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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Avaí derrota educação na noite de Floripa

– Figueira filho da (…). – Gritou o fanático torcedor azul e branco. - Figueira, a quem ele se refere, é o torcedor do Figueirense, arquirrival do Avaí.

– Vai tomar (…), Avaí de (…). – Respondeu o rapaz do apartamento ao lado.

– É Avaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaí, cara&^%$#*. – Esgoelou-se outro adorador do time que acabava de fazer o terceiro gol no São Paulo.

– Vai pra (...), seu (...). Secador duma (...). – Alguém fez coro às belas vozes que se apresentavam pelas sacadas dos prédios na noite de quarta feira.

– Cala a boca aí, seu (...). – Mandou um camarada de mais idade. Pela voz, não tinha menos do que 60 anos. Podia ter dormido sem escutar:

– Vai dormir, velho, gaúcho de merda. Tu nem é manezinho (apelido dado ao nativo da ilha de Santa Catarina), po*&%$. Te manda daqui. Sai da minha área seu (...). – E as expressões racistas, contra os gaúchos, principalmente, ecoaram por uma das regiões ditas mais “nobres” de Florianópolis.

     Cada um que ia até a sacada, ou à janela, do apartamento onde se empoleira, gritava como quem acaba de perder a mãe vítima de uma facada no peito. A noite da orla marítima de Floripa esfacelou-se em palavrões que o menorzinho tinha três metros de altura. Graças ao meu bom Deus, nenhum grito feminino foi ouvido. Pelo menos nessa fossa transbordante elas não colocaram seus delicados pezinhos. O desfile de vozes era todo masculino. O Avaí precisava vencer o São Paulo com, pelo menos, dois gols de diferença para se classificar para as semifinais da Copa do Brasil. E realizou a façanha. Como quem anda de montanha russa pela primeira vez, os torcedores do time do Guga não conseguiam conter a própria boca. E nesses momentos, paisano, o espírito do homem transborda e o excesso procura um orifício para ganhar a liberdade. Acha-a pelas cordas vocais. As cadeias que aprisionam as idéias, vontades e desejos se soltam. Liberamos os bichos que moram dentro de nós: preconceito, ódio, desejo de matar...
 
     E quem não tem nada a ver com a pocilga, não consegue fechar as narinas por mais de um minuto. Os tampões nos escutadores de boleros mostram-se ineficientes e as cavidades auriculares dobram-se à torpeza de homens que, àquela hora da noite, bem poderiam estar procurando um marido, uma louça pra lavar ou um pai que a mãe deixou numa zona qualquer. E ainda se acham educados, os tais senhores. No outro dia, como se nada tivesse acontecido, vestem-se com roupas de grifes, perfumam-se e entram em seus possantes. A alma, essa companheira invisível aos olhos de muitos, acompanha-os cabisbaixa. Enrolada em uma túnica escura, com uma echarpe da cor do urubu e descalça, cheira a cadáver de quinze dias. Observo-os, matéria e alma, e as ânsias de vômito me invadem. Com o adiantar das horas, vou me restabelecendo.

Até o próximo jogo.















terça-feira, 5 de abril de 2011

Arnaldo Jabor, irônico ou cínico?

     Fiquei tempos com Pornopolítica esticado na minha estante. Confesso que comprei o livro por impulso. Não gostei do título. Muito menos da capa. E um livro, meu chapa, não basta ser bom. Tem que seduzir, ter uma boa aparência e ser novo. Se não for assim, dificilmente compro. Cada vez que olhava aquela frente retratando Vênus, Sátiro e Cupido, desistia da leitura. Até que, nesse fim de semana, estava no sítio e terminei de ler uma aventura de um motociclista que saiu de São Paulo e foi até o Alasca. Ao concluir, busquei alguma coisa recém-comprada e não encontrei nadica de nadica. Restou-me a risada medonha de Sátiro.

     Mal comecei a ler, ainda na página dezessete, Arnaldo Jabor desafinou: “Vejam os bilhões de imbecis com o rabo para cima rezando todo dia para um ser que não existe”. Senti-me traído por mim mesmo. E essa, paisano, é a pior de todas as traições. É quando teu ser interior rompe com tuas ideias e te leva a cometer insensatez que jamais concordarias que fosse feita. Bem que eu não queria comprar, bem que eu não queria ler. A declaração do cineasta retratou, como se tivesse sido cunhada com essa intenção, a capa da obra. Arnaldo Jabor, meu filho, pede pra sair. É porque eu não sou, mas se eu fosse mulçumano gritaria: “Imbecil é você, Jabor. O que um burguesinho carioca como você sabe sobre o mundo islâmico? Um babaca que pegou carona em Nelson Rodrigues – é isso que você é - deveria escovar os dentes antes de falar de religiosidade. Um ateu desgraçado como você, Jabor, que adora ironizar, mas não sabe a diferença entre ironia e cinismo, deveria ler um, pelo menos um, livro sobre os mulçumanos”. Não sou mulçumano, por isso continuei o livro. Porém...

     “São recrutinhas fracos, com capacetes frouxos e cara de nordestinos analfabetos”. Espera aí, Jabor, agora você se passou. E só não te mando à PQP porque sou um cara educado. Fosse eu um desbocado diria: “Vai à &^%^)(&@, seu %$#@*&”. Só não toquei fogo naquela porcaria porque quero ter a prova do quão abjeto, infecto e purulento pode ser um homem que se acha inteligente. Dá uma de Doca Street, Jabor, e escreve um Mea Culpa. ah, não toquei fogo, também, porque sei que escrever um livro, por pior que ele seja, dá trabalho. E esse empenho não pode ser desprezado. Nem por mim, nem por mais ninguém.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Preconceito, não aceite

Para quem acha que o preconceito é coisa bacana, eis um belíssimo exemplo do que ele pode fazer com um ser humano.

"Os escravos foram alçados ao mesmo nível dos cristãos, o que é contrário aos desígnios divinos e à ordem da natureza, que dividiu as raças de acordo com a cor da pele. Para qualquer cristão honesto, aquilo equivalia a ser posto de joelhos e ter os braços presos por correntes". Sabe quem escreveu a frase acima? Anna Steenkamp. Em que ano? 1838.

"Num determinado momento, surgiu na tela um homem branco que se aproximou de um negro e estendeu-lhe a mão. O filme estava sendo exibido na Universidade Orange, exclusiva para estudantes brancos. Entre vaias e gritos de protestos, todos os estudantes se levantaram e saíram da sala. A projeção foi interrompida. Será que a nossa censura não poderia ser mais atenta, evitando que cenas tão infames fossem exibidas em telas de cinemas?". Sabe quem escreveu essa besteira? Um leitor do  jornal Die Burger.

"Primeiro, deitaram-me numa maca de aço, ligaram a corrente elétrica e eu comecei a me contorcer em convulsões. Atiraram água gelada em mim, para que eu recuperasse a consciência. Depois, dois policiais penduraram-me no teto, de cabeça para baixo, e dois outros se puseram a chutar a minha cabeça, como se ela fosse uma bola. Não sei o que se passou em seguida". De quem é esse depoimento? De Sikave Mashiklehele, no processo de trinta africanos em Krosdorpo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dica de filme

Que tal aproveitar o fim de semana para assistir a um filme bom? Minha dica é: Uma onda no ar.

          O filme Uma onda no ar é a história da Rádio Favela. E quando digo que é uma história, me refiro àquelas narrações para serem contadas de geração a geração. O filme conta o sonho, o drama e a vitória de quatro amigos que idealizaram a criação da Rádio Favela, uma rádio comunitária de Belo Horizonte/MG. A ideia da rádio surgiu da necessidade que os jovens amigos sentiram de levar a voz dos moradores locais ao rádio. Inconformados com as transmissões radiofônicas que excluíam os pobres do morros, os rapazes perceberam que a linguagem, a temática e as músicas veiculadas pelas emissoras não comunicavam a realidade dos marginalizados pela sociedade.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Negrinha chata

         Apenas quero corrigir a frase preconceituosa da futura jornalista, que citei ontem. Conversei com pessoas que me garantiram que a moça disse o seguinte:

"Tem aquela negrinha chata do Fantástico". Referindo-se a Glória Maria, que apresentou o programa por quase dez anos.

         Segundo um amigo da estudante, que estava ao lado dela na hora do coice, ele não esperava tal atitude, tendo em vista que ela “mal abre a boca”. Daí podemos perceber o preconceito reinante no coração da catarinense. O assunto tocou tanto a jovem que ela explodiu, vomitou o que sobejava em seu interior. E o que é pior: teve apoio de muitos colegas. E vem gente dizer que o preconceito contra os negros é coisa do passado. Negativo, paisano. Ele existe, mas é velado. É dissimulado. É disfarçado. Devemos calar diante de tais posturas? Devemos permitir que grupos marginalizados continuem sob a bota dos dominadores?

terça-feira, 25 de maio de 2010

Aquela negra?

         Aconteceu em uma sala de aula do curso de jornalismo. Onde? Aqui em Florianópolis. O professor exibiu o filme “Uma onda no ar”, que conta a história de quatro amigos dispostos a criar uma rádio. Tem um problema: eles moram na favela e querem uma rádio para levar aos ouvintes a voz da comunidade. Surge assim a Rádio Favela. A ideia do professor era promover uma discussão sobre os problemas sociais refletidos no filme. Mas alguns alunos demonstraram total desconhecimento do assunto. Quando o professor disse que a televisão brasileira limita, e muito, o espaço destinado ao negro, uma futura jornalista saiu-se com esta:

- No Fantástico tinha aquela negra.

         Mas a forma que a moça falou foi de total desprezo com Glória Maria. O riso foi geral. Não havia um negro sequer na sala.

         Um aluno presente questionou o preconceito da estudante. Perguntou se ela admitia que tal declaração fosse filmada. Lamentável saber que os futuros jornalistas são incapazes de fazer uma leitura mais aprofundada dos desequilíbrios sociais da nação. Lamentável saber que esses moços e moças tenham uma visão tão medíocre das distorções sociais que presenciamos. Lamentável.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bateu, levou

          Domingo à tarde estou voltando para Florianópolis. De carro, venho pela BR-282. Na localidade de Santa Cruz da Figueira, município de Águas Mornas, resolvo abastecer o veículo e estaciono no posto de combustível às margens da rodovia. Após ser atendido pelo frentista dirijo-me ao escritório do estabelecimento para pagar a conta. Enquanto espero a minha vez de ser atendido pelo caixa, observo o cliente que está efetuando um pagamento. O homem tem aproximadamente 1,80m, uns 100 kg. Os cabelos são rareados e um pouco grisalhos. O bigode é farto e o semblante é taciturno. Um cigarro pende do canto da boca, aceso, diga-se de passagem. Apesar do ambiente servir, também, de restaurante, o cidadão pouco se importa se as baforadas estão incomodando alguém.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Farinha pouca, meu pirão primeiro

          Quero parabenizar dom Dimas Lara Barbosa. O cara merece. Permita-me, leitor, chamar dom Dimas de cara. Até porque ele é ninguém menos que o secretário-geral da Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB). Perfumarias à parte, o religioso caneteou o abaixo-assinado dos bispos contra a restrição à exibição de símbolos religiosos, presente no 3º Programa de Direitos Humanos. Justificando a posição assumida o clérigo ponderou: “Há um secularismo danoso que quer apagar a religião da vida das pessoas”. Que legal a atitude do sacerdote. Evidente que um homem letrado e inteligente, como ele é, não acha que o termo religião limita-se ao catolicismo; ou acha? Não; teria que ser muito ignaro, e isso ele não é. Ou teria, também, que ser muito sectário; claro que o batinado também não é. Ou, em última instância, ser preconceituoso; duvido que ele seja.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Denúncias de preconceito em Florianópolis


          Colhi o depoimento de quatro pessoas sobre o preconceito.  Elas são de  estados diferentes e contam suas experiências a respeito. Jonathan, paraense; Cristini, catarinense; Carlos, pernambucano; e Alves, natalense.  Será que o preconceito é real? Ou fruto de delírios provocados pela inanição!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Jorge Bornhausen e a vaca – Desdobramentos

Todo gaúcho é gay?

           Todo gaúcho é gay? Todo índio é sujo? Todo sem-terra é baderneiro? Todo estudante de Comunicação Social é maconheiro? Todo catarinense é preconceituoso? Todo brasiliense é corrupto? Todo carioca é malandro? Todo baiano é preguiçoso? Todo político é ladrão? Todo cabeleireiro é bicha? Todo paulista é antipático? Todo nordestino é preguiçoso? Todo...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nacirema

E aí, beleza?


Sexta é dia de poesia, então, senta que lá vai ela.

Só uma dica: você pode começar de trás pra frente, se quiser.





Nacirema

Somos todos Nacirema, pai, filho, mãe e irmão
Somos todos muito estranhos, uma raça, uma cor, uma nação
Somos todos fotocópias num colorido fugaz
Somos todos em branco e preto, um filme anoso demais.

Nosso corpo é nosso tudo
Nosso externo o conteúdo
Nossa face é nosso ouro
Nossa aparência um tesouro.

Ao acordar nos ajoelhamos diante de um altar
E oferecemos presentes ao deus que dentro de nós há
Acreditamos piamente que a casca é a essência do ovo
E que na beleza consiste a grandeza de um povo.

Acho que, talvez, por isso repudiamos o ET
Pintamo-lo num ser quasímodo que até dá receio ver
Em nossa aldeia narcisa o esquisito está banido
E vivemos como se fosse-mos o único burgo escolhido.

Um olho mais perspicaz verá por entre as brumas da estética
Que o robô vale muito na cultura cibernética
Um quadril e dois seios grandes fazem a mulher ideal
Mas isso, digo de certo, é uma verdade cultural.

Alteridade, etnia e endoculturação
Comportamento desviante, interetnicidade e lógica de uma nação
Determinismo biológico, relativismo cultural e outros mais
São conceitos antropológicos que precisamos aprender e não esquecer mais.

PS: Nacirema é American, ao contrário.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Jorge Bornhausen e a vaca

E aí, beleza?
 
Outro dia um nobre senhor me indagou:
- Conheces o Jorge Bornhausen?
Ignorei.

Depois perguntei para um amigo meu, que estava ao lado:
- Você tem algum animal?
- Tenho; uma vaca. Respondeu.
- Pois então, prefiro conhecer a ruminante do que ter amizade com o Jorge.