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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O cérebro de lacraia, a OAB e a Barra da Lagoa



     Você é morador da Grande Florianópolis? Então, conhece a Barra da Lagoa. Não é e não tem a menor ideia do que seja, nem onde fica? Pois bem, a Barra da Lagoa é um bairro de Florianópolis juntinho da afamada Lagoa da Conceição. Pousadas tem aos punhados por lá. Isso implica em turistas às toneladas no verão. Florianópolis, verão e turismo, somados ao descaso do poder público, resulta não só em trânsito caótico, mas ao consumo exagerado de drogas. E não precisa ser investigador pós-graduado para saber disso. Um pouco de vivência e olhos atenciosos são suficientes. É assim em quase todo destino turístico nas terras descobertas por Cabral em 1500. 
 
     Antes que um ilhéu bairrista saque seus argumentos e me chame de cabeça chata, vou dar um exemplo do que ocorre no meu querido Rio Grande do Norte. Praia de Pipa. Meu caro, se o consumo de drogas for combatido por lá, o lugarejo será esvaziado em menos de vinte e quatro horas. Pipa é um território livre. Livre para quem quer encher o bucho de cocaína, maconha e congêneres. E o mesmo fenômeno vem crescendo pelas praias de Floripa. Até minha idolatrada Praia da Daniela, conhecida por ser um balneário para a família, vem se transformando num polo atrator de maconheiros. Daqui a pouco, terei que usar máscara durante minhas caminhadas na areia. Até me lembra aquela música do Ultraje a rigor: “nós vamos invadir sua praia”.

     Droga, meu chapa, é coisa para rico, para quem tem dinheiro. O pobre inventa de usar e não tem dinheiro para fazer o investimento. Toda porcaria, hoje, é investimento. Não duvido que em breve as propagandas de cervejas dirão: “invista em cinquenta garrafas de cervejas por noite”. Pois bem, o carinha quer maconha e não tem como comprar; o que faz, o que faz? Rouba, assalta. Quer cocaína e o babado está caro; o que faz, o que faz? Criminalidade, paisano. Criminalidade. 
Enquanto uma parte da sociedade discute o assunto, a outra sofre as consequências. Voltemos à Barra da Lagoa falada no primeiro parágrafo.
 
     Com o aumento do tráfico, e consequente criminalidade, a população viu-se acuada entre a ação de marginais e a ausência de segurança pública. E o ser humano aterrorizado, simpatia, não difere de qualquer outro animal. A comunidade da Barra deu as mãos e surrou a cambada de desordeiros que infestava o local. É a clara evidência que o poder público faliu. O dinheiro do contribuinte é sugado por administradores que não pensam duas vezes antes de meter a mão no erário. A OAB local, outra sanguessuga – que o diga o caso da chamada Advocacia Dativa -, logo tratou de advertir a população. De acordo com o site do jornal Diário Catarinense, "o presidente da Comissão de Segurança, Criminalidade e Violência Pública da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Juliano Keller do Valle, esclarece que as pessoas que participaram da agressão agiram contra a lei e podem ser responsabilizadas judicialmente por lesão corporal leve, grave ou tentativa de homicídio, se um inquérito for aberto". Ora, ora, dona OAB, comece a trabalhar pelo povo. Comece incentivando a criação de uma defensoria pública. Porque vai ter gente pensando que a senhora está, também, lucrando com o crescimento da criminalidade. Claro que tem advogados que vivem à custa de marginais, mas a OAB não deve enveredar por esse caminho.

     Enquanto os políticos deixam a população à mercê de bandidos – incluindo eles, lógico -, resta aos cidadãos o direito a defesa. E esse direito é sagrado. Nem a OAB, nem o diabo que a carregue, tem o direito de proibir que um mortal se defenda. “Mas ninguém pode fazer justiça com as próprias mãos”, dirá um cérebro de lacraia. E-vi-den-te, ô cabeça de prego. O problema é que os moradores da Barra perderam a fé em quem deveria lhes defender. Sentem-se órfãos do Estado. São bezerros desmamados cuja mãe foi encontrar-se com o único mal irremediável. Aí, companheiro, é salve-se quem puder. E não se engane, atitudes como a dos moradores da Barra vão surgir aos borbotões por esse Brasil tão abandonado pela República.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Eles só querem ter direito


     Eles estão certos. Liberdade, liberdade, liberdade. Direito de ir e vir, de fazer o que bem quer da vida. Fazer o que bem entende, onde der na cabeça e à hora que achar conveniente. Gente do céu, por que negar essa prerrogativa a estudantes? Não foi isso o que fizeram, ou tentaram fazer, com os acadêmicos da USP (Universidade de São Paulo)? Os meninos foram proibidos de fumar maconha. A polícia deteve os rapazes pelo simples fato de eles estarem portando droga. Isso não pode mais acontecer. Se os tais alunos são maiores de idade, pagam suas contas com o dinheiro que recebem de horas e horas de trabalho e não precisam de ninguém para custear nada para eles, acho que não deveriam ser presos. Um trabalhador que pega no batente às oito horas da manhã e só larga as dezoito, depois dessa canseira vai para a USP acabar a noite nas cadeiras de uma faculdade tem o direito de acabar o dia no mundo da lua.

     Mas se a turma da fumaça não trabalha e ainda recebe ajuda dos pais e do país, que coloquem a viola no saco e fiquem pianinho. A faculdade é pública e deve ser regida pela legislação pública. Essa molecada deveria sair às ruas para protestar contra uma educação de baixa qualidade, isso sim. Aí vem estrebuchar para ter o direito a fumar maconha sem ser importunada? Vai caçar um marido, vai, ô fumacento. Vai fazer faxina nas muitas horas vagas que te sobram. Não, preferem invadir a reitoria e dormir até as 11h. A Folha de São Paulo denunciou que a turma da fumaça dorme até próximo do meio dia. Será que ficaram a noite toda trabalhando? Ah, faça-me o favor. E olhe que é arriscado vermos alguns desses viciados assumindo cargos públicos futuramente. Ou seja, a lama que está o Brasil vai continuar por muito tempo. Enquanto a sociedade continuar fabricando pessoas que só querem ter direito, o lodaçal vai continuar.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Galinha, cocaína e política

     Um galinheiro, é isso. Dez penosas e um galo. O sítio Três Platôs ganhou, nesse fim de semana, um recanto para aves. Pelas futuras poedeiras – pois tem apenas um mês de vida as dançarinas – paguei quatro reais, cada. Aí um colega meu admirou-se: “Poxa, Gile, quatro reais numa franguinha!? É muito!”. Sinceramente não entendo a atribuição de valores que a sociedade impõe às coisas. Invisto menos de cinco pila em uma ave, ela vai pôr uma média de 15 avos por mês durante cinco anos e, se brincar, no fim da vida servirá de almoço. Foi um mau negócio? Foi caro? Um ovo de caipira não sai por menos de quarenta centavos. Numa conta rápida, em um ano ela renderá 72 reais. Em cinco anos nesse mundo de meu Deus, a bilisquenta presenteará o Gile com 360 moedas de um real. Ou seja, apliquei 40 reais para, em cinco anos, ter 3.600. Só droga e política podem dar lucro maior. Há quem diga que a política é um grande galinheiro, mas acho uma maldade por parte de quem fala uma barbaridade dessas. Como cidadão, apresento veementes protestos contra o tal gracejo. Nunca, eu disse nunca, um vereador me deu uma pataca de retorno. Um deputado, então... E um prefeito? Acho mesmo é que, em se tratando de política, o galinheiro é o país e os criadores os políticos. Ah, quase que eu esquecia de informar: o galo ganhei de um amigo.

     Ainda no campo das comparações, tenho que admitir, a droga rende bem mais do que criar galináceas. Em uma coisa elas se equiparam: no fim, destroem a mina. A galinha acaba na panela, o usuário na cova. Acho até que estão levando muito ao pé da letra o texto bíblico que diz “e o pó volte ao pó”. E há quem ache que droga é coisa de pobre. Verdade; há, sim. Outro dia eu estava mudando de canal, coisa que raríssimos homens gostam de fazer, e dei de cara com um programa de polícia. No televisivo, os gloriosos fardados andavam pelas periferias fedorentas das grandes cidades em busca de usuários de drogas. Curioso, atentei para os dias e horários em que o espetáculo ia ao ar. Não deu outra, os lugares visitados pelos militares são sempre os mesmos – zonas de pobreza. Por que não vão a boates elitizadas? Porque não fazem uma busca em festas de políticos e empresários? Porque não espiam pelas janelas de luxuosas casas de praia? Voltemos ao galinheiro antes que o mau cheiro destrua nossas frágeis narinas.

     O ar puro do sítio, o mugido das vacas e a música da cachoeira, agora com o sonoro despertar do galo, fazem-me esquecer dos políticos malvados, dos traficantes e usuários apodrecidos, das mazelas da urbanidade. Quatro reais uma galinha. Caro?

terça-feira, 21 de junho de 2011

Criança quer sexo, droga e pancadão

     Lendo um jornal de circulação diária do nosso Brasil varonil, dei com as fuças na seguinte manchete: “Pais devem acostumar os filhos a dormir na hora certa desde cedo”. O complemento informava: “Garantir um bom sono durante a infância estimula esse hábito na fase adulta”.

- Ô editor, meu garoto, para com isso, mermão. Tu ta maluco, animal. Tas querendo que nossas crianças sejam fantoches, é? Tas insinuando que os pais devem estabelecer um horário para os filhos caírem no sono? Tas querendo que os inocentes se acostumem a dormir cedo? Tu ta mais por fora do que mão de afogado, louco. Sai dessa vida e cai na real, jacaré. E tem mais: se você continuar colocando matérias manipuladoras nesse teu jornaleco, vais findar com um baita processo nas costas.
 
     Ora, ora, onde já se viu uma coisa dessas? Onde é que vamos parar? Nossas crianças precisam ser independentes desde cedo – comer o que querem, dormir à hora em que bem entendem e ganhar uma cópia da chave de casa aos sete anos. E se entre pai e filho tiver que haver um dominador, que seja o de menor idade. Pânico na TV, o programa de televisão mais visto por adolescentes brasileiros, por exemplo, termina às 23h30 do domingo. Se o pimpolho tiver que dormir às 22h, perderá a oportunidade de ver bundas, piadas preconceituosas e bizarrices outras.

     E o que dizer dos horários de funcionamento das boates? A coisa por lá só bomba depois das 23h. Como a entrada é permitida a qualquer pessoa que pague, os menores não vão ficar de fora. Aí uma moça de 14 anos vai estar dormindo nessa hora e perdendo a oportunidade de fumar unzinho, tomar uma dose de uísque com energético e depois transar dentro de um carro de um maconheiro que ela acabou de conhecer? Sei que quem fuma maconha odeia ser chamado de maconheiro, mas acho que isso é auto-preconceito. Você gostaria, pai, a senhora gostaria, mãe, que sua filha perdesse a juventude dela dormindo, ao invés de estar se divertindo? Em casa ela provavelmente não terá cocaína para cafungar. Isso a belezura só encontrará na “casa da amiguinha”, onde precisará dormir para “fazer um trabalho de escola”.

     Tem gente que é antiquada e quer que os filhos também o sejam. Dormir cedo é coisa do tempo em que Legião Urbana ainda era rural. A moçada hoje quer sexo, droga e pancadão. E essas diversões costumam ser disponibilizadas depois que os ultrapassados pais de família estão dormindo. Ora, ora, paisano, uma adolescente não pode perder a festa por causa de um idiota de um pai que quer dormir cedo. Que durma, então, o sonolento, mas não atrapalhe o divertimento das nossas crianças.

quarta-feira, 9 de março de 2011

what a wonderful world

     O carnaval no sítio foi uma farra só. Às sete e meia de sábado, logo que o preguiçoso sol venceu os morros e deu o ar da graça, Chico Buarque – ele mesmo, acredite – soltou a voz pelo nariz e atacou de Meu caro amigo. Poeta politizado, acertou em cheio no tema de abertura dos festejos de Momo. Apesar do resmungo de quem insistia em dormir mais um “cadinho”, como diz o mineiro, o cantor aproveitou o chilrear da passarada e caprichou na canção. Há quem diga que o ritmo carnavalesco é o samba. Há quem diga que é o axé. No sítio, simpatia, o som é outro. Quando meu amigo – perdoe-me, Chico Buarque, pela intimidade – declamou o verso “aqui na terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock’n’roll. Uns dias chove, noutros dias bate sol, mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta. Muita mutreta pra levar a situação, que a gente vai levando de teimoso e de pirraça. Que a gente vai tomando e também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão”, os nativos foram ao êxtase.

     Ora, ora, futebol, chuva e sol, cachaça e muita mutreta é a imagem “cuspida e escarrada” do verão tupiniquim. De saco cheio de ver um monte de idiotas recitando Ronaldinho Gaúcho, Ronaldinho Gaúcho na televisão, e sem paciência para ouvir mais um monte de sambas-enredo horrorosos, o feriadão na zona rural era, sem a menor dúvida, a melhor opção – longe da Zona. A cachaça até se fez presente; ficou, entretanto bastante decepcionada ao notar que entre os festeiros não havia um tomador de álcool sequer. Até quem acabara de retornar dos braços de Morfeu, concordou que a música escolhida para abertura da festança era a mais adequada.

     Atendendo ao chamado de quem estava na janela, Zobaida, conhecida como “boca de sorvete”, comandou o bloco. A Jérsei desceu o morro em grande estilo. As patas traseiras bailavam enquanto as dianteiras seguravam as arrobas. O séquito ensandecido acompanhava a vaca numa decida apoteótica. Apoteótica, não. Aí já seria blasfêmia. O leitor deve saber que a palavra apoteose significa tornar-se deus. E isso só acontece no Rio de Janeiro, quando o verdadeiro deus é escorraçado da cidade e homens suados e ofegantes, cercado de mulheres peladas, ou quase, são aplaudidos pela arquibancada lotada. Nessa hora, os traficantes cariocas se camuflam, a polícia corrupta se fantasia e os súditos triplamente abobados se refestelam. No sítio, o desfile é lindo, sem perder a ternura e muito menos a sensatez.

     E é assim nos quatro dias. Humanos e quase-humanos se confraternizam. A passarada, abastecida de ração não muito farta na natureza, canta até a noite cair. É a hora do estrilar de grilos tenores, do coaxar de sapos barítonos e das lanternas de xénon dos vaga-lumes. O trânsito no Três Platôs, apesar de movimentado - afinal de contas o galope dos quadrúpedes é intenso – não registra um único acidente. Pirata, o boi responsável pela ordem no pedaço, acha que isso é devido a resposta dos colegas à última campanha: “Não fume, não cheire, não beba e, por favor, não mate ninguém”.

     Chico cantou todos os dias. O 14 Bis também apareceu por lá. Luiz Gonzaga cantou até a sanfona desafinar. Até o falecido Louis Armstrong foi representado por cd que declamou what a wonderful world.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Droga, droga e droga

Aproxima-se da meia noite. O posto de combustível às margens da BR fervilha. Mesmo assim, as bombas não despejam uma gota de gasolina, álcool ou óleo diesel nos tanques dos veículos. A movimentação é no pátio, onde caminhões estacionados servem de trincheiras para traficantes, viciados com narizes eufóricos e prostitutas. O estrago causado à sociedade é impossível de ser quantificado. Um rapaz de 19 anos comanda a boca. Aristeu, chamemos assim o moço, é um velho conhecido da polícia. Vende crak, maconha e cocaína. A mãe dele é falecida. O pai, potiguar, mora com uma pernambucana. O casal não aprova o modo de vida adotado por Aristeu. Jercino, nome fictício do pai, não permite que produtos advindos de roubo ou tráfico entrem em sua casa. “Não aceito vagabundo. Não quer trabalhar honestamente, então não apareça perto de mim”, esbraveja em tom de desabafo.

Por volta das 2h da madrugada, Aristeu chama um taxi. Vai à capital, há cerca de 20 km, buscar uma nova remessa de drogas. Ao ser perguntado se não tem medo de ser pego pela polícia, fala grosso: “Eu vendo para policiais, também. Se acontecer alguma coisa comigo, eu entrego todos eles. Meus clientes, aqui, são, na realidade, os caminhoneiros”. Um rapazola de 17 anos está agachado sob a carroceria de uma carreta. O cachimbo movido à pedra está em frenesi. Seu nome? Messias. É irmão de Aristeu. Quase alheio ao que se passa em redor, sorri quando um passante lhe diz uma pilhéria. Não estuda. Não trabalha. É um nordestino sem esperança de dias melhores. Um brasileiro anônimo. Um filho que morreu para o pai, embora não tenha ciência disso. E que está morrendo aos poucos pela boca. Ninguém faz nada. “Será preciso mais que um ‘messias’, para salvar Messias”, penso entristecido.

“Aqui ta tudo tomado pela droga”, diz Anastácia, madrasta dos rapazes. “Tem ‘minino’ de dez anos viciado em maconha”, assusta-me. “Outro dia, meu marido pegou Messias fumando ‘peda’ e deu-lhe uma surra. Queria fazer ele comer a ‘peda’. Só não matou porque eu não deixei. Eles - Aristeu e Messias - moram num barraco perto da nossa casa. Jercino não quer eles aqui. Mas quando ele sai para trabalhar, eu dou comida a eles. Tenho pena”.

O que contei, vi na periferia de uma capital nordestina. Um lugar empobrecido, onde o dinheiro do meu imposto parece não chegar.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Vamos desinfetar a Daniela

         O verão chegou ontem. Digo e provo. Pelo menos aqui, em Floripa, foi ontem que ele deu as caras. E era por volta das 17h. Como é que posso provar? Ora, ora, com meu testemunho. Acostumado que fui, desde pequeno, com as quentes águas do meu Nordeste, só tomo banho de mar em Florianópolis quando a estação do calor aparece. No último verão catarinense, que durou cerca de 20 dias, entrei na água salgada pelo menos em 15 deles. E ontem, paisano, após minha caminhada vespertina pela praia da Daniela, o calor me empurrou para a ponta do atlântico do balneário. É bem verdade que a água não tava quentinha, mas deu para o gasto. O verão chegara.



         O que não deu para o gasto foi o furdunço em que se transformou a areia do lugar. Há poucos anos – cinco é um bom parâmetro – eu costumava dar minhas corridinhas por entre as famílias que frequentavam o pedacinho do céu entre os mortais. Ontem, no primeiro dia do meu verão, mal pudemos caminhar. Em determinados momentos, tivemos que fazer fila indiana para passar por entre os guarda-sóis, barracas e barracões. Sem falar nos vendedores ambulantes, nos banhistas e nos solistas. Por “solistas” entenda aquelas pessoas que, fascinadas com o fulgor do astro-rei, espicham-se sobre toalhas, cadeiras ou coisas do gênero e põem-se a torrar. Eu, Denise – minha mulher – e meu sobrinho Thiago, tínhamos que cuidar para não atropelar as tantas bundas que dominavam a paisagem. É de admirar o quanto as senhoras não cuidam dos seus traseiros. O passante é que precisa ficar atento para não causar uma crise no patrimônio alheio.


         Uma coisa, entretanto, Fez-me mudar o humor: a quantidade de maconheiro na areia. Digo “maconheiro” porque sei que os usuários da marijuana detestam de serem chamados assim. É como o tomador de álcool; podem xingá-lo de qualquer coisa, menos de bêbado. Teve uma hora em que fui obrigado a respirar a catinga da droga. Os clientes dos traficantes aproveitam o descaso policial e fazem seus cigarros na frente de todo mundo. Você não verá, paisano, um único policial na praia. Traficantes e usuários aviltam a lei e o direito dos demais cidadãos na maior cara de pau. Vou mandar emails para as igrejas evangélicas pedindo que elas venham espantar os maledetos. Ah, sim, bastará um grupo de jovens cantando, tocando violão e falando de Cristo. Os maconheiros não suportam religião. Será a campanha “Vamos desinfetar a Daniela”.


PS: Antes que me incomodem, o "desinfetar" não se refere às pessoas, mas ao mal cheiro provocado pela fumaça.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Marcelo D2 é fanfarrão

         Gente do céu, a coisa tá feia no Brail. Tem muito pai de família aumentando a mesada dos filhos em até 500%. Não tem aumento de salário que acompanhe esse galope. Tudo por causa da invasão do complexo do Alemão. Claro, com a apreensão de mais de 40 toneladas de maconha, até o momento, e de centenas de quilos de cocaína, o preço do produto para o consumidor final disparou. E como fica um guri que não trabalha e precisa manter o vício? Se bem que essa gente odeia ser chamada de viciada. De maconheiro, então, nem se fala. A verdade é que a pressão estoura no bolso dos pais. Para não ver seus pimpolhos deprimidos, os supostos donos de casa sacrificam o lazer, e até o comer, e entregam o fruto do suor para os meninos.
         Aí vem o Marcelo D2, dizer que apoia a ação da polícia. Apoia, Marcelo?, usando droga? Poxa, meu camarada, isso é que chamo de fanfarrão. O cantor do "legalize já" faz apologia escancarada ao uso de tóxico e vem querer dar uma de bom moço?! Daqui há pouco vai aparecer Adriano - aquele que jogava no Falamengo e que fazia festas com traficantes da Vila Cruzeiro - alardeando que a PM pode contar com o apoio dele! Continuo com a campanha: fique um mês sem fumar e sem cheirar e quebre as pernas do tráfico.

sábado, 27 de novembro de 2010

Campanha para a acabar a guerra no Rio

Atenção, você que acha que a guerra no Rio de Janeiro precisa ter um fim. Desde já, quero dizer que não é a polícia quem resolverá a questão. Nem exército, nem marinha  e nem a aeronáutica. O máximo que essas forças podem fazer é expulsar os traficantes dalí. O poder de resolver a questão está com você. Como? Combatendo o uso de maconha e cocaína, pelo menos. Sim, porque não adianta prender os traficantes cariocas e deixar os consumidores livres para adquirir o bagulho de outros. O viciado comprará droga em São Paulo, na Bahia ou em Porto Alegre. Meu caro, se tem traficante é porque tem usuário, vamos combinar.

Por isso eu peço para você, que é usuário de drogas: passe um mês sem fumar. Passe um mês sem "cheirar".
Peço a você, pai, a você, mãe: impeça seu filho de usar pó, evite que ele fume o "baseadinho" diário.

E não me tenha por radical; por favor. Só tenho ficado irritado quando escuto pais de usuários de drogas se dizendo alarmados com o caos do Rio. Acho um tremendo cinismo quando vejo consumidores de cocaína e de maconha fazendo um discurso de interessados em ver o problema carioca acabar. Fala sério. Se você, paisano, não fuma e nem cheira, deve ter, tenho quase certeza, um parente que faz uma coisa ou outra; ou as duas. Leve esta campanha adiante. Um mês sem drogas, é o que precisamos para quebrar as pernas do tráfico. O resto, paisano, é balela. É esparadrapo na ferida. Depois do resultado a gente avalia o impacto.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Desgraçadas ruas

          Ele vinha a passos apressados no calçadão da Felipe Schmidt, Centro de Florianópolis. Não devia ter mais que dezoito anos. Os cabelos, tenho certeza, não conversavam com um pente havia dias. A pele do rosto quase não cobria o zigomático. A sola do pé já devia estar acostumada ao contato direto com o chão. Será que pesava 50 quilos? Talvez, osso pesa pra caramba. As roupas, ah, as roupas, pareciam ter saído de dentro de uma garrafa. Garrafa suja, diga-se de passagem. Os olhos, entretanto, corriam da esquerda para a direita procurando o que talvez só o rapazola soubesse. Afundados na cavidade ocular, arrastavam a cabeça toda vez que se mexiam. E a cabeleira negra ondulava. Ao vê-lo, ainda de longe, aquela correria do olhar chamou minha atenção. O que buscava?

          O cérebro, de certo, ainda trabalhava, apesar de seu possuidor parecer mais um autômato. Teria pai o tal guri? E mãe? Certamente, não. Alguém projetou irresponsavelmente, alguém pariu. O que não significa que são pais. Claro, é uma questão de achismo. Eu acho de um jeito, outra pessoa pensa diferente e uma outra concorda. Como aqui eu escrevo o que eu acho, pois a crônica é minha, aquele piá não tem pai e muito menos mãe. Se tivesse um pai, leitor e leitora, não estaria naquela situação. E não me tenha por ignorante, muito menos por intolerante. Nem me xingue de insensível, por favor. E se você me perguntar se os pais são os culpados pela decadência de um ser que um dia foi anjo, não penso duas vezes antes de responder: sim, os pais são os culpados. E digo sem pensar porque já pensei bastante.

          Lógico, se os pais do moço que vi na rua morreram quando ele ainda não tinha os primeiros dentes, isento-os de culpa. Se estão vivos, simpatia, deveriam ser responsabilizados. E talvez até estejam arcando com um alto preço pela miséria do filho. Talvez tenham passado as últimas noites sem dormir. Talvez tenham gasto os recursos que tinham na busca de tratamento para o rebento. Não vou dizer “bem feito” porque talvez eles sejam a continuação de uma geração desgraçada. Desgraçada por um discurso que permite aos filhos fazerem o que bem entendem, como se os menores tivessem condições financeiras e psicológicas de arcar com as conseqüências. Desgraçadas com a falta de limites, com a falta de autoridade paterna. Desgraçados pais, desgraçados filhos e desgraçadas ruas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Para com isso, rapaz

         O cidadão compra um terreno, contrata um escritório de arquitetura e constrói uma casa de alto padrão. Outro indivíduo, menos endinheirado, adquire uma casa de dois dormitórios financiada em 456 anos. O que as duas residências terão em comum? Até Ana Maria Braga é capaz de acertar a resposta: um lugar para guardar tralhas. E sempre temos coisas sem valor para esconder das visitas. Quando um amigo, ou amiga, combina de aparecer, nos preocupamos logo em limpar a sala, ocultar hábitos cotidianos e simular organização. Lógico, tem gente que faz isso normalmente. Outros, entretanto, precisam de um empurrãozinho. E não adianta o visitador implorar, não vamos mostrar a bagunça. Essas coisas não devem ser compartilhadas, a não ser com os de casa. O interessante é que agimos assim também com nossos valores abstratos. Costumamos expor comportamentos tidos como saudáveis, camuflamos, digamos assim, sentimentos menos toleráveis – cólera, avareza e inveja, por exemplo.

          Quando criança – e lá se vão décadas, meu Deus! – sempre que este incircunciso cometia algum ato falho em família, dona Margarida advertia: “Costume de casa vai à praça”. É a mais pura verdade. Nossos hábitos particulares são levados à coletividade. Nossas, praças, ruas e avenidas são tsunamis de ações individuais que quando somadas causam horror. O que acontece é que acostumamos nosso olhar. Não nos impressionamos quando vemos mendigos dormindo sob marquises de lojas. Fazemos ouvido de mercador quando ouvimos pessoas vendendo pessoas em pequenos panfletos nas vias mais movimentadas. Ignoramos os andrajos humanos que se deterioram pelas sarjetas suplicando uma dose a mais. Não “estamos nem aí” se o miserável não tem banheiro público para fazer suas necessidades básicas de asseio. Ficamos indignados, porém, se um mequetrefe se atreve a retratar essa realidade.

          O jornal“Folha de São Paulo traz hoje uma matéria cujo título é: "Google Street View" gera polêmica com imagens constrangedoras pelo país. Depois relata quais são as tais imagens: “Um homem de olho nos cartazes de um cinema pornô, uma prostituta e um travesti com os seios ao léu, um bêbado caído na sarjeta, um rapaz coçando o sexo, alguém passando mal numa poça de vômito e um pedestre defecando na calçada”. Ora, ora, simpatia, deveríamos ficar revoltados com nosso modo de vida. Injuriados com os homens que elegemos para nos governar. Não, aceitamos passivamente nossas mazelas. E depois achamos ruim quando alguém, por motivos os mais diversos, abre nosso quartinho de tralhas e descobre nossas mazelas. Voltando a minha infância, recordo um locutor que sempre dizia: “Se você não quer que os fatos sejam divulgados, não deixe que os mesmos aconteçam”. Deu.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sexo e droga na imprensa tupiniquim

          Aos nove anos começou a fumar. Pegava bitucas de cigarro do pai. Aos 12 começou usar maconha. Repetiu a quinta série três vezes e foi expulso. Cheirou cocaína todo dia por quase 10 anos – agora diz que cocaína é de direita e maconha é de esquerda, que a maconha é socializante porque todo mundo fuma o mesmo baseado.  É categórico ao dizer que nunca acreditou em Deus. Foi preso quatro vezes: “todas parecidas, por causa de baganinha no bolso... Na primeira vez, tava com dois amigos no carro, chapados. Um deles gritando pela janela. A polícia civil cercou a gente no Pacaembu, perguntou se tava com alguma coisa. Disse que não, mas encontraram. Aí tiraram minha roupa, bateram, me arrastaram pelo cabelo. Eu tinha cabelo comprido”. Aos dezoito anos se envolveu com bandidagem. No momento da vida que mais ganhou dinheiro, jogou fora com, segundo ele, mulheres e drogas – e com a família também. Afirma que não entende nada de política. Não tem patrimônio.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Palmada, câncer e gangrena

          A palmada agora está proibida. Pai algum sairá impune, no Brasil, se ousar tocar com a mão no filho. É lei, amizade. E lei, você sabe como é, não é? Só não cumpre quem é fraco da cabeça, ou rico o suficiente para passar por cima dela. A grande parte da população verde e amarela se encaixa na turma que precisará obedecer a nova legislada. Eu, acredite, sou totalmente favorável à medida. Que papo é esse de pai bater em filho? Toda criança, desde que dá a primeira chorada neste torrão, tem a capacidade de analisar as próprias atitudes. E se erra, o problema é dela. Pai não existe para corrigir filho. É preciso que fique claro. No tempo que fusca era carro de luxo, até que vá lá, mas as coisas mudaram. A situação foi invertida, conterrâneo. Agora é o filho quem manda no pai. Durma com esse barulho.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vou virar bandido; porque agora eu sou apenas um viciado!

Entrevista com um viciado em crack encaminhado ao presídio de São Pedro de Alcântara (grande Florianópolis) depois de ter ficado três meses preso na Central de Polícia da Capital.

1-Por que você foi preso?
Eu fui pego com 12 pedras de crak.

2-Você, então, é traficante?
Não eu sou usuário; as pedras eram para consumo próprio.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A erva e o porre

Droga se não fosse tão nociva não teria esse nome
Fruto da morte em papel de seda a fim de iludir o homem
Prometendo uma viagem para um mundo abstrato
Onde tudo é permitido
Onde quimera é fato.

Na realidade essa viagem
É uma volta pro passado
Onde você vai ser vendido
Numa arena como escravo
Escravo sim, escravo do vício
Escravo sim, escravo do vício.

Tanta gente vivendo iludida
Não sabe o risco que corre
Degrada a alma e corrompe o homem
Tanto a erva como o porre
Quando passa o efeito
A realidade aí está
Tua fulga foi frustrada
E o pesadelo volta já.

Na realidade essa viagem
É uma volta pro passado
Onde você vai ser vendido
Numa arena como escravo
Escravo sim, escravo do vício
Escravo sim, escravo do vício.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nem tudo que reluz é ouro

         Olha o título da matéria que li, há pouco, no clicrbs: “Maconha é encontrada dentro de papel higiênico no Presídio de Blumenau”. Como dizia o narrador de futebol, Sílvio Luiz: “pelas barbas do profeta”. Isso é o que eu chamo de incrível. Merece, realmente, um título. Um supertítulo, eu diria. O autor da chamada procura atrair a atenção do leitor com algo que deveria, eu disse deveria, ser interessante. Uma nova maneira de traficar, algo inusitado, que o leitor não sabia que existe. Entretanto, lendo a matéria completa, constatei o óbvio.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Morro do Mocotó, falta lazer, sobra pó



          Trinta e oito minutos jogados no segundo tempo de partida. O placar do estádio Orlando Scarpelli aponta: Figueirense dois, Marcílio Dias um. De repente o lateral esquerdo do Marinheiro – apelido carinhoso do Marcilio Dias - arranca em diagonal pela entrada da área do Figueira e solta uma patada certeira. É o gol de empate. O nome do lateral: Eli Lopes. Quando foi esse jogo? Em 1977 e foi válido pelo campeonato catarinense. Agora, adiantemos o relógio do tempo. São 14h do dia quatro de novembro de 2009. Estou no Morro do Mocotó, mais precisamente no lugar chamado de Boca do Vento, na região central de Florianópolis. É onde mora o ex-jogador de futebol. Eli está com 60 anos. O que faz? Entre outras coisas é presidente do conselho comunitário do Morro do Mocotó.