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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Você tem razão

     O idoso reverendo está na sala dele conversando com um discípulo mais novo. Eis que entra um homem, que vamos chamar de Barnabé, e reclama de um colega. O ancião escuta a tudo com paciência e balbucia num misto de resposta e pergunta:

- Sabe que você tem razão!?

     Mal o reclamão sai, entra o, digamos assim, reclamado. Também insatisfeito, Aristeu se diz vítima de Barnabé e chora suas pitangas. Pensativo, de ouvidos a posto e boca fechada para nao atrapalhar a mente, o ancião dá seu parecer, fruto de anos refletindo sobre a vida.

- Sabe que você tem razão!?

     Quando o chorão sai, é a vez de o discípulo entrar em cena. Após ouvir as ladainhas das duas partes e o posicionamento do reverendo, reclama:

- Mestre, Barnabé entrou aqui e reclamou de Aristeu. O senhor deu razão a ele. Depois Aristeu entrou, reclamou de Barnabé e o senhor também deu razão a ele. Quem dos dois tem razão? O senhor não poderia ter dado razão aos dois. Teria que ter apoiado só um deles. A resposta do Ancião veio na forma de um cicio:

- Sabe que você tem razão!?

     Meu caro, conheci o reverendo da história acima. Já faleceu há duas décadas. Mas deixou marcas de sabedoria que o tempo nunca irá apagar. Jamais esqueci essa que acabei de contar. Quando a ouvi, eu era um adolescente. E como todo adolescente, discordei do ancião, pois a sabedoria, naquela época, era minha companheira diária. Hoje, menos sábio e com mais idade, reverbero as palavras que um dia foram sem sentido para mim. Bom fim de semana.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Velho safado

     - Velho safado, joga bola três vezes por semana e agora vem para a fila de idosos. – Murmurou um cliente na fila da agência bancária.

     O sexagenário, visivelmente contrariado, girou a cabeça em movimento de 180 graus tentando identificar quem fez o desdenhoso comentário. Foi quando o “agressor”, de cabeça baixa, simulando não ter nada a ver com o acontecido, ergueu a fronte. Ambos riram. Eram amigos de longa data. E batem a bolinha deles na AABB de Florianópolis. Ainda vermelho devido ao desconforto criado pela pretensa hostilidade, o aposentado defendeu-se:

     - Tenho direto, né, amigo. E se tenho, uso-o.

     Verdade. Direito todos nós temos. E reconhecemo-lo a quilômetros. O que quase não conseguimos enxergar é o dever. Direito, vemos até quando não é nosso. Dever, ainda que nosso seja, acreditamos que tem outro dono. Pois é.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Memória, pra quê te quero

          Antes de qualquer coisa: é verdade. Um cidadão de 78 anos parou num famoso café da capital catarinense e deu de cara com um amigo de infância. Ficou emocionado. Fazia quase setenta anos que não tinha notícias dele. Se era vivo, se casara, se concluíra o ensino médio, se conseguira terminar um curso superior. O fato é que ele estava lado a lado com o antigo colega. E nesse caso, é antigo mesmo. Enternecido o ancião perguntou: “Então, lembra de mim?”. Surpreso e sem reconhecer, mas não querendo se passar por caduco arriscou: “Claro, é o Paulo”. O outro murchou, entretanto deu uma dica: “Estudamos junto quando crianças, rapaz”. Uma vasculhada na memória e nada. Daí a admitir a diminuição dos neurônios a distância era grande. “Lembro, lembro. É o João”, apostou. Jogada errada, dinheiro perdido. “Não, homem. Você não se lembra de mim”, conformou-se o leitor contumaz e fazedor de palavras cruzadas. E abriu o jogo: “Eu sou Honório, camarada. Estudamos juntos no primário, lembra agora?”. Cheio de ternura o esquecido admirou-se: “Honório, homem de Deus, você não mudou nada”.

Pois é.

terça-feira, 20 de julho de 2010

As mocréias de Copacabana

          Domingo à noite eu, enquanto mudava de um canal para outro, parei para assistir algumas vídeocassetadas. De repente apareceu um vídeo com duas senhoras que tinham, no mínimo, setenta anos cada. Elas estavam na beira da praia, tentando se equilibrar sobre uma espécie de caiaque. Um instrutor segurava a embarcação enquanto as vovós realizavam a proeza. Não deu outra, caíram. O apresentador do programa fez a cena ser repetida e brincou: “As mocréias de Copacabana”. A platéia foi ao delírio. Uma risada coletiva se fez ouvir. Foi então que percebi o descaso, e até o deboche, com nossos idosos. Lembrei-me de uma fábula contada no livro As intermitências da morte, do recém-falecido escritor português José Saramago. Vou tentar escrevê-la.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Impunidade e falta de vassoura

          Em uma casa moravam, intrusamente, quatro morcegos. Digo, intrusamente, porque os quirópteros residiam na vivenda de humanos. Exatamente, os alados foram chegando à residência de um casal de idosos e, malandramente, foram ficando, ficando, e ficaram. O quarto onde a parelha de sexagenários dormia, e ainda dorme, vale ressaltar, era forrado com gesso. Os demais cômodos do lar, sem forro, tornaram-se o playground do quarteto indesejado. Creia, paisano, não estou te contando uma fábula. Juro por Deus, é tudo a mais pura verdade. Durante o dia os pequenos mamíferos dormiam dependurados nos caibros da habitação. Mal a noite caía, e os notívagos se punham em um verdadeiro frenesi. Saracoteavam de um lado para o outro, davam rasante sobre a cabeça dos senhores e pareciam zombar deles. Ô cambada de hóspedes folgada! Nem sei se devo chamá-los de hóspedes.
          Certo dia um filho do casal veio morar com eles. Quando percebeu que a casa dos pais tinha virado um cabaré de morcegos, ficou indignado. Uma ideia mórbida invadiu o coração do camarada. Armou-se com uma vassoura e deu vazão ao seu extinto justiceiro. A primeira vassourada passou em branco. Os invasores deram uma revoada e voltaram a se alojar no telhado. A segunda vassourada foi letal. Um morcego a menos. Novo bater de asas.  Novo pouso nos caibros. Outra vassourada, outro finado. Calmaria na casa. Os despejados sentiram a força da justiça. Nunca mais voltaram. A vassoura voltou a sua função precípua, varrer o chão. O homem me olhou e disse: “O problema é a impunidade. Quando eles viram que dois tinham morrido, desapareceram”. E agora?, pensei. Será que o cidadão tinha razão? Refleti sobre os diversos crimes que fazem meu país desfalecer moral e economicamente. É, talvez o justiçoso tivesse mesmo razão. Acho que vou comprar uma vassoura.