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sexta-feira, 18 de março de 2011

Entre um despertador, uma buzina e um respirar

     Ontem à noite, eu estava na década de 1970. Calma, calma, a frase tem nexo, sim. Sem querer pedir demais: leia-a de novo, por favor. Please, please. Leia, mais uma vez, a frase inicial e feche os olhos. Não, não é nenhuma magia. Ou... que seja. Não sou, juro por tudo que tens de importante, mágico. Ô, simpatia, você não deveria estar de olhos fechados neste momento? Sei, sei, a pressa te fez pular o “feche os olhos”. Tudo bem, a graaaaaaaaaaande maioria das pessoas vive em alta velocidade. O cara já acorda com o infernal barulho do despertador. Antes de alongar o corpo, como ensinam os gatos, os cachorros ou qualquer outro animal, o cidadão pula da cama e corre para o banheiro. Uma chuveirada de um minuto – para os mais asseados –, um chacoalhar de escova dentro da boca e uma visita ao vaso sanitário. Não necessariamente nessa ordem, diga-se de passagem. Hora de se vestir: “Oh, meu Deus, qual a blusa que devo usar para combinar com a saia”, apavora-se a rainha do lar. O celular grita outra vez; “Tô saindo de casa agora”, informa entre uma respirada e outra. Um cafezinho, um cafezinho. O camarada com maior tendência ao suicídio sai sem botar nada no estômago. Pam, pam, pam. “Tira essa tartaruga da frente, ô, barbeiro. Não vê que tô com pressa, idiota”. Pior para quem não tem carro e precisa se espremer entre desconhecidos do buzão. “Esse desgraçado desse motorista não percebeu que não cabe mais ninguém?”, resmunga.


     Agora, seja sincero, paisano, você acha que uma pessoa num ritmo desses é capaz de fechar os olhos diante de uma frase que leu no blog do Gile? É preciso, saliento, fechar os olhos para enxergar certas belezas. É preciso, reafirmo, com os olhos cerrados, respirar fundo. Só então, coisas como a frase “Ontem à noite, eu estava na década de 1970” vão fazer sentido. Amanhã, direi o que eu estava fazendo ontem à noite na década de 1970. Enquanto isso, respire, respire, respire. Agora respire fundo, o mais fundo que puder. Puxe o ar pelo nariz e solte-o pela boca. Feche os olhos. Se você fechou os olhos, pode ler o post de amanhã. Se não, volte à primeira linha desta crônica. E não seja mal-educado. Nada de xingamento. Ontem à noite, eu estava na década de 1970.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Impunidade e falta de vassoura

          Em uma casa moravam, intrusamente, quatro morcegos. Digo, intrusamente, porque os quirópteros residiam na vivenda de humanos. Exatamente, os alados foram chegando à residência de um casal de idosos e, malandramente, foram ficando, ficando, e ficaram. O quarto onde a parelha de sexagenários dormia, e ainda dorme, vale ressaltar, era forrado com gesso. Os demais cômodos do lar, sem forro, tornaram-se o playground do quarteto indesejado. Creia, paisano, não estou te contando uma fábula. Juro por Deus, é tudo a mais pura verdade. Durante o dia os pequenos mamíferos dormiam dependurados nos caibros da habitação. Mal a noite caía, e os notívagos se punham em um verdadeiro frenesi. Saracoteavam de um lado para o outro, davam rasante sobre a cabeça dos senhores e pareciam zombar deles. Ô cambada de hóspedes folgada! Nem sei se devo chamá-los de hóspedes.
          Certo dia um filho do casal veio morar com eles. Quando percebeu que a casa dos pais tinha virado um cabaré de morcegos, ficou indignado. Uma ideia mórbida invadiu o coração do camarada. Armou-se com uma vassoura e deu vazão ao seu extinto justiceiro. A primeira vassourada passou em branco. Os invasores deram uma revoada e voltaram a se alojar no telhado. A segunda vassourada foi letal. Um morcego a menos. Novo bater de asas.  Novo pouso nos caibros. Outra vassourada, outro finado. Calmaria na casa. Os despejados sentiram a força da justiça. Nunca mais voltaram. A vassoura voltou a sua função precípua, varrer o chão. O homem me olhou e disse: “O problema é a impunidade. Quando eles viram que dois tinham morrido, desapareceram”. E agora?, pensei. Será que o cidadão tinha razão? Refleti sobre os diversos crimes que fazem meu país desfalecer moral e economicamente. É, talvez o justiçoso tivesse mesmo razão. Acho que vou comprar uma vassoura.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

E o pó volte ao pó, como era

          Eles chegam todos de uma vez. A fome os empurra para o cocho. Seus olhares estão atentos à comida. Feno, milho e ração são iguarias desejadíssimas. Os cabrestos e os relhos tiram-lhes qualquer hipótese de buscar alternativa. A disputa por espaço não deixa dúvida queos mais fortes comem mais. Entre cabeçadas, coices e mordidas os animais se entendem. Todos enchem a barriga. E voltam à lida. Puxam arados, carregam toras ou servem de montarias. E os dias vão passando como ponteiros de um relógio suíço. Sem variação, sem emoção, enfadonhos.