna. Os companheiros de profissão ficam de olho. E aí ele comete o primeiro pecado: traz à tona um projeto de lei que regulamenta a profissão de motoboy em Florianópolis. Um dos fazedores de lei municipal levanta-se da mesa posicionada no ponto mais alto da casa. Badeko é o nome do cidadão; nome de guerra, digamos assim. Ensacado num terno cuja calça parece ter cinco números a mais do que quem a usa, desce e dirige-se a um camarada dele. Não sabendo que é, no mínimo, falta de educação dar as costas a um pregador, faz isso sem o menor constrangimento. E ri. A boca solta atropela quem está fazendo uso do microfone. Para piorar, o afrodescendente furta a atenção de outros dois políticos. A essas alturas, Márcio de Souza, outro afrodescendente, tenta discursar. As palavras chegam aos olhos de não mais que quatro membros da câmara. Márcio persiste, argumenta que a necessidade da regulamentação de uma categoria como a dos motoboys é mais do que necessária, até porque já existe uma lei federal fazendo isso. Basta a câmara de vereadores municipalizar a lei. A luta é vã. Badeko sai do plenário. Quem sabe foi ao banheiro. Certas coisas é melhor fazer do que ouvir um companheiro fazer.

     Márcio de Souza não desanima e insiste em pecar. Apresenta números, estatísticas que comprovam a quantidade de motociclistas que morrem diariamente na capital de Santa Catarina. Alerta que o poder público pode fazer alguma coisa, e para começar a fazer a regulamentação da categoria é o primeiro passo. É a vez de levar outra “costada” na cara. João Amim é o nome da fera. De cenhos franzidos, o filho do ex-governador Esperidião Amim parece ter odiado o assunto. “Que diferença entre ele e o pai, hem?”, resmunga Pedro Luis Sabaciauskis, presidente da associação de motociclistas Amofloripa, que estava entre as cinco almas abnegadas que enfrentavam os 14 graus da noite florianopolitana. “Antes de começar a seção, fui falar com ele e ele me deixou falando sozinho”, reclama o empresário. “Não foi nem um pouco simpático. Tem muito o que aprender com o pai. O pai dele recebia até os adversários com um sorriso”, critica Sabaciauskis. Se, como diz Pierre Weil, o corpo fala, o de João Amim parece deixar claro que está incomodado com o discurso sobre motociclistas. E ele não está sozinho nessa incomodação. A lei No 12.009, de 29 de julho de 2009, sancionada pelo então presidente Lula, não sensibiliza os mandatários do Sul brasileiro. Vale salientar que a lei é federal e cada cidade é responsável pela sua municipalização. Até o momento o Centro-Oeste lidera o ranking de municipalização – 17,8% dos municípios já o fizeram. O percentual no Sul é de míseros 4,9% - o pior entre as regiões do Brasil. “Que morram esses motoqueiros danados”, parece ser o clamor surdo dos chefes políticos catarinenses.

     Sensibilizado com tantas mortes de motociclistas, Márcio de Souza pede que o projeto de lei apresentado por ele volte à comissão de constituição e justiça da Câmara. O tempo de Márcio estoura. "Chega de pecado", esbraveja o relógio.  João Amim, finalmente, pôde girar a cadeira e voltar a olhar o púlpito. Badeko vê-se livre do falatório de Márcio e consegue respirar outra vez dentro do plenário. Antes, porém, é interceptado por Pedro Sabaciauskis. “Deixa que eu vou pegar essa (...) e vou fazer passar”, retruca indignado o vereador, quando Pedro questiona o descaso dos vereadores com a lei que regulamenta a profissão de motoboys. Ah, antes disso, a Câmara prestou farta homenagem a uma rede de comunicação de Florianópolis da qual Badeko é funcionário. Parece que tudo uma questão de prioridade. “E as mortes de motociclistas?”, pergunto, “não merecem a atenção dos nossos vereadores”?

     Enquanto me retiro, uma voz malina sopra nos meu ouvidos: "O que João Amim e Badeko querem é que Márcio de Souza retirem o projeto para eles poderem apresentar". Nego-me, juro, a acreditar que uma coisa dessas seja verdade. Se bem que, como disse Berthold Brecht certa vez: "As leis e as salsichas, é melhor não saber como são feitas".  




segunda-feira, 18 de abril de 2011

O motorista e a vaca

     Derrubaram a Bibigul. Não sei quem foi que fez essa maldade, embora tenha ideia. O leitor contumaz desse blog sabe que Bibigul é uma terneira holandesa que tenho no sítio. Em outras partes do Brasil, ela seria apenas uma bezerrinha. Mas, no interior de Santa Catarina, bezerra é terneira. No Rio Grande do Sul também. O fato é que quando fugi da cidade, sexta à noite, e fui me refugiar entre civilizados, notei que a coitadinha estava com um lado todo sujo de terra. O que não me agrada nem um pouco é que os bichos estão muito parecidos com os humanos. Tudo bem, tudo bem, os quadrúpedes não se matam e nem se engalfinham por razões banais. Mesmo assim, têm, de vez em quando atitudes que lembram, e muito, os filhos de Caim.

     Subi a Serra de moto pela BR-282. A estrada está em obras. Estão colocando aquelas finíssimas camadas asfálticas que resistirão até as próximas chuvas. Nos lugares onde não foi feita a sinalização de solo, é terrível para um motoqueiro pilotar depois que escurece. Nas curvas à esquerda, quando os faróis dos veículos que vêm na pista contrária quase cegam o motociclista, o jeito é diminuir a velocidade. Não dá para ver nada. Aí um motorista desmiolado colava o possante dele na traseira da moto. Ou o camarada não sabe dirigir ou quer mesmo me derrubar, pensava eu sob o capacete. O pior é que se o motoqueiro cai e morre, um jornaleco sensacionalista – quase todos os jornais brasileiros se incluem nessa categoria – vai manchetar: “Mais um motoqueiro morre nas estradas”. Como se a culpa fosse sempre de quem está na moto. Livrei-me dos potenciais assassinos e, por volta das 21h estava com a bicharada.

     Passada a porteira da propriedade rural, notei, ao direcionar o farol da moto, que a subida até a casa estava interrompida. Pares de olhos tão profundos, como diz o poeta Zé Ramalho,me fitavam. Passei com cuidado por entre eles. Pirata, com seus chifres cada vez maiores, não se deu ao trabalho de tirar os 500 quilos do caminho. Tive que desviar. Aproveite e parei a moto para conversar com eles ao som das águas cristalinas do riacho. Àquelas alturas, minha vista já se acostumara à claridade da lua. Foi aí que percebi o lado esquerdo de Bibigul. Era uma lama só. Não quero julgar ninguém, entretanto já vi Jipão agredindo a órfã outras vezes. Bibigul me acompanhou até a casa e chupou uma laranja. Sério, ela chupa laranja, sim. Aproveitei para ver se estava tudo bem com ela. Estava. Foi só um susto. Jipão, danada, acho que estás indo à cidade, às escondidas, e aprendendo más maneiras.