Você pagaria, meu brother, para ouvir uma palestra em que quatro ou cinco homens pregassem escancaradamente que cocaína e outras drogas do gênero deixam a vida mais divertida? Você pagaria para ouvir norte-americanos ridicularizando outros países? Você pagaria para ouvir que nações consideradas pobres, como a Tailândia, por exemplo, precisam de um estadunidense para torná-las mais ordeiras? Você pagaria para ver conterrâneos de George Bush zombando de religiosos budistas? Você pagaria para ver - e daria risada ainda por cima – gente civilizada exibindo um macaco fumante? E se esse mesmo macaco fosse um aviãozinho do tráfico, você aplaudiria? Você pagaria para ouvir um punhado de ianques alardeando que esbórnia, quebra-quebra e desrespeito a outras culturas é uma coisa engraçada? Não?! Pois eu paguei.
Meio a contragosto, mas paguei. Não só eu, como milhares de pessoas em todo o mundo. E nesse aspecto, louvemos os norte-americanos. Os caras conseguem rir da cara - os caras rindo da cara é horrível - dos não-norte-americanos e ainda os fazem pagar pelos gracejos. E fazem isso no formato filme. Se beber, não case! 2 é uma dessas películas que lotam as bilheterias dos cinemas. Não me tenha por puritano ou algo semelhante. Muito menos como um taciturno incapaz de gargalhar. O filme é uma apologia às drogas, sim. E o faz isso sob a máscara da comédia. Claro que um parvo vai dizer que euzinho aqui não entendeu o “espírito da coisa”. Vai procurar um marido, respondo a esse filhote de demência. Tem mais:
No filme, um velho monge budista é sacaneado por turistas estadunidenses em plena Bangkok. A capital tailandesa é mostrada como se fosse um antro onde se aninha tudo o que não presta no mundo. É aquela mania que alguns países têm de se acharem o umbigo do mundo e que o resto, ao pé da letra, é puro resto. A bebedeira é mostrada como algo engraçado, inocente e para ser aceita como tempero da vida. A cocaína é retratada como um ingrediente saboroso capaz de deixar o usuário mais descontraído e menos chato. Lógico que vai ter um discípulo de lúcifer me mandando email e me chamando de otário, quadrado, antiquado. “Não sabe nem ver um filme, babaca”, dirá o celerado. O fato é que tenho mais de um neurônio. E são suficientes para me fazerem ver o que está por trás – e até pela frente – de uma película como a que me refiro.
Paguei, paguei para rir da desgraça. Paguei para rir do grotesco, do bizarro, da incultura. E agora, meu Deus do céu? O que fazer para redimir minha pobre alma? Também não é para tanto, Gile. Já estás arrependido. Chegaste até a escrever esta crônica purgatória. Oxalá Palocci fizesse o mesmo. E que igual fizesse FHC, Sarney, Gilmar Mendes e outros artistas tupiniquins. Na comédia chamada Brasil, o choro das crianças famintas, a morte por descaso na segurança pública e a corrupção endêmica roubariam a cena. Mas ai, em se tratando de roubo, a disputa por melhor ator seria acirrada.