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Mostrando postagens com marcador Florianópolis. Mostrar todas as postagens
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Neymar fecha camarote em casa noturna de Florianópolis e seleciona gatas para entrar


Pe-la-mor-de-de-u-is.

     Para começar o ano do fim do mundo, fiz questão de copiar e colar o que li no site de um jornal de Florianópolis. A escrevinhadora, que se diz jornalista e tem direito a fazê-lo, teve a honra - como ela mesma deixa claro - de entrar no camarote de Neymar, o boleiro do Santos. Leia e veja que, de fato, é o fim do mundo. Um ditado usado por aqui: "eu quero é que o mundo acabe em barranco que é pra eu morrer escorado". Pelo jeito, esse asteróide pequeno vai acabar em puteiro.

*Por Bárbara Nunes
"Sim, Neymar continua na nossa Ilha da Magia! O jogador-celebridade estava, domingo, na casa noturna El Divino, na Avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis. O gato fechou um camarote só para os amigos e as mais gatas da balada. Os seguranças do jogador escolhiam as meninas e convidavam as mais top's para serem levadas para alegrar o rapazinho. Eu não sou top, mas sou cara de pau e trabalho com fofoca, então, consegui entrar também. Meninas, o Neymar é baixinho e tem o rosto todo marcado das espinhas da adolescência. Mesmo assim é um gato. Carismático demais.

A todo momento ele estava sorrindo. Mas, também não era pra menos. O bofe estava rodeado de muitas gatas e com bebida à vontade. Ressalto aqui que, nas três horas que fiquei no local, o menininho de 19 anos pagou nada mais nada menos do que 12 garrafas da champanhe mais cara que tinha lá, mais cinco vodcas (das boas), uísque e energético, que não consegui contar... Como uma boa jornalista, eu estava com a minha máquina a postos quando o segurança veio no meu ouvido e disse: "Não pode tirar foto. Se desrespeitar, vou ser obrigado a retirar você da casa". Sim, havia muitos, muitos seguranças...

O jogador estava não só para se divertir, mas estava à caça também. Ele olhava nos nossos olhos e depois dava uma espiadela no corpicho. Paquerando mesmo. Enfim, sei que uma das meninas resolveu falar de "seu amor" no ouvido do gato celebridade... Ele não curtiu nadinha e pediu pra que os seguranças a retirassem do camarote. Uiii, que bobinho! E ela? Desesperada! Bom, mas ele estava com a moral toda, e, infelizmente, podia fazer o que quisesse. E todas que estavam ali sabiam dos "riscos" que corriam. Ser tradada como um "pedaço de carne" era moral. Mas, em se tratando do Neymar, até eu que sou tola topei entrar na brincadeira. O bofe foi embora à francesa, antes de a festa acabar. Com quem ou quantas, a gente nunca saberá."


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O cérebro de lacraia, a OAB e a Barra da Lagoa



     Você é morador da Grande Florianópolis? Então, conhece a Barra da Lagoa. Não é e não tem a menor ideia do que seja, nem onde fica? Pois bem, a Barra da Lagoa é um bairro de Florianópolis juntinho da afamada Lagoa da Conceição. Pousadas tem aos punhados por lá. Isso implica em turistas às toneladas no verão. Florianópolis, verão e turismo, somados ao descaso do poder público, resulta não só em trânsito caótico, mas ao consumo exagerado de drogas. E não precisa ser investigador pós-graduado para saber disso. Um pouco de vivência e olhos atenciosos são suficientes. É assim em quase todo destino turístico nas terras descobertas por Cabral em 1500. 
 
     Antes que um ilhéu bairrista saque seus argumentos e me chame de cabeça chata, vou dar um exemplo do que ocorre no meu querido Rio Grande do Norte. Praia de Pipa. Meu caro, se o consumo de drogas for combatido por lá, o lugarejo será esvaziado em menos de vinte e quatro horas. Pipa é um território livre. Livre para quem quer encher o bucho de cocaína, maconha e congêneres. E o mesmo fenômeno vem crescendo pelas praias de Floripa. Até minha idolatrada Praia da Daniela, conhecida por ser um balneário para a família, vem se transformando num polo atrator de maconheiros. Daqui a pouco, terei que usar máscara durante minhas caminhadas na areia. Até me lembra aquela música do Ultraje a rigor: “nós vamos invadir sua praia”.

     Droga, meu chapa, é coisa para rico, para quem tem dinheiro. O pobre inventa de usar e não tem dinheiro para fazer o investimento. Toda porcaria, hoje, é investimento. Não duvido que em breve as propagandas de cervejas dirão: “invista em cinquenta garrafas de cervejas por noite”. Pois bem, o carinha quer maconha e não tem como comprar; o que faz, o que faz? Rouba, assalta. Quer cocaína e o babado está caro; o que faz, o que faz? Criminalidade, paisano. Criminalidade. 
Enquanto uma parte da sociedade discute o assunto, a outra sofre as consequências. Voltemos à Barra da Lagoa falada no primeiro parágrafo.
 
     Com o aumento do tráfico, e consequente criminalidade, a população viu-se acuada entre a ação de marginais e a ausência de segurança pública. E o ser humano aterrorizado, simpatia, não difere de qualquer outro animal. A comunidade da Barra deu as mãos e surrou a cambada de desordeiros que infestava o local. É a clara evidência que o poder público faliu. O dinheiro do contribuinte é sugado por administradores que não pensam duas vezes antes de meter a mão no erário. A OAB local, outra sanguessuga – que o diga o caso da chamada Advocacia Dativa -, logo tratou de advertir a população. De acordo com o site do jornal Diário Catarinense, "o presidente da Comissão de Segurança, Criminalidade e Violência Pública da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Juliano Keller do Valle, esclarece que as pessoas que participaram da agressão agiram contra a lei e podem ser responsabilizadas judicialmente por lesão corporal leve, grave ou tentativa de homicídio, se um inquérito for aberto". Ora, ora, dona OAB, comece a trabalhar pelo povo. Comece incentivando a criação de uma defensoria pública. Porque vai ter gente pensando que a senhora está, também, lucrando com o crescimento da criminalidade. Claro que tem advogados que vivem à custa de marginais, mas a OAB não deve enveredar por esse caminho.

     Enquanto os políticos deixam a população à mercê de bandidos – incluindo eles, lógico -, resta aos cidadãos o direito a defesa. E esse direito é sagrado. Nem a OAB, nem o diabo que a carregue, tem o direito de proibir que um mortal se defenda. “Mas ninguém pode fazer justiça com as próprias mãos”, dirá um cérebro de lacraia. E-vi-den-te, ô cabeça de prego. O problema é que os moradores da Barra perderam a fé em quem deveria lhes defender. Sentem-se órfãos do Estado. São bezerros desmamados cuja mãe foi encontrar-se com o único mal irremediável. Aí, companheiro, é salve-se quem puder. E não se engane, atitudes como a dos moradores da Barra vão surgir aos borbotões por esse Brasil tão abandonado pela República.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Prefeitura de Florianópolis imita galinha


     Florianópolis recebe hoje mais uma obra no seu travado sistema viário. Um elevado foi construído para facilitar o trânsito para quem chega à ilha. Logo mais, às 10h, será feita a inauguração. Um ato semelhante ao cantar da galinha quando bota o ovo. A população deve ficar esperta porque, assim como ocorre com as penosas, do mesmo lugar que verte a edificação costuma brotar algo nada bom. É justamente por esse motivo que alguns mandatários adoram construção. Não sou idiota a ponto de ser contrário às melhorias da cidade, como não sou avesso a ovos. Sou, no entanto, totalmente contrário a publicidade dada às inaugurações de obras públicas. Claro, meu amigo. Para fazer isso, o erário precisa encher os bolsos da mídia. Esta, por sua vez, para não perder a teta, torna-se uma amordaçada. Vamos deixar o cacarejo para as poedeiras. Os beneficiados que notem as obras do governo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Igreja, bar e bordel - isso não dá certo

Florianópolis - trevo de acesso ao Jurerê

Santo Amaro da Imperatriz - margem da BR-282

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Vem veranear em Floripa, vem


     “Tá chegando o verão, muito amor no coração”, diz o poeta. De barriga vazia, meu chapa, não tem amor que resista. E é bom que fique esperto quem pretende curtir os 30 dias de calor em Floripa. Almoçar, por aqui, simpatia, não é brinquedo não. Só para que vossa santidade tenha uma ideia: Ontem, domingo ensolarado, temperatura chegando aos 28º, resolvo ir almoçar em Santo Antônio de Lisboa. O recanto açoriano da ilha é uma conhecida via gastronômica.  Chego lá por volta das 13h. Simplesmente não tem onde estacionar. Vou seguindo, seguindo, até o Sambaqui. Nada. Nem uma mísera vaga. A paisagem encantadora desvia a atenção do estômago. Faço todo o percurso de volta e necas trepas de pitibiriba. Vez por outra, paro na frente de um restaurante e olhava para dentro: gente saindo pelo ladrão. As filas de carros estacionados na rua me disseram: “imagine como vai ser andar aqui em janeiro”. Deixei o peixe para outro dia e rumei para o Pântano do Sul, no oposto de onde eu estava.

     Por volta das 14h30, parei o cavalo na beira da praia do Pântano. Quando chega a bóia, o garçom fez a tradicional pergunta: “bebe alguma coisa?”. Refrigerante quente, meu chapa, ninguém merece. E ele tenta concertar: “o senhor quer gelo?”. Quase que pergunto se ele costuma oferecer gelo para a gambazada colocar na cerveja. É que as geladeiras só aceitam cerveja, de certo. É como se o cliente não tivesse direito a um simples refri gelado. Acho que é a ditadura da cerveja. Reclamei, claro. O gerente, ou era o dono, sei lá, ficou de cara amarrada. Mais uma vez, a vista compensava. Na volta, mais engarrafamento. A televisão avisava: “em Salvador, Vasco da Gama 1, Bahia 0”. Pelo menos uma boa notícia naquela fila nojenta. E ainda estamos em outubro. Imagine o que te espera na alta temporada, jacaré. Natal, cidade do sol, dia 4 de janeiro estarei aí. Quando esse furdunço acabar eu volto.

domingo, 23 de outubro de 2011

Domingo de sol em Floripa

Avenida mais charmosa da cidade, um convite para a caminhada:
Da Beira-Mar norte para o Pântano do Sul:
Estacionamento misto
 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Vai um pedaço de pizza?


        - Ô, irmão, cuida com essa moto, hem. Vai devagar.

     Esse cuidado com um desconhecido me deixou pensativo. Porque foi sincero. E a sinceridade, meu chapa, é uma roupa discreta. Não é carregada de purpurina, como o é a da sua irmã gêmea - a falsidade. Só quem convive, ou conviveu, com as duas é capaz de diferenciá-las. Ronaldo tinha uma espécie de limo no pescoço. A barba e o bigode ralos não viam uma gilete há pelo menos uma semana. O jeans e a camiseta, numa olhada rápida, pareciam acompanhá-lo nas últimas 72 horas. Só mesmo a chuva para fazer com que eu me aproximasse de um morador de rua como ele. 

     A chuvinha fina, daquela feita para molhar bobo, empurrou-me junto com a moto para o primeiro abrigo que vi. Foi quando ele me cumprimentou. Bem articulado, lamentou a chegada das imprevistas águas e o incômodo que causara a nós dois. Com o preconceito que é passado de geração a geração, pensei: “lá vem ele me pedir dinheiro”. Estávamos próximos a uma casa de massas – que eu não direi o nome porque não sou pago para isso – e vi que de lá saía um colega do Ronaldo. As características não deixavam espaço para dúvida, era morador de rua também.  Com um sorriso furado, inteiramente alheio a crise econômica da Europa, trazia uma caixa cheia de fatias de pizza. Estendendo o braço direito na direção do sem-casa, ofereceu numa mistura de idiomas:
       - Pega aqui, brother.
       - Valeu, irmão – e Ronaldo pegou dois pedaços.
       - Pega mais, brother – insistiu – porque tô indo embora.

     Ronaldo devorou os dois que tinha nas mãos fervilhantes de bactérias e atacou outros três. O da pizza esticou a caixa na minha direção.
- Vai um pedaço, brother?”.
- Não, não, obrigado 

     Mais uma amostra de dentes e despediu-se. A chuva acompanhada de cinzas do vulcão chileno continuava e Ronaldo contou um pouco acerca da vida na rua. Da vinda do Mato Grosso para Floripa, da mãe.
- Ela trabalha no tribunal, irmão; ganha bem. Mas é materialista.

     Monossilábico, eu levantava a bola para ele cortar.
- Eu não acredito em Jesus – afirmou. Pensou um pouco, coisa de 3 segundos e corrigiu:
- Até acredito; mas se ele vai voltar, por que não voltou ainda? A coisa tá feia, irmão. Ele tá esperando o que?

     Após uns dez minutos a chuva ameniza. Quando acelero a moto ele faz uma cara de quem está sinceramente preocupado com minha vida e alerta:
       - Ô, irmão, cuida com essa moto, hem. Vai devagar.


É, bendita chuva.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Feriado na Beira-Mar Norte é assim

Feriado, 8h30, na avenida mais charmosa de Floripa tem:

Beleza

 Mais beleza
 Raridade
 Protesto
 Esgoto aditivado
 
 E parceria
 Isto, sim, é parceria



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O parlamento não mudou nada


“Nós representamos uma comédia parlamentar”.
Quem disse essa pérola? 

Foi Joaquim Nabuco em seu discurso parlamentar feito em 22 de março de 1879.

Ontem, em frente a assembleia legislativa de Santa Catarina, o presidente do Sindcomb (Sindicato de Donos de Postos de Combustíveis), Ângelo Sombrio, fez um desabafo público que me fez lembrar o falecido Nabuco:
“É preciso que os políticos parem de roubar”. 

Mudou alguma coisa nesses mais de 130 anos?

Ângelo discursando na frente da Alesc

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Bater ou não na mulher, eis a questão


     Ela trabalha na casa de um amigo meu. E diz adorar o neto.
- Aquele alemãozinho é muito inteligente. Vai fazer quatro anos e já diz cada coisa.
E continuou: “outro dia ele segredou que não era para contar certas coisinhas que a mãe dele faz senão o pai bateria nela”. A esposa do meu colega entrou na conversa: “o marido bate nela?”. Adalgisa, chamemos assim a diarista, arrematou: “pois é, podia bater escondidinho, né?”.
- Não, Adalgisa, não é para bater nem escondido. Homem não deve bater em mulher -, retrucou a senhora.
- Ah, mas ela merece -, obstinou-se a da limpeza.

     Bate não bate, a conversa se esvaiu em menos de cinco minutos. Quando a dona da casa saiu de perto, Adalgisa olhou para mim e resmungou como se eu fosse cúmplice: “tem que bater, sim”. Eu, sem argumento suficiente para mudar a ideia de uma senhora que um dia também já apanhara do esposo, emudeci. E olhe que estou falando de uma situação ocorrida em Florianópolis, no sul maravilha.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O glutão da Daniela

     Deixei o narrador de Botafogo e Atlético Mineiro falando sozinho e desci a escada. Também, já estava três a zero para o Fogão, como o time carioca é chamado. A equipe de Minas Gerais, virtual rebaixada do Brasileirão 2011, não teria forças para mudar o resultado da partida. Com as três senhas no bolso do blazer, deixamos a comodidade do lar e fomos ao compromisso social. E demos carona a uma penetra que apareceu bem na hora em que saíamos.

- E se não conseguirmos ingresso para ela? – veio a voz do pessimismo.
- Conseguimos, sim. Além do mais, ela é muito pequena e não deve comer muito. Vão deixá-la entrar.

     E entramos nos doze graus da cidade. Quando chegamos, o salão já estava lotado. Parece que todos os moradores do Balneário Daniela resolveram jantar no mesmo canto. Da porta, percebi a fila que serpenteava em direção às guloseimas. No meio da corriola faminta um vivente se destacava – Chuletão. Digo faminta por uma questão de chiste. É claro que um bolsista do governo federal não teria vinte e cinco reais para pagar um rango. Duas senhoras guarneciam o salão da igreja. Uma delas, em tom de confidência avisou:

- Não tem cadeira para todo mundo. Acho que venderam mais ingressos do que devia. Só pode ter sido coisa de “fulana” – e eu não sou louco de revelar o nome pronunciado de modo tão claro. Fiz-me de desentendido e perguntei se ela podia conseguir mais um ingresso para nossa minúscula penetra.

- Impossível – taxou. Ato contínuo, apontou para uma mesa com duas cadeiras ociosas. Os lugares de vocês dois devem ser aqueles. Pedimos para as meninas aguardarem na entrada enquanto contornávamos a situação. Não precisou; em menos de um minuto elas estavam na nossa cola. Por um milagre – já que o ambiente era religioso – apareceu um ingresso salvador que permitiu a legalização da penetra.

     Há quem diga que cristão não peca bebendo, mas peca comendo. Um senhor de oitenta anos sentou-se ao meu lado com um prato que mais parecia uma trincheira. Jesuisi, Jesuisi, Jesuisi! Escondido atrás dos pães, bolos, empadas e outras iguarias, ele justificava: “é tudo diet”. Feito um trator de esteira, uma menina passa ao meu lado. Nas mãos, comida para cinco pessoas. A ex-penetra, seguindo o lindo exemplo do octogenário, erguera um monumento à glutonaria. Senta-se e, com a fleuma de um leão esfomeado, devora tudo em menos de dez minutos. Só me restou balbuciar: “Jesuisi, Jesuisi, Jesuisi”. Depois que os estômagos estavam mais mansos, entramos na fila. Acabara de pegar uma xícara de leite quando vi um bólido vindo na minha direção. Só deu tempo de me esquivar. Hipnotizada por um bolo de chocolate – diet, diga-se de passagem -, uma idosa avançou sobre a guloseima como se fosse Usain Bolt em direção ao estrelato.

     Chuletão continuava na fila ou era impressão minha? “É a quarta rodada”, contabilizou um fiscal da vida alheia. É, nem a ex-penetra e nem o vovô smurf. O título de comilão da Daniela foi mesmo para ele. “Chuletão, meu filho, nunca que vou te convidar para almoçar na minha casa”. Por último, um susto: a lâmpada apagou. Mas acendeu imediatamente. Aí uma voz soprou no meu ouvido: “já pensou se faltar energia?”. “Nem diga uma coisa dessas”, retruquei, “com esse frio é capaz de alguém querer tomar sopa dentro do caldeirão”.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Motor, buzina e cara amarrada

     Ele não estava bêbado. Trupicava, sim, mas daí para a embriaguês faltava uns trinta e três quilômetros. Os olhos abarrotados de remela comprovavam que a noite tinha sido menor que o futebol jogado pelo Avaí – pelo Grêmio, pelo Atlético Mineiro, pelo time de Mano Menezes. Não me pergunte como, mas o cara tinha as costas abraçadas por uma mochila duas vezes maior do que a arcada dentária de Ronaldinho Gaúcho. A sonolência, os resquícios de álcool e a pesada carga, como se não bastasse, tinham uma jaqueta como aliada. Pezinho para frente, pezinho para trás, o moço tentava fechar o zíper da malvada. O casaco insistia em se manter aberto. O vento frio que soprava do mar não aliviava e o jeito era proteger o peitoral. Na tentativa cega de lograr êxito, Cinfrônio – chamemos assim o desafortunado – nem dava bolas para os passantes que lançavam-lhe impropérios. “Sai daí, ô cachaceiro”, gritou um cidadão de ar superior, como se nunca tivesse tomado um porre. Eu, protegido pelo capacete, bradei baixinho: “deixa o cara, fariseu. Ele só difere de você na dosagem”. Ainda bem que o conforto da Mercedes (dele) bloqueou meus sinais sonoros.
 
     Cinfrônio, nisso eu concordo com os fiscais da vida alheia, escolhera um péssimo local para fechar a maldita jaqueta. O cruzamento de duas avenidas próximas à Beira Mar Norte é um carma para os moradores de Floripa – principalmente quando os semáforos estão quebrados, que era o caso. Nem um pouco preocupado com a crise financeira que ameaça jogar o mundo num inferno, o mendigo, com aquela determinação que só um ébrio tem, ignorava as buzinadas e palavrões. Um motorista mais exaltado fez a denúncia: “seu filho da ͖@#$&, vai perturbar noutro lugar”. Fiquei, então, sabendo sobre a mãe do homem, embora tenha achado que a acusação fosse infundada. E me questionei: “ora, quem é o verdadeiro incomodador, o da birita ou quem deixou o sinal de trânsito estragado em plena hora do rush?”. Dois olhos amigos não desgrudavam de Cinfrônio.
 
     Semelhante a um pajem, o alvinegro cachorro se postava como uma espécie de anjo da guarda do dono. Quando, enfim, Cinfrônio alcançou a calçada, foi agraciado com uma lambida de parabéns. E o trânsito continuou uma porcaria. Acho que até piorou. O vestígio de humanidade se fora junto com Cinfrônio e seu cão. Restou motor, buzinas e caras amarradas. Ou isso é o ser humano?

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Queijo brie e ovo frito

- Bem feito, Gilead, bem feito – pensei.

- Quem manda não perguntar qual é o cardápio? – continuei me pisoteando.

     E vamos combinar: tem horas em que a gente tem vontade de socar o próprio queixo, estapear a própria cara de tolo. Ora, você. Imagine que, além de tudo, fui quase que obrigado a mentir. Digo quase porque a mentira só é obrigada quando é feita sob tortura ou para atender a interesses políticos. Sim, paisano, um político nobre precisa mentir de vez em quando. Não que ele seja um mentiroso inveterado, mas é tudo para defender o interesse dos eleitores. E dos não-eleitores também, afinal, ser político é antes de tudo um sacerdócio. Não fui obrigado a mentir, como um deputado numa CPI, mas o cuidado em não melindrar o cheff falou mais alto. O dono do lugar, também amigo meu, não ficaria lá muito contente se eu dissesse que arroz feito paçoca para mim não passa de uma gororoba. Isso mesmo, gororoba. Tomara que meu amigo não leia esta crônica, e muito menos o mestre da cozinha que fez o risoto de queijo brie (lê-se brí) com presunto não sei de quê.

     A verdade é que o Gile aqui estava virado em vinte e cinco metros de fome. O friozinho de 13 graus, somado a umidade da Lagoa da Conceição, provocava uma sensação de oito. Já passava das 22h. Enquanto os convivas riam e conversavam amenidades, encontrei uma estante e fui fuçando para descobrir um livro que me interessasse. Folheava as páginas de O Livro das Religiões quando Donizete – chamemos assim o anfitrião – avisou: “Gile, o jantar está servido”. Quase larguei a obra no chão. Não fiz como a corte portuguesa que debandou para o Brasil em 1807 e abandonou os livros no cais do porto. Quando vi todos se servindo achei que teria um troço. “Tanto tempo esperando, meu Deus do céu, e agora terei que comer paçoca de arroz?”, lamentei tão baixinho que só eu mesmo ouvi. Arroz, para o nordestino aqui, tem que ser soltinho. De preferência com carne assada. O arroz mole, unido pela viscosidade – mesmo que seja do tal queijo brie -, já me dá calafrios. O cheiro de chulé – isso mesmo, a comida chique parecia ter saído de dentro de um tênis usado por um indivíduo nada asseado – deixou meu nariz em greve. E o olfato, meu amigo, é o parceiro número um do paladar. A fome, no entanto, e o receio de prejudicar o jantar dos demais, empurraram minha mão e colocaram uma colherada da iguaria no meu prato.
- Só isso, Gile? Não vai comer mais nada? – perguntou um dos presentes desconhecedor da minha saia justa.

- É que não estou com muita fome. Além do mais, não costumo comer muito depois das dez da noite – dei uma de candidato a vereador.

     E como diz o ditado: “o que é um %^$#* pra quem tá todo &^%$^$?”. Antes que me enchessem de pergunta e insistissem para comer mais, levantei a voz: como é mesmo o nome desse prato? Em seguida murmurei só para o Gile ouvir: grave esse nome e nunca mais se deixe enganar. Ora, ora, simpatia, quem já viu um camarada lá do Rio Grande do Norte se meter a besta e querer comer esquisitices da cozinha francesa? Arrumei uma desculpa – ou mais uma mentira – e fui o primeiro a pegar o caminho de volta. Passava da meia noite quando comecei a jantar. Te dana, queijo brie, prefiro um ovo frito.