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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Árbitro de futebol faz propaganda nazista


     Os Pinochistas estão chegando. Os fascistas, os nazistas e os czaristas também. E acharam o melhor lugar do Brasil para se instalarem - os campos de futebol. Personalizados na figura do árbitro, alvoroçam os gramados do país desde o Rio Grande do Sul até Roraima e chegam rápidos e faceiros aos lares tupiniquins via televisão. Num gestual que lembra os falecidos déspotas, arregalam os olhos, berram nos ouvidos dos atletas e erguem o braço tendo à mão um Yellow Card. Coi-ta-do de quem ousar enfrentá-los. “Ah, mas os jogadores são mal educados e folgados”, dirá um telespectador de visão semelhante à de Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo que nasceu no Crato em 1878 e popularizou-se como poeta. Paisano, o comportamento dos apitadores não se limita aos estádios. Qualquer campinho de várzea tem o seu Pol Pot, aquele cacique cambojano anti-intelectual que tantos patrícios mandou para o andar de cima. E é esse o caroço da questão – o anti-intelectualismo. Ditador que se preze, odeia, odeia conhecimento ou qualquer outra coisa que lembre a simples arte de botar a cabeça para funcionar. Cospe veneno quando é questionado. Xinga a mãe, caso a louca invente de perguntar o que o levou a esse ou aquele dele.

      Os sopradores de apito, na graaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaande maioria, detestam futebol arte, futebol de qualidade, de talento. O jogador habilidoso leva bordoada durante toda uma partida, sai quinhentas vezes de campo para receber atendimento médico e a “otoridade” não está nem aí. Pancadaria faz os olhos de um árbitro nazi-fascista delirar de prazer. Agora se um boleiro, dos campinhos de peladas ao São Januário, tentar entender as imbecilidades de um soprador de apito... Braço estendido para o alto. Cartão para o questionador. Claro que tem jogadores mal educados. Tem, contudo, muita gente capaz de conversar meia hora com a rainha da Inglaterra sem cometer uma mísera gafe. Questionar, esse é o verbo maldito para um Czar do futebol. Perguntou, quis saber, punição nele. E como os apitadores não precisam se explicar após um show de lambanças, saem de cena como se fossem deuses.

      De segunda a domingo tem futebol brasileiro na TV. Os exemplos de autoritarismo invadem nossos lares. Até quando aceitaremos esses discípulos de Mussolini proibindo o diálogo? Que se dane o futebolzinho raquítico que jogamos e vemos os profissionais jogarem. O que me preocupa é a proliferação de atitudes arbitrárias. Isso se propaga pelo ar. Acostumamos-nos com esses mandões e daqui a pouco não questionaremos nem quando disserem que existe político honesto.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eu, um sanguinário High Definition

     Larguei a revista que estava lendo e esparramei meus olhos pela tela da Rede TV. Até dei um pulinho pela Sportv e achei a transmissão melhor, o locutor passava mais emoção. Não era, entretanto, em formato HD – High Definition – e por isso “sartei” de volta para o canal da filósofa Luciana Gimenez. Feito um romano na arquibancada do Coliseu, o Gile aqui esperava ansiosamente que a luta começasse. Um pouco menos bárbaro, não fui à arena. Postei-me em um colchão de tecnologia ultramoderna, ajustei minha luneta de design vanguardista e liberei minha mente pós-medieval.

- Porrada, porrada – gritava meu cérebro, que naquele momento descia a condição de homem das cavernas, só que um pouco mais primitivo. A ânsia de ver sangue jorrando da cara de brutamontes não me permitia desgrudar os olhos do aparelho. E meus instintos mais selvagens afloravam. Minha respiração foi alterada, os batimentos cardíacos dispararam e as pupilas denunciaram meu estado de loucura. Primeira luta da noite: o brasileiro vence por nocaute. O álibi para minha bestialidade tinha nome – nacionalismo. Como um Hitler, que comandou o holocausto por razões patrióticas, eu queria ver o Brasil esmagar os gringos desumanos.

     Lá pelas tantas, o rosto de um demônio estrangeiro – era isso que eu queria enxergar – foi coberto de sangue. A plateia foi ao delírio. O representante tupiniquim socou mais forte. O cinegrafista aproximou a imagem e pude ver gotas de sangue mais do que reais escorrendo pela face do monstro. E minha monstruosidade veio abaixo. Um resquício de civilidade debateu-se em minha mente e disse não. Nos tatames, aprendi que não se agride um adversário quando ele está de costas – é covardia. Aprendi que não se esmurra um oponente quando ele mostra-se incapaz de reagir – é dantesco. E fiquei envergonhado.

     Envergonhado por ter dado audiência à pancadaria. Envergonhado por ter visto um homem desmaiado ser agredido e não ter me indignado. “Faz parte da luta”, diria um discípulo de Calígula. “Não tem nada demais, é um esporte”, argumentaria um filho bastardo de Nero. No dia seguinte, pela manhã, assisti o mundial de judô. Eu e mais uns cinquenta brasileiros. Fiquei pensando: será que no dia em que for organizado um torneio de luta onde o vencedor for aquele que matar o adversário, a audiência quebrará todos os recordes já computados? Pode ser; a transmissão, no entanto, terá que ser Full HD.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Chumbregando e relinchando

     Abrafolar. Coxambrar. Chumbregâncias. Irmanar. E então, sabes o significado dessas quatro palavras? O quê! Vais me dizer que nunca abrafolaste? E se um, ou uma, vivente chegar ao teu ouvidinho esquerdo e sussurrar que intenciona te abrafolar, o que dirás? O que gritarás? Fugirás? Pedirás ajuda aos universitários? Implorarás apoio da cavalaria? Ou abrirás um sorriso de venha? Não adianta pesquisar na internet nem consultar o pai dos burros. Ou sabe ou não sabe. Deixemos o abrafolar de lado e caiamos matando no coxambrar. Coxambrar, com x, tem a ver com cocha, com ch. E aí, pegou? Cocha, coxambrar... hum. Caso tenhas entendido, estás liberado para a arte da coxambração. Se não, procura um cinto de castidade e te pune por uma semana, pelo menos. Nem uma coxambradinha, sequer. Onde já se viu, o cidadão coxambra sem saber que está coxambrando. Vamos em frente.

     Chumbregância, sabes o que é? Digamos que é prima de coxambra. Façamos uso das palavras do juiz de direito da província de Sergipe, Manoel Fernandes dos Santos, que em 15 de outubro de 1883 decretou uma sentença na qual considerava que “o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para coxambrar com ela e fazer chumbregância, coisa que só o marido della competia coxambrar”. O documento arquivado no instituto histórico de Alagoas é rico em termos que há muito caíram em desuso. Abrafolar, coxambrar e chumbregância são alguns exemplos ali contidos. Irmanar, entretanto, não consta na sentença judicial.

     Ontem à noite, quando assistia uma reportagem sobre argentinos que moram na fronteira com o Brasil, o repórter superou-se. Traduziu, do espanhol para o português, o termo irmanar. Como se o verbo não fizesse parte da língua consagrada por Saramago. “Ô mermão, para com isso. Das duas uma: ou não conheces nosso vernáculo ou pensas que os telespectadores são incapazes de conjugar o verbo ser”. A dúvida, essa megera, logo invadiu meus pensamentos: a televisão me deixa burro? Ou parte do pressuposto que relincho há décadas?





quinta-feira, 28 de abril de 2011

O jogador que beijou muito

     Não, não sou saudosista. Não superestimo o passado. Não digo que os tempos idos foram melhores do que os atuais. Seria imprudente falar assim. Não recordo apaixonadamente o fato de ter direito a um par de sapatos por ano. E era assim na minha infância. Mas como esquecer o primeiro kichute que ganhei? No início dos anos 1970, esse calçado fez sucesso no Brasil. Era um misto de tênis e chuteira. E a meninada adorava. Imagine só: a gurizada, ao mesmo tempo em que ia estudar, estava prontinha para uma partida de futebol. E isso, depois da conquista do tricampeonato de futebol pela Seleção Brasileira no México, foi como mel na chupeta. A Alpargatas, fabricante da marca, chegou a vender 9.000.000 de pares em determinado ano. O pirralho que não tivesse um, não era gente. Quando fui presenteado com um, foi a glória. É legal lembrar-se disso, mas é um tempo que se foi. E o prazer de ganhar um kichute não supera, nunca, a dificuldade pela qual passávamos. Hoje, tudo é mais fácil. As diversas marcas de tênis desfilam nos pés da macacada como se fossem chuchu na serra. O passado uso como lição, como aprendizado, como escola. Por isso não sou saudosista. Até prefiro os dias atuais. É, mas tem umas coisas da chamada modernidade que não entram na minha cachola.

     O futebol, por exemplo. Já contei, em outras crônicas, que o rádio de pilhas fez meu imaginário ganhar ares de Spielberg. Com o passar do tempo e o advento da televisão, as partidas futebolísticas tornaram-se produto comercial. E nada mais que isso. E como tudo que envolve dinheiro merece, no mínimo, ser questionado, desiludi-me com o esporte bretão. Continuo gostando do danado, mas não acredito nem um pouco em sua lisura. Até que é aceitável o fato da modalidade ter virado comércio, pois o mundo é puro comércio. O nascimento é um comércio, viver um comércio, o casamento é um comércio, e até a morte – por incrível que pareça – é puro comércio. Tem coisas, entretanto que passam dos limites.

     Ontem, assisti 15 minutos do jogo entre Real Madri e Barcelona. O futebol jogado pelas duas equipes era infinitamente pior do que o das peladas que participo na AABB de Floripa. O problema é que, além do péssimo futebol, o telespectador ainda tem que ouvir asneiras de pseudos-jornalistas. Em determinado momento, ao se referir a um atleta do Barcelona, o narrador esbaldou-se: “Ele beijou muito na boca nesse final de semana”. O ignorante profissional nem ao menos sabe a sutil diferença entre fim e final. E é fácil: só tem final quem tem inicial; quem tem início tem fim, não final. Assim sendo o tal jogador, caso tenha beijado muito, o fez no fim de semana, nunca no final. Língua portuguesa à parte, mas continuando em matéria de língua, o que eu tenho a ver com os beijos de um peladeiro? Será que o tal narrador pensa que disse alguma coisa importante e que tenha a ver com o futebol? Ou o cara é viciado em novela, apesar dele não ser da Globo? Aí não tem jeito, paisano, “que saudade do meu rádio de pilhas”.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Um busto às cusparadas

     Que um mau repórter merece uma boa lição, ah, isso merece. E quem pode dar a tal lição, senão o público? Isso mesmo, basta você, xará, não ler, não ouvir e nem assistir a idiotização do jornalismo. Sem audiência não há repórter que resista. Vale salientar que eu chamo de repórter aquele indivíduo que fez uma faculdade, que investiu horas em estudo e que se preparou para o mercado de trabalho. Não vale comentarista de futebol e outras coisas do gênero que não sabem conjugar o verbo ser. Mas não é assim que pensam os donos dos veículos de comunicação. Depois que o STF cassou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, a mão de obra no setor ficou mais barata e menos qualificada. Daí a cuspir na cara de um profissional de imprensa, por pior que ele seja, não cabe a um entrevistado.

     E foi o que ocorreu com um rapaz da televisão. Quando foi perguntar bobagem a uma celebridade – sim, ator da Globo é celebridade – levou uma cusparada. Pense, amizade, numa combinação horrorosa: repórter que se acha celebridade e ator que tem certeza que é uma. Quem leva a pior, quem? E o que pode acontecer? Nada. Levou a cusparada? O remédio é procurar a torneira mais próxima e lavar o rosto para ficar experto. Um ator de televisão, principalmente de novela, é um semideus no Olimpo das telinhas brasileiras. Sendo assim, pode fazer o que bem quer e com quem bem entenda. No Brasil, a televisão venceu a disputa contra os livros antes mesmo de o primeiro aparelho de TV ser construído. Lembra da vinda da família real portuguesa para cá? Pois então, os livros da Real Biblioteca de Portugal não vieram. Ficaram no cais do porto esperando uma chance. A preferência nos navios foi dada aos cortesãos. Os livros até que vieram, mas demorou. Quando a televisão surgiu, adeus livros.

     Conheço autor que tem mais de uma dezena de livros publicados. Quando ele caminha nas ruas das cidades, passa despercebido. Aí vem um fedelho que não soma nada de bom para a sociedade e por onde passa tem um ignorante se curvando para homenageá-lo. Ei, assim não dá. Um povo que não valoriza o conhecimento tem que erguer bustos para honrar as lhamas da televisão. Sabe as lamas?, aquele animal que adora cuspir? Então! Podemos, inclusive, criar o dia nacional da cusparada. Nesse dia, a população fará caminhadas pelas ruas das metrópoles enquanto os atores e atrizes farão sobrevôos cuspindo a tudo e a todos. Já imaginaram, meu caros, o momento de glória para os amantes das novelas? “Ah, menina, sabe quem me deu uma cuspida bem no olho? Gianechini.”


quinta-feira, 24 de março de 2011

Hoje tem futebol? Tem sim, senhor

     Vamos poupar o tempo de quem não gosta de futebol. Sim, porque esta crônica será sobre o esporte que tem o Ganso como nome supremo. E se você acha que Ganso é coisa de jogo do bicho, tchau, nos encontraremos amanhã. Se você pensa que entende de bola, e não concorda que o camisa 10 do Santos é o melhor do mundo, lamento, és um sem visão. O paraense é, pelo menos, 14 vezes superior ao Messi. Espera, as próximas três copas tratarão de provar minha sapiência futebolística. Sem bolodórios, vamos ao que interessa. Quarta-feira é dia de bola na rede. Tudo bem que as principais partidas começam quase a meia-noite, mas fazer o quê, são coisas da televisão.

 
     O Fluminense precisava vencer o América do México para continuar vivo na Libertadores. O Paulista era a pedra no meio do caminho de Rogério Ceni. E o Concórdia, hem, desesperado para não ser rebaixado, estava sedento de vitória. Mas o Figueirense fez logo um a zero com um golaço de Reinaldo, aquele mesmo que jogou no Botafogo. E o Fluzão, meu deus do céu, que papelão. “Ora, ora, Digão, que bobeira né?” O goleiro são-paulino deu rebote e teve que buscar a bola no fundo da rede. O Concórdia tratou de virar o jogo ainda no primeiro tempo. A torcida do oeste foi ao delírio com o segundo gol do time. By, by, Figueira, deu pra ti.

 
     O Fluminense contou com a ajuda dos Bandeiras para não ser humilhado. Contou também com o talento de Deco. O São Paulo buscava o empate, o América se defendia e o Figueirense estrebuchava. Rogério Ceni não estava nas melhores noites e o Figueirense foi derrotado. Mesmo com a fraca atuação de Conca, o Paulista ganhou. 502, 510 e 512. Os canais se alternavam e os placares borbulhavam. Já era quase quinta-feira, quando a rodada teve fim. O Fluminense provou que mesmo com Digão na zaga, pode vencer. E cá pra nós, o pé frio era mesmo o Murici. Já o Figueira de Jorginho, que fiasco. Futebol na televisão é isso.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Cobertura da TV, uma lástima

          Um palhaço fazendo graça no semáforo. Um dublê de filmes de ação. Um Cléber Bam-Bam, musculoso e com dificuldade em conjugar verbos, repetindo: “Faz parte”. Um trapezista de circo. Um domador de leões. Um lutador de luta livre em ação. Um mineiro chileno mostrado ao vivo para o mundo todo via televisão e internet. O que eles têm em comum? Todos são parte do espetáculo. Exceto o mineiro chileno. Ele é o próprio espetáculo. Não é preciso de mais nada, além dele, para que se faça o show. Com uma pequena diferença: todos os outros ganham para assumir os papéis. O sul-americano em destaque, não. Pobre está, pobre ficará. Para ser sincero, acho que ficara em maior penúria depois da festa. Dentro de poucos dias as câmeras mudarão de lugar. Repórteres buscarão novos atrativos. E o mineiro, coitado, terá que arcar com as conseqüências dos 68 dias debaixo da terra.

          Hoje cedo, liguei a televisão e vi o sensacionalismo que se fazia com o resgate dos mineiros que estavam 700 metros abaixo da superfície. Não se falou em outra coisa durante todo o jornal. Notícia barata, audiência garantida. Na superfície. Todos queriam mostrar o resgate. Não; todos queriam ser vistos mostrando o resgate. Milhares de equipes de televisão de todo o mundo estão lucrando com o caso dos mineiros. Políticos aproveitam para buscar promoção. E quando o assunto for esquecido? Os operários dos subterrâneos terão condições psicológicas para enfrentar o trabalho outra vez? Ouvi um dizer que nunca mais entraria em uma mina. Vai fazer o que da vida? Morrer de fome? Pedir esmolas? Roubar? Virar assaltante de banco, odiado pela sociedade que hoje o aplaude? O que será do amanhã desses chilenos?

          Será que as emissoras de televisão vão criar um fundo onde depositarão parte dos seus lucros com o episódio, para depois premiar os participantes do maior “big brother” de todos os tempos? As reportagens que vi, todas, diga-se de passagem, ficaram na superfície do problema. Nenhuma desceu os 700 metros da questão. Ora, ora, um político prometer apoio psicológico às vítimas é um simples abrir de boca e emissões de palavrórios vazios. Uma lástima a cobertura da TV.

terça-feira, 20 de julho de 2010

As mocréias de Copacabana

          Domingo à noite eu, enquanto mudava de um canal para outro, parei para assistir algumas vídeocassetadas. De repente apareceu um vídeo com duas senhoras que tinham, no mínimo, setenta anos cada. Elas estavam na beira da praia, tentando se equilibrar sobre uma espécie de caiaque. Um instrutor segurava a embarcação enquanto as vovós realizavam a proeza. Não deu outra, caíram. O apresentador do programa fez a cena ser repetida e brincou: “As mocréias de Copacabana”. A platéia foi ao delírio. Uma risada coletiva se fez ouvir. Foi então que percebi o descaso, e até o deboche, com nossos idosos. Lembrei-me de uma fábula contada no livro As intermitências da morte, do recém-falecido escritor português José Saramago. Vou tentar escrevê-la.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sou brasileiro, sou babaca

          Ainda que a CBF seja uma caixa preta e seu cofre seja um incógnito, continuo comprando televisão nova a cada copa do mundo para ver os jogos da Seleção.

          Ainda que o legislativo aumente o próprio salário de forma abusiva, e quebre o erário, creio em nossos homens públicos.

          Ainda que traficantes continuem liderando quadrilhas de dentro do presídio, creio que nosso sistema penitenciário é um exemplo de eficiência.

          Ainda que detentos continuem fugindo por túneis cavados sem que os agentes penitenciários percebam a movimentação deles, creio que tais agentes nunca são subornados.

          Ainda que os presidenciáveis não apresentem um projeto de combate à corrupção, mesmo assim votarei em um deles na próxima eleição.

          Ainda que as verbas para educação sejam desviadas por esquemas fraudulentos feitos entre políticos e empresários, creio que teremos, em breve, o melhor ensino da via láctea.

          Ainda que magistrados vendam sentenças e condenem inocentes, admiro-os pela inteligência e desenvoltura no desenvolvimento de tão nobre missão.

          Ainda que Sabrina Sato seja considerada uma jornalista, assim como Neto (Band) e Caio (Globo), temos os melhores profissionais de imprensa do planeta.

          Ainda que o Padre Fábio seja considerado escritor, e venda livro aos milhares, creio na qualidade das publicações tupiniquins.

          Ainda que sacerdotes estejam atolados até o pescoço em crimes de pedofilia, estelionato e falsidade ideológica, continuo apaixonado por esse tipo de cristianismo. Que, venhamos e convenhamos, é muito mais atrativo do que o ensinado pelo aprendiz Jesus Cristo.

          Ainda que os veículos de comunicação não noticiem crimes praticados por seus donos, amigos e asseclas, creio piamente na imparcialidade jornalística.

          Ainda que médicos formem quadrilhas para surrupiar pacientes, continuo achando que isso é intriga de quem não estudou para ser “doutor”.

          Ainda que nossa telefonia seja um pouco melhor que uma chanha, sei que a culpa é do usuário que quer pagar pouco e falar muito.

          Ainda que tenhamos que pagar impostos altíssimos para sustentar o luxo de políticos, acredito que precisamos trabalhar mais, até porque “o trabalho dignifica o homem”.

          Ainda que o programa Pânico na TV seja líder de audiência, não duvido da qualidade de nossa programação televisiva.

          Ainda que os ricos continuem explorando os pobres, creio que estes se fazem de vítima. Porque o rico trabalha duro para ganhar dinheiro.

          Ainda que minha barriga ronque por falta de comida, minhas forças faltem por falta de saúde, e minha dor se torne insuportável por falta de alternativas, eu não desistirei de lutar. Porque eu sou um parvo, e um parvo não desiste nunca.