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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

De D. Pedro I a Rodrigo Floriani

     Em 1882, quando D. Pedro gritou - supostamente, claro - "independência ou morte!", ele não estava montado em um cavalo digno de exposição. Pedro Américo até pintou um pomposo quadro mostrando o imperador a bordo de um exaltado alasão. Bobagem. Pedoca, como diria um nordestino mais íntimo do português filho de D. João, pilotava uma mula baia. Segundo o escritor Laurentino Gomes, "era esta a forma correta de subir a serra do Mar naquela época de caminhos íngremes, enlameados e esburacados".  Rodrigo Floriani tem 25 anos e é criador de mulas no município de Lages, na serra catarinense, e explica porque a mula era o animal ideal: "Ela tem os casco mais encastelados do que o cavalo, aguenta muito mais peso e vive 25 anos tranquilo". Encastelado é um casco mais pontudo, que não sofre tanto impacto quanto o do cavalo. O casco da mula, por isso, firma melhor. 
     Hoje em dia, pouca gente cria mula no Brasil. Na região serrana de Santa Catarina, esse número não passa de dois. Rodrigo é um deles. Ele cria e doma os animais para serem usados, principalmente, no lazer. "O preço de uma mula varia de R$ 2.000 a R$ 15.000", observa. 

Abaixo, fotos de uma tropa que está sendo adestrada:
Rodrigo pondo as mulas em forma

Serrano segurando a mula madrinha - aquela que guia a tropa

Depois da lida, o mate

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Do Haiti para a Argélia

          Outro dia eu estava em uma fila. Não vou dizer onde e nem fazendo o quê. O fato é que tinha uma senhora na minha frente que não parava de falar. De tudo sabia. Era, pelo que percebi, mais sabida do que o ancião de noventa anos retratado por Gabriel Garcia Marquez no livro Memórias de Minhas Putas Tristes. E tava cheia da grana, percebi no blá-blá-blá. Lá pelas tantas a beldade saiu-se com esta:

- O Brasil não tem mais jeito. Vou mandar meu filhos para a Europa. Quero que eles sejam educados lá, não em um país como o nosso.

          Todos prestavam atenção. Foi aí que entrei no papo.

- E para qual país eles vão?

- Para a França. É outro mundo.

         Não sou dos mais ignorantes em história e resolvi instigar a bonitófira.

- Nesse caso seria bom que a senhora mandasse eles antes para o Haiti e depois para a Argélia. Assim ficarão sabendo quem são, de fato, os franceses.

         Ora, falei aquilo porque não suporto esse discurso ultrapassado que alguns provincianos teimam em proferir. O escritor Nelson Rodrigues chamava de complexo de vira-lata. Segundo ele trata-se de uma inferioridade em que o brasileiro se coloca diante do resto do mundo. A mulher ficou sem saber o que dizer, provavelmente por não conhecer patavinas sobre colonização. Emudecida, sacou a mixaria e sumiu.