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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Vende-se frases pré-moldadas

     Frases soltas. Frases prontas, embaladas, pré-fabricadas. Frases de efeito, como algumas mentes providas de quatro intimoratos neurônios costumam chamar. Frases empacotadas a vácuo. Daquelas que quase não se deterioram com o passar do tempo. Do tipo Hebe Camargo, podemos dizer. Frases para iludir. Frases para disfarçar. Frases para denotar sabedoria. Frases para intimidar. Frases para parecer sério. Frases para menosprezar. Frases para empurrar o próximo no lodaçal. Frases para gargantear “fiz a minha parte”. Frases para serem cuspidas, vomitadas, defecadas. Frases tão cheias de vazio que não seriam suficientes para encher uma cabeça de alfinete. Frases, nada mais.

     Lugar de gente feliz. Essa frase é quase tão comum quanto moléculas de oxigênio. Você entra em uma casa - aconteceu comigo – e ela, a frase, meu caro, te recepciona. Numa igreja, creia, também li a bonitófira. Até mesmo em repartições públicas já encontrei com as quatro palavras. O que me pasma é que na estrada de Brasília não tem a danada da frase. Deveria. Era para ter no terminal rodoferroviário, no aeroporto e nas principais vias da cidade. Sim, porque tudo que é Estado envia seus mais ilustres cidadãos para o Planalto Central. E como eles são felizes ali! O desejo de ir ser feliz no planejado sonho de Juscelino Kubitschek é tão grande que alguns homens públicos fazem diabruras para chegar lá. Uns roubam, outros matam e outros fazem as duas coisas.

     Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono. Essa está na moda. Uma mente lustrosíssima criou a frase, muito boa, por sinal e virou febre. Meu nobre, o carinha devia ter suas razoes. Na certa estava de bem com a vida, ou flertando com a morte. Aí vem um Zé Mané e cola-a no vidro traseiro de um carro mil. Como se diz nos pampas: não me faça pegar nojo. E as frases pré-moldadas se alastram mundo a fora. São pré-cozidas, basta um calorzinho e pronto. É só escolher um ouvido e pronto. Tem gente - e como tem, meu Deus do céu – que adora. E euzinho, cada dia mais sem estômago para ouvir essas preciosidades, fujo. Covardemente corro. Pirata, Bibigul, Gerineldo, estou chegando.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Galinha, cocaína e política

     Um galinheiro, é isso. Dez penosas e um galo. O sítio Três Platôs ganhou, nesse fim de semana, um recanto para aves. Pelas futuras poedeiras – pois tem apenas um mês de vida as dançarinas – paguei quatro reais, cada. Aí um colega meu admirou-se: “Poxa, Gile, quatro reais numa franguinha!? É muito!”. Sinceramente não entendo a atribuição de valores que a sociedade impõe às coisas. Invisto menos de cinco pila em uma ave, ela vai pôr uma média de 15 avos por mês durante cinco anos e, se brincar, no fim da vida servirá de almoço. Foi um mau negócio? Foi caro? Um ovo de caipira não sai por menos de quarenta centavos. Numa conta rápida, em um ano ela renderá 72 reais. Em cinco anos nesse mundo de meu Deus, a bilisquenta presenteará o Gile com 360 moedas de um real. Ou seja, apliquei 40 reais para, em cinco anos, ter 3.600. Só droga e política podem dar lucro maior. Há quem diga que a política é um grande galinheiro, mas acho uma maldade por parte de quem fala uma barbaridade dessas. Como cidadão, apresento veementes protestos contra o tal gracejo. Nunca, eu disse nunca, um vereador me deu uma pataca de retorno. Um deputado, então... E um prefeito? Acho mesmo é que, em se tratando de política, o galinheiro é o país e os criadores os políticos. Ah, quase que eu esquecia de informar: o galo ganhei de um amigo.

     Ainda no campo das comparações, tenho que admitir, a droga rende bem mais do que criar galináceas. Em uma coisa elas se equiparam: no fim, destroem a mina. A galinha acaba na panela, o usuário na cova. Acho até que estão levando muito ao pé da letra o texto bíblico que diz “e o pó volte ao pó”. E há quem ache que droga é coisa de pobre. Verdade; há, sim. Outro dia eu estava mudando de canal, coisa que raríssimos homens gostam de fazer, e dei de cara com um programa de polícia. No televisivo, os gloriosos fardados andavam pelas periferias fedorentas das grandes cidades em busca de usuários de drogas. Curioso, atentei para os dias e horários em que o espetáculo ia ao ar. Não deu outra, os lugares visitados pelos militares são sempre os mesmos – zonas de pobreza. Por que não vão a boates elitizadas? Porque não fazem uma busca em festas de políticos e empresários? Porque não espiam pelas janelas de luxuosas casas de praia? Voltemos ao galinheiro antes que o mau cheiro destrua nossas frágeis narinas.

     O ar puro do sítio, o mugido das vacas e a música da cachoeira, agora com o sonoro despertar do galo, fazem-me esquecer dos políticos malvados, dos traficantes e usuários apodrecidos, das mazelas da urbanidade. Quatro reais uma galinha. Caro?

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Vai um quilo de barriga aí?

     Refrigerante. Três, quatro vezes por dia. Cerveja. Cerveja enquanto a pança agüentar. Pão. Pão com manteiga. Pão com presunto e queijo. Pão com requeijão. Pão doce. Pão salgado. Pão a torto e a direito. Como canta o Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé”. Calma, calma, a gente não quer balé. Nem balé e nem qualquer outro tipo de exercício. Ginástica? Nem pensar. Futebol, caminhada e corrida? Só se for no computador. Aí não tem jeito, paisano, a barriga a lá Tim Maia vai reinar. As pernas com hectares de celulite e alqueires de estrias afugentará interessados olhares. O que fazer, senhoras e senhores? Chame o velho.

     Lembro de uma propaganda de uma rádio do Rio de Janeiro que dizia: “chame o velho, chame o velho que vem coisa boa”. O velho, no caso, era uma bebida. Contra a falta de exercício, contra a bebedeira e contra a glutonaria: chame o SUS. Ora, ora, o sujeito não cuida do próprio corpo e depois quer que o sistema de saúde financie-lhe uma redução do estomago. Quem tem que pagar pela cirurgia, se é que alguém tem que o fazer, é o produtor de refrigerante, de cerveja. Para ser sincero, acho que cabia melhor um bolsa academia. O camarada está fora de forma? Exercício nele. Lógico, simpatia, que não estou me referindo àqueles casos de doença. Ao enfermo, tratamento. Para esse a cirurgia bariátrica pode ser a única saída.

     Agora me vem uma guria de vinte anos e pesando cem quilos pedir para o contribuinte custear sua beleza? Fala sério, jacaré.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

É o boi, é o boi, é o boi

     É corno, sim. E por ser corno tem o meu perdão. E peço gentilmente a vossa senhoria que faça o mesmo. Perdoe o pobre coitado, paisano. Entenda a dor de quem carrega duas pesadas guampas na cachola. Como exigir que ele seja racional? Como esperar que o danado tenha lampejos de lucidez? Não, isso seria como demandar honestidade por parte de quem administra o dinheiro alheio. E aproveito para perguntar: conheces, simpatia, um vivente, nesse torrão descoberto por Cabral, que lida com dinheiro de terceiros e não tira proveito? Diz-me o nome do tinhoso, suplico. Lógico, há empresas que tem todo um sistema de controle pronto para pegar o meliante com a boca no doce. Não me refiro a essas. O que eu duvido, com um d do tamanho do cristo redentor , é que um gestor da grana de outros não se locuplete com tal atividade. Saliento que o fato de não conhecer um não significa que o dito cujo seja irreal. Imploro, diz-me o nome dele. “Ah, Gilead, você está sendo pessimista demais”, dirá o leitor puro. Pessimista pode ser, ingênuo não.
 
     Voltemos ao galhudo. Ele não é mau. Claro que não. Ele sofre, é isso. Os indesejados adereços que a amada lhe presenteou tolhem o raciocínio. Ele só pensa em avançar. E avançando incomoda. Na tentativa de chegar, passa pela direita, pela esquerda e pelo meio – caso haja uma terceira pista. O corno é, antes de tudo, um costureiro. Enfia os chifres na traseira de quem está na frente. Amiúde, arregala os olhos. Grita. Xingam-lhe. Ofendem a mãe dele. A dor da traição não permite-lhe ouvir. Tal qual um touro enfurecido na arena, o torpor provocado pelas estocadas do toureiro – no caso, o sócio de cama – há muito dissiparam-lhe os bons modos ao volante. Acelera. Buzina. Pisca os faróis. Guardas de trânsito, patrulheiros de plantão, não multem esse sofredor. E como essa espécie se prolifera em nossas estradas! Você guarda uma distância segura para o carro da frente; é cuidadoso. Eis que surge o corno, entra na brecha. O trânsito está lento. De repente um bólido avança pelo acostamento, é o boi.
 
     Só um corno, meu chapa. Só quem espera flagrar a mulher em pleno ato de traição pode guiar um carro desse jeito. Se você, caríssimo leitor, costura no trânsito, é uma exceção, óbvio. Você não é corno, claro que não. Agora se conheces um, e sei que conheces, manda este texto para ele. Acrescenta, peço-te, a foto de um guzerá.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pobre Adalberto

     Ontem, um colega me perguntou se eu estava com medo de que a seleção brasileira não se classificasse para a segunda fase da Copa América.

- Medo, eu? - mostrei espanto. – O que é que eu tenho a ver com o time da CBF? - cutuquei.

- Ué, você não é brasileiro, não? Ou não gosta de futebol? – perguntou ao não entender minha colocação.

- Na verdade, tanto gosto de ver como de jogar bola. E torço sempre pelo time mais ofensivo, aquele que busca o gol. Quando a CBF joga, prefiro que ela ganhe, mas se isso não ocorre, a vida segue. Seleção brasileira é uma invenção para iludir o povo. Alguns políticos usaram, e outros ainda usam, o nome Seleção Brasileira para manipular eleitores. Como disse o presidente da entidade, Ricardo Teixeira, “que p&$#% as pessoas tem a ver com as contas da CBF? É uma entidade privada, não tem dinheiro público”.

- Ricardo Teixeira disse isso? Não ouvi falar nada disso – Adalberto, chamemos assim o meu amigo, pareceu não acreditar no que eu falara. – A seleção brasileira não é do Brasil? – arregalou os olhos.


- Piauí? O que é isso? – estranhou o nome.

- É uma revista, meu caro. E das boas – Adalberto, como a maioria dos brasileiros, informa-se assistindo telejornais. E se a notícia não brota nos televisivos, parece que não aconteceu. Para muitos, só é verdade o que sai no Jornal Nacional. A Record chegou a veicular reportagens sobre os escândalos envolvendo o dono da CBF. Como a Rede Globo ficou de boca fechada, o populacho ignorou as denúncias. Ricardo, sabendo da força da emissora dos Marinhos foi sarcástico: "Quanto mais tomo pau da Record, fico com mais crédito na Globo".

     Adalberto, que até então desconhecia ser a seleção brasileira uma marca usada pela CBF, ficou um tanto quanto decepcionado. Percebendo o baque iminente nas convicções futebolísticas do camarada, dei o tiro de misericórdia: - Não acredito na lisura do futebol, meu amigo. Gosto do espetáculo. Dane-se quem ganha ou quem perde. Quero ver balãozinho, embaixadinha e canetas. E golaços, claro. Detesto zagueiros que impedem o que seria um belo gol. Ainda que estejam usando a famosa amarelinha. Adorei os 3X2 da Itália sobre o Brasil em 82. À época, achando que futebol era coisa séria, fiquei triste. Tempos depois, menos ignorante quanto ao câncer da organização do esporte em que Pelé foi coroado, maravilhei-me com os três gols de Paolo Rossi.

     Ontem à noite, comecei torcendo contra a Argentina. Aos poucos virei a casaca e cheguei a vibrar com os gols argentinos. Vibrar, vibrar, não. Gostei, no entanto.  A Argentina venceu Costa Rica por 3X0. Amanhã, o Brasil – lembre-se que Brasil é uma marca, não uma nação – enfrenta o Equador. Caso perca, dança. Quero uma chuva de gols, lá ou cá. Já pensou, paisano, 7X0? E 9X4? Seria a glória. Imagine, quatro gols de placa brasileiros. Se os nove que o Equador marcar forem feios, não terão a menor graça. Gritarei pela sacada do apartamento onde passo as noites: “dá-lhe Brasil”.

Pobre Adalberto, um legítimo torcedor da seleção canarinho.





















segunda-feira, 11 de julho de 2011

Chumbregando e relinchando

     Abrafolar. Coxambrar. Chumbregâncias. Irmanar. E então, sabes o significado dessas quatro palavras? O quê! Vais me dizer que nunca abrafolaste? E se um, ou uma, vivente chegar ao teu ouvidinho esquerdo e sussurrar que intenciona te abrafolar, o que dirás? O que gritarás? Fugirás? Pedirás ajuda aos universitários? Implorarás apoio da cavalaria? Ou abrirás um sorriso de venha? Não adianta pesquisar na internet nem consultar o pai dos burros. Ou sabe ou não sabe. Deixemos o abrafolar de lado e caiamos matando no coxambrar. Coxambrar, com x, tem a ver com cocha, com ch. E aí, pegou? Cocha, coxambrar... hum. Caso tenhas entendido, estás liberado para a arte da coxambração. Se não, procura um cinto de castidade e te pune por uma semana, pelo menos. Nem uma coxambradinha, sequer. Onde já se viu, o cidadão coxambra sem saber que está coxambrando. Vamos em frente.

     Chumbregância, sabes o que é? Digamos que é prima de coxambra. Façamos uso das palavras do juiz de direito da província de Sergipe, Manoel Fernandes dos Santos, que em 15 de outubro de 1883 decretou uma sentença na qual considerava que “o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para coxambrar com ela e fazer chumbregância, coisa que só o marido della competia coxambrar”. O documento arquivado no instituto histórico de Alagoas é rico em termos que há muito caíram em desuso. Abrafolar, coxambrar e chumbregância são alguns exemplos ali contidos. Irmanar, entretanto, não consta na sentença judicial.

     Ontem à noite, quando assistia uma reportagem sobre argentinos que moram na fronteira com o Brasil, o repórter superou-se. Traduziu, do espanhol para o português, o termo irmanar. Como se o verbo não fizesse parte da língua consagrada por Saramago. “Ô mermão, para com isso. Das duas uma: ou não conheces nosso vernáculo ou pensas que os telespectadores são incapazes de conjugar o verbo ser”. A dúvida, essa megera, logo invadiu meus pensamentos: a televisão me deixa burro? Ou parte do pressuposto que relincho há décadas?





quarta-feira, 6 de julho de 2011

O outdoor venceu

     No último dia 27, noticiei aqui o descontentamento de uma cidade catarinense com o iminente aumento do número de vereadores no município. Uma emissora de televisão deu notoriedade aos fatos e o povo venceu. Os vereadores de Jaraguá do Sul decidiram abrir mão do incremento de profissionais da política na câmara. Isso mostra que, se a imprensa tiver interesse, muita coisa pode melhorar nesse pedaço de mundo descoberto por Cabral. O difícil, meu caro, é saber quais os reais interesses da imprensa. E como sugestão de leitura, indico Chatô o Rei do Brasil de Fernando Morais. Leia e tenha uma ideia da genética do jornalismo tupiniquim. Lógico que temos vozes dissidentes que insistem em nadar contra a maré.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Queijo brie e ovo frito

- Bem feito, Gilead, bem feito – pensei.

- Quem manda não perguntar qual é o cardápio? – continuei me pisoteando.

     E vamos combinar: tem horas em que a gente tem vontade de socar o próprio queixo, estapear a própria cara de tolo. Ora, você. Imagine que, além de tudo, fui quase que obrigado a mentir. Digo quase porque a mentira só é obrigada quando é feita sob tortura ou para atender a interesses políticos. Sim, paisano, um político nobre precisa mentir de vez em quando. Não que ele seja um mentiroso inveterado, mas é tudo para defender o interesse dos eleitores. E dos não-eleitores também, afinal, ser político é antes de tudo um sacerdócio. Não fui obrigado a mentir, como um deputado numa CPI, mas o cuidado em não melindrar o cheff falou mais alto. O dono do lugar, também amigo meu, não ficaria lá muito contente se eu dissesse que arroz feito paçoca para mim não passa de uma gororoba. Isso mesmo, gororoba. Tomara que meu amigo não leia esta crônica, e muito menos o mestre da cozinha que fez o risoto de queijo brie (lê-se brí) com presunto não sei de quê.

     A verdade é que o Gile aqui estava virado em vinte e cinco metros de fome. O friozinho de 13 graus, somado a umidade da Lagoa da Conceição, provocava uma sensação de oito. Já passava das 22h. Enquanto os convivas riam e conversavam amenidades, encontrei uma estante e fui fuçando para descobrir um livro que me interessasse. Folheava as páginas de O Livro das Religiões quando Donizete – chamemos assim o anfitrião – avisou: “Gile, o jantar está servido”. Quase larguei a obra no chão. Não fiz como a corte portuguesa que debandou para o Brasil em 1807 e abandonou os livros no cais do porto. Quando vi todos se servindo achei que teria um troço. “Tanto tempo esperando, meu Deus do céu, e agora terei que comer paçoca de arroz?”, lamentei tão baixinho que só eu mesmo ouvi. Arroz, para o nordestino aqui, tem que ser soltinho. De preferência com carne assada. O arroz mole, unido pela viscosidade – mesmo que seja do tal queijo brie -, já me dá calafrios. O cheiro de chulé – isso mesmo, a comida chique parecia ter saído de dentro de um tênis usado por um indivíduo nada asseado – deixou meu nariz em greve. E o olfato, meu amigo, é o parceiro número um do paladar. A fome, no entanto, e o receio de prejudicar o jantar dos demais, empurraram minha mão e colocaram uma colherada da iguaria no meu prato.
- Só isso, Gile? Não vai comer mais nada? – perguntou um dos presentes desconhecedor da minha saia justa.

- É que não estou com muita fome. Além do mais, não costumo comer muito depois das dez da noite – dei uma de candidato a vereador.

     E como diz o ditado: “o que é um %^$#* pra quem tá todo &^%$^$?”. Antes que me enchessem de pergunta e insistissem para comer mais, levantei a voz: como é mesmo o nome desse prato? Em seguida murmurei só para o Gile ouvir: grave esse nome e nunca mais se deixe enganar. Ora, ora, simpatia, quem já viu um camarada lá do Rio Grande do Norte se meter a besta e querer comer esquisitices da cozinha francesa? Arrumei uma desculpa – ou mais uma mentira – e fui o primeiro a pegar o caminho de volta. Passava da meia noite quando comecei a jantar. Te dana, queijo brie, prefiro um ovo frito.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Fora, cadeira de ferro

     Uma cadeira de ferro. Uma cadeira de ferro e não uma de plástico. Sabe por quê? Juro que não sei, paisano. Fiquei, no entanto, pensando nelas duas – na de ferro e na de plástico – enquanto enchia a pança no café da manhã de hoje. Não era, diga-se de passagem, um desjejum qualquer. Era um evento na cidade que mais cresce em Santa Catarina – Palhoça. E segundo o prefeito do município, que lá estava, Palhoça será a maior cidade catarinense daqui a quinze anos. O chefe do executivo municipal informou que esse dado inédito será divulgado em breve e é resultado de um estudo feito pelo Governo. Política à parte, a cadeira de ferro me encasquetou. Antes de começar a comilança, a moça que comandava o cerimonial explicou algumas coisas a cerca do ajuntamento. Entre as exposições veio a cadeira de ferro. Na verdade ela não explicou, apenas disse que era importante escolher cadeiras de ferro ao invés de cadeiras de plástico.

     Quando fui me levantar, puxei a cadeira e fiquei só com o assento nas mãos. “Hum, essa cadeira de ferro é meio Jaguara”, comentei com o colega ao lado. Jaguara é o termo que os moradores da Serra catarinense usam como sinônimo para cachorro vira-lata. As pobres cadeiras plásticas não dariam tal vexame, mesmo assim foram preteridas. Ê, cadeira de ferro. Sem falar no frio. Os treze graus deixavam a armação fantasiada de barras de gelo. Um encostãozinho e... ui. Ponto para as ausentes cadeiras plásticas. Quando os esfomeados presentes moveram-se em direção ao bufê, foi aquela barulheira. Os pés de ferro brigavam com a cerâmica. Mais um ponto para as primas pobres. Danem-se, todas as cadeiras de ferro do mundo. Danem-se todos os pés de ferro. Eu quero é plástico. Quero a pobreza e a simplicidade do plástico. Quero a mobilidade do plástico. Fora, cadeira de ferro.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Um relato pré-morte

     Ontem recebi o email de um leitor deste blog. Avesso a postar comentários, preferiu enviar a mensagem. Contou que lê quase todos os textos do reporteando depois que um amigo dele recomendou umas espiadas nas crônicas. E perguntou a minha idade. Lá pelas bandas de Pindamonhangaba, num fim de semana frio como foi o último, passou os olhos em O cinismo espeta a verdade e entendeu que eu já teria pelo menos setenta aninhos de vida. Achou o relato muito pré-morte. Respondi que estou apenas na minha quinta década neste mundo de meu Deus, que acredito que esse asteróide pequeno – como poetiza Zé Ramalho – é um lugar bom, mas que o fato de contar sobre o que já fui não significa que estou abrindo mão da existência. Pelo contrário. Afirmando que já fui, sentencio que sou. E-vi-den-te, paisano. Veja uma árvore de oitenta anos: cada novo anel que adquire, dá-lhe nova aparência, o anterior fica aprisionado para nunca mais voltar a receber lufadas de vento. Serve, contudo, de base para o que se arvora. Ao perder a capa protetora ganha outra muito mais viçosa. É isso, meu caro. Avisei ao camarada que responderia via crônica.

     Já fui, sim, e continuo vivíssimo. Ainda bem que descobri isso a tempo de repensar valores por outros embutidos em minha cabecinha inocente – e lá se vão algumas décadas, meu Pai.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Não precisamos de vereadores

Outdoor 1
Faltam: médicos, medicamentos, creches e leitos hospitalares.
Não precisamos de mais vereadores.

Outdoor 2
Operário: 44 horas semanais.
Professor: 40 horas.
Vereador: 5 horas.
Não precisamos de mais vereadores.

Outdoor 3
Salário Mínimo: R$ 545,00
Professor: R$ 609,46
Vereador: R$ 7.316,00
Nao precisamos de mais vereadores

Essa é uma campanha contra a criação de novas vagas para vereadores em uma cidade de Santa Catarina. É, no entanto, uma luta inglória. As tais vagas são, via de regra, arranjos políticos feitos para empregar mais aves de rapina sedentas do dinheiro público. E a população pode espernear, chamar de ladrão ou o que for, não vai adiantar. Os municípios precisam urgente de controle. Prefeitos e vereadores fazem o que bem entendem com o rico dinheirinho do povo e raras vezes são responsabilizados. Iniciativas isoladas, por mais bem intencionadas que sejam, de nada vai adiantar. Que a luta dos indignados catarinenses se espalhe pelo Brasil.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O cinismo espeta a verdade

     Já fui paciente. Inclusive em hospitais e clínicas, que exigem estrema paciência por parte de quem chega por lá. Já fui paciente; do verbo não sou mais. Meu pavio, nos dias mais coloridos, dá para ser medido em milímetros. Talvez por isso, começo a perceber que enclausuro a voz. As palavras, no recrudescer da impaciência, calçam arame farpado, vestem manto de urtiga e esmurram feito Mike Tyson no auge da carreira. Chegando, inclusive, a investir à dentadas sobre um distraído ouvinte. E para domar a impaciência, essa hiena, ignoro. Ignorando, brinco. Brincando não levo a sério - falando nisso, também já fui sério. E gargalho. Sorrio da sisudez. Com um cinismo que espeta a verdade de quem insiste em saber mentir. E minto também.

     Já fui verdadeiro. Até mesmo com mentirosos inveterados que pediam para que eu dissesse a verdade. Com o tempo fui aprendendo que a verdade, assim como a felicidade, é uma arma branca – amolada como navalha de exímio barbeiro, corta a carne alheia, embebe-se do rubro líquido irmão. Não deve ser entregue, essa peçonha, a qualquer noviço. Seria maldade não mentir. Já imaginaste, paisano, o mal que provocaríamos ao dizer que está feia uma debutante? E afirmar uma asneira dessas a uma noiva de véu e grinalda? É imperioso, em ambos os casos, que se minta. E há, adianto, uma dantesca distância entre um mentiroso e um cara que mente. O primeiro não sabe ler, ou não lê nada. Se lê, desconhece as minúcias de um texto bem escrito. Está em trevas. O segundo, o cara que mente, está em pleno processo evolutivo. Navega em águas profundas e sabe que todo cuidado é pouco para não naufragar. E ser verdadeiro com tudo e com todos é ter a certeza que vai terminar os dias no fundo do mar.

     Alguém que você conhece, simpatia, não mente? Algum sábio sobre quem você já investiu tempo lendo não mentiu? Aponte-me um humano, até mesmo o mais religioso deles, que não mentiu. Já que não encontrarás dois na história, aponte-me, peço, um. Conheço certos homens apaixonados pela causa divina que acharam uma expressão para justificar o ato de mentir: “Que isso, Gilead, o que Fulano fez foi esconder a verdade; ele seria incapaz de mentir”. Sei, sei,sei. Já fui verdadeiro.






quarta-feira, 22 de junho de 2011

Menina de cinco anos ganha o Nobel de Futebol

     Outro dia um leitor disse que sou muito cáustico. Que o meu texto, via de regra, esconde sob a pele uma lâmina ultra afiada. Apolônio, meu amigo, até que tento ser mais light. Até que quero pintar uma crônica bem colorida feito um arco-íris. Até que me esforço para falar das flores, dos sorrisos amáveis dos políticos honestos, da canção de final feliz feita para ninar casais romantizados. Tento, juro, levar à risca o que um editor de jornal pediu para um repórter fazer: “faça uma matéria com o prefeito, mas faça uma coisa boa, busque não falar mal dele; você consegue”. O problema é a realidade, Apolônio. Confesso que, vez ou outra, enfio a peixeira na minha consciência e escrevo sobre futebol. E faço isso principalmente quando não tenho muito tempo e meus neurônios estão sonolentos. Sabe como é o esporte que consagrou Pelé, não é? São onze contra onze. Quem está debaixo da trave, veste uma camisa de manga longa e usa luvas é o goleiro. O número nove geralmente é o centroavante. Os que ficam perto do goleiro, impedindo que a torcida adversária grite gol, são os zagueiros. Os que ficam na beira do campo xingando os que estão correndo são os treinadores.

     Tirando a questão do impedimento, que é preciso saber falar “mamãe” para poder entender, as regras são facílimas. Mesmo assim o árbitro, aquele sujeito de mal com a vida que adora querer aparecer, erra mais do que acerta. Ele aproveita que os atletas não conhecem as regras – o que parece brincadeira – e faz o que bem entende. Um esporte tão simples pode ser comentado por qualquer aracnídeo. O que for dito pode ser aproveitado. Por isso se diz que todo brasileiro é um técnico de futebol. Preste atenção, paisano, nos chamados jornalistas esportivos. Primeiro, eles – quase 100% deles – só falam de futebol. São, nesse caso, jornalistas futebolistivos e não esportivos. Se os caras cuspissem a cada asneira dita, morreriam afogados dentro do estúdio antes de acabar o primeiro tempo da partida.

     E porque vossa majestade acha que as pessoas dizem que não gostam de falar de política? Pergunte, só por curiosidade, aos seus chegados se eles sabem o que compete a um presidente da câmara dos vereadores, a um presidente da mesa diretora ou a um relator de uma CPI. Pergunte qual a diferença entre forma e sistema de governo. Pergunte como as leis são feitas, qual o caminho que elas seguem até entrarem em vigor. É, senhoras e senhores, é muito mais fácil falar de futebol. É muito mais terapêutico, admito, esbravejar contra a mãe do árbitro. Muito mais saudável estourar as cordas vocais comemorando um gol. Um ignorante de plantão vai – tenha certeza – me enviar um email irritadíssimo. Antes, porém, quero alertar: se para falar de pelada fosse necessário inteligência, já teriam criado o Nobel de Futebol.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Criança quer sexo, droga e pancadão

     Lendo um jornal de circulação diária do nosso Brasil varonil, dei com as fuças na seguinte manchete: “Pais devem acostumar os filhos a dormir na hora certa desde cedo”. O complemento informava: “Garantir um bom sono durante a infância estimula esse hábito na fase adulta”.

- Ô editor, meu garoto, para com isso, mermão. Tu ta maluco, animal. Tas querendo que nossas crianças sejam fantoches, é? Tas insinuando que os pais devem estabelecer um horário para os filhos caírem no sono? Tas querendo que os inocentes se acostumem a dormir cedo? Tu ta mais por fora do que mão de afogado, louco. Sai dessa vida e cai na real, jacaré. E tem mais: se você continuar colocando matérias manipuladoras nesse teu jornaleco, vais findar com um baita processo nas costas.
 
     Ora, ora, onde já se viu uma coisa dessas? Onde é que vamos parar? Nossas crianças precisam ser independentes desde cedo – comer o que querem, dormir à hora em que bem entendem e ganhar uma cópia da chave de casa aos sete anos. E se entre pai e filho tiver que haver um dominador, que seja o de menor idade. Pânico na TV, o programa de televisão mais visto por adolescentes brasileiros, por exemplo, termina às 23h30 do domingo. Se o pimpolho tiver que dormir às 22h, perderá a oportunidade de ver bundas, piadas preconceituosas e bizarrices outras.

     E o que dizer dos horários de funcionamento das boates? A coisa por lá só bomba depois das 23h. Como a entrada é permitida a qualquer pessoa que pague, os menores não vão ficar de fora. Aí uma moça de 14 anos vai estar dormindo nessa hora e perdendo a oportunidade de fumar unzinho, tomar uma dose de uísque com energético e depois transar dentro de um carro de um maconheiro que ela acabou de conhecer? Sei que quem fuma maconha odeia ser chamado de maconheiro, mas acho que isso é auto-preconceito. Você gostaria, pai, a senhora gostaria, mãe, que sua filha perdesse a juventude dela dormindo, ao invés de estar se divertindo? Em casa ela provavelmente não terá cocaína para cafungar. Isso a belezura só encontrará na “casa da amiguinha”, onde precisará dormir para “fazer um trabalho de escola”.

     Tem gente que é antiquada e quer que os filhos também o sejam. Dormir cedo é coisa do tempo em que Legião Urbana ainda era rural. A moçada hoje quer sexo, droga e pancadão. E essas diversões costumam ser disponibilizadas depois que os ultrapassados pais de família estão dormindo. Ora, ora, paisano, uma adolescente não pode perder a festa por causa de um idiota de um pai que quer dormir cedo. Que durma, então, o sonolento, mas não atrapalhe o divertimento das nossas crianças.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Comportamento de manada

     Comportamento de manada. Percebo isso nos bovinos de modo muito claro. Quando um deles se apavora e sai em disparada pelo pasto, todos fazem a mesma coisa. Sem raciocinar, sem pensar duas vezes, sem dizer: “calma, vamos analisar a situação”. Necas de pitibiriba. Se um corre, todos correm. Na hora da ração é um deus nos acuda. Basta o primeiro se dirigir para o curral que a corriola vai atrás. Botou a boca no cocho é sinal de coisa boa. O gesto é repetido pelos demais. Animais. São todos iguais. Só muda o...? Só muda o dono, meu chapa. De fato, todos têm quatro patas – salvo alguma anomalia. Refiro-me aos bois, não aos donos. Todos têm rabo, barriga, costela e por aí vai. E cabeça, claro. Cabeça que não serve para pensar, ressaltemos. Cabecinha que está lá para abrigar a boca, os olhos e os chifres. Nunca, isso mesmo, nunca para pensar. Nunca para ponderar. Nunca para reclamar que estão sendo feitos de bobos. Nunca para se indignar. Nunca para dizer chega. Nunca para constatar que são vacas e não burras. Comportamento de manada. Falando nisso lembrei-me de um evento que fui outro dia.

     Como não tinha nada para fazer, fiquei olhando tudo e todos. Os músicos eram muito bons. O lugar, maravilhoso. Na beira do mar. E na beira do mar, como diz o poeta, “nego joga bola”. Não uma bola literal, daquelas maltratadas por peladeiros nos campos de futebol. Mas a bola da vida, dos momentos que se apresentam para serem moldados conforme as hábeis mãos de quem deles dispõe. Sentado, passei a observar as damas que transitavam de um lado para o outro feito baratas sem GPS. E fui notando as similitudes entre elas. Uma coisa, no entanto, agarrou-se em meu olhar: as bolsas. Todas carregavam bolsas. Todas, sem exceção. Se é todas é sem exceção, óbvio. Mas faço questão de dizer que o todas aqui empregado é todas no mais abrangente sentido do todas. Não pense, paisano, que estou me referindo a uma bolsa qualquer. Não. Uma bolsa pequena, por exemplo, talvez nem me despertasse o olho esquerdo. As bolsas da festa eram grandes. Comportavam, tranquilamente, três quilos de açúcar, dois de arroz, um de farinha, meio de carne fresca, algumas batatas para fazer um purê e uma ou duas frutas para a sobremesa. Aquilo sim eram bolsas.

     Irritei-me. Ou melhor, fui irritado. Minha irritação é abrupta. Não vem subindo pelas unhas dos pés. Não percorre cada dedo, cada tendão dos meus pisantes. Não palmilha as pernas e outras partes do corpo antes de explodir pela boca e pelos olhos. Ultimamente tenho controlado mais minha cólera e evitado – sempre que possível – que ela ganhe liberdade pela boca. Os olhos têm sido a porta de saída que abro para minha ira ganhar a imensidão. E tenho me especializado em criar olhares: tem o olhar do “vai te catar, rapaz”; tem outro, semelhante, porém mais agressivo que diz “vai ~#$^*&”. A maioria das pessoas entende a linguagem dos meus olhos. Outro dia o árbitro lá da AABB me deu cartão amarelo só porque lancei-lhe um olhar de “és um ^$#*&”. Verdade. Juro que não mostrei o dedo médio para o camarada. Só olhei. Ele, feito um touro na arena, vociferou: “quer levar um cartão?”. Agucei o olhar. Sem conhecer outra forma de demonstrar autoridade, enfiou a mão no bolso e mostrou-me o cartão. Voltando à festa, vou revelar meu descontentamento.

     As bolsas das senhoras, embora o tamanho, estavam murchas. Em algumas percebi um montinho. Talvez um molho de chave, um batom ou um completo kit de maquiagem. Ora, ora, gente amiga, que desperdício de dinheiro e de praticidade, pensei: se é para não levar nada, para que comprar um paiol daqueles? Conversei com um colega e ele foi direto: “é moda, Gile”. Moda, é isso. Sendo assim, não tenho o direito a ficar com raiva. As nobres senhoras são vítimas de oportunistas que empurram-lhes acessórios desnecessários a um preço elevadíssimo. Diante de uma propaganda elas são proibidas de pensar, de refletir, de analisar, de ponderar. Mas isso não tem nada a ver com comportamento de manada, por favor.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Tô fora mermão

     "Vai te danar, Rodrigo Pimentel". Foi assim que resmunguei hoje pela manhã, quando assistia o burguês Bom Dia Brasil - da Rede Globo. Que por sinal, é o único programa que vejo da emissora. Ah, tem também o futebol que, se não passar na concorrente, ou mesmo na SporTV – que também é Global, porém com melhores profissionais – costumo dar umas espiadas. A verdade é que fiquei indignado logo ao acordar. Por favor, botocudo, quando digo que o matutino dos Marinhos é burguês não estou querendo depreciá-lo. Ou achas que ele é destinado ao populacho? Às sete da matina o pobre está dentro de uma lata de sardinha em direção ao trabalho. Quando já não está ralando. Vamos ao que interessa: a apresentadora chamou o comentarista de segurança para comentar sobre um sequestro ocorrido em Brasília.
     Depois de uma meia dúzia de três ou quatro palavras ditas pelo camarada – que o meu cachorro, o Sheid, já as conhece de cor e salteadas – a jornalista resolveu apresentar um manual de sobrevivência, segundo ela elaborado por Rodrigo. O título da obra, colocado na tela de abertura dizia: “Manual da vida segura com Rodrigo Pimentel”. Ora, ora, paisano, não quero ter, nem muito menos que minha família tenha, uma vida segura com o senhor Rodrigo Pimentel. Não o conheço. E mesmo se o conhecesse, sou casado. Prefiro uma vida insegura ao lado da minha esposa do que uma segura de mãos dadas com o seu Pimentel. To fora, “mermão”, como dizia Tim Maia.
 
     Foi aí que minha primeira dama interveio: “O que eles estão querendo dizer é que o manual foi feito por Rodrigo Pimentel, só isso”. Ignorante homem que sou. Como não desconfiei que a Globo aderiu a sugestão do MEC e acatou a supremacia da oralidade sobre a norma culta. Nesse caso, o importante é comunicar. E euzinho aqui pode ficar tranquilo que a Globo está apenas querendo dizer: Manual da vida segura - Rodrigo Pimentel. Ou ainda: Manual da vida segura, por Rodrigo Pimentel. Maldito Cabral, bem que ele podia ter ido direto para as Índias. Talvez tivéssemos sido colonizados por ingleses. Nossa língua seria bem mais fácil.

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Não dá para acreditar

     É sério. O caso - neste caso, um caso, mesmo - aconteceu aqui na bela Floripa. O gerente da agência bancária me segredou e eu vou botar a boca no trombone. Sem dar nome aos bonitões, é lógico. Até porque esse negócio de falar mal de polícia cheira a bala. Dizer em praça pública que um policial é gay é o mesmo que assinar a própria sentença de morte. "Mas sem exageros, meu caro Gile", dirá um comandante amigo meu. Sendo assim, não vou afirmar que o camarada dessa história era da nossa querida coorporação estadual. Faço igual ao lema da bandeira paraibana - Nego. O fato é que um trintão entrou no estabelecimento onde se empresta dinheiro acompanhado de um vintão. O mais velho contou uma conversa sinistra para o gerente: estava sendo sequestrado e precisava sacar uma grana para pagar ao moçoilo que entrara com ele. Na verdade, conforme o policial, mais dois comparsas do seu acompanhante estavam do lado de fora da agência aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Acho até, pelo que apurei, que o gerente quis pagar para poder libertar o cliente, mas o danado do trintão não tinha um realzito na conta. E agora, seu Zé?

     Ah, meu amigo, o funcionário deu uma de bobo e chamou a polícia. Enquanto os fardados não chegavam, o bancário foi entretendo os dois visitantes. Morrendo de medo, confesou-me depois. O cliente policial, visivelmente contrariado e enrrolado, tentava persuadir o gerente a adiantar-lhe uma mixaria. Nada feito. Depois de meia hora, chegou um suado e solitário PM. A pé, o desgraçado. Ora, ora, meus senhores, como é que um cara vem atender uma possível tentativa de sequestro sozinho? E ainda por cima a pé? E não pesava 60kg o desgraçado. O engravatado já estava aflito. Àquelas baixuras, quase todos os funcionários estavam de orelha em pé. Os dois comparsas que vigiavam do lado externo da agência, ao notarem a chegada de um fardado, viraram gás, escafederam. O policial que veio desbaratar o sequestro estava mais perdido do que cachorro quando cai da mudança. Aos poucos, entretanto, foi tomando pé da situação e chamou o gerente numa sala.

     O gerente, então, dirigiu-se ao policial cliente e deu-lhe a solução: "Vamos ligar para sua esposa e pedir que ela venha trazer o dinheiro".
- Não, pe-la-mor-de-deus! - suou o trintão - Não quero que ela saiba de nada.
- Sendo assim, não posso fazer nada - deu uma de Pilatos o bancário.
- Por favor, seu gerente, consegue esse dinheiro para mim?
- Não posso - respondeu sem nenhuma ponta de sensibilidade - O jeito é ligar para sua mulher.

     Quinze minutos depois entra uma senhora enlouquecida. Aos gritos, revela o segredo do marido:
- Safado! Ainda tem coragem de fingir que foi sequestrado?! Vai com um macho para o motél, gasta todo o dinheiro com drogas e depois não tem como pagar o programa?! E depois eu tenho que vir aqui pagar, me sujeitar a uma humilhação dessa?!

     "A cena era constrangedora", atestou o gerente. O policial de serviço, o Stallone de Florianópolis, aliviou para o colega e saiu de fininho. Com o pagamento no bolso, o vintão agradeceu à mulher do cliente do banco e dele, e se foi. Sem um grama de moral, o "sequestrado" saiu sob xingamentos da consorte. Na agência, o pasmo era geral. Dois dias depois, enquanto me contava tudo, o gerente dava risada. Fiquei sem saber se era para rir, chorar, ou ficar sem saber o que fazer. Fiquei sem saber o que fazer. É, paisano, quando eu penso que já vi tudo...


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Se beber, não case! 2 - assista e vomite

     Você pagaria, meu brother, para ouvir uma palestra em que quatro ou cinco homens pregassem escancaradamente que cocaína e outras drogas do gênero deixam a vida mais divertida? Você pagaria para ouvir norte-americanos ridicularizando outros países? Você pagaria para ouvir que nações consideradas pobres, como a Tailândia, por exemplo, precisam de um estadunidense para torná-las mais ordeiras? Você pagaria para ver conterrâneos de George Bush zombando de religiosos budistas? Você pagaria para ver - e daria risada ainda por cima – gente civilizada exibindo um macaco fumante? E se esse mesmo macaco fosse um aviãozinho do tráfico, você aplaudiria? Você pagaria para ouvir um punhado de ianques alardeando que esbórnia, quebra-quebra e desrespeito a outras culturas é uma coisa engraçada? Não?! Pois eu paguei.

     Meio a contragosto, mas paguei. Não só eu, como milhares de pessoas em todo o mundo. E nesse aspecto, louvemos os norte-americanos. Os caras conseguem rir da cara - os caras rindo da cara é horrível - dos não-norte-americanos e ainda os fazem pagar pelos gracejos. E fazem isso no formato filme. Se beber, não case! 2 é uma dessas películas que lotam as bilheterias dos cinemas. Não me tenha por puritano ou algo semelhante. Muito menos como um taciturno incapaz de gargalhar. O filme é uma apologia às drogas, sim. E o faz isso sob a máscara da comédia. Claro que um parvo vai dizer que euzinho aqui não entendeu o “espírito da coisa”. Vai procurar um marido, respondo a esse filhote de demência. Tem mais:

     No filme, um velho monge budista é sacaneado por turistas estadunidenses em plena Bangkok. A capital tailandesa é mostrada como se fosse um antro onde se aninha tudo o que não presta no mundo. É aquela mania que alguns países têm de se acharem o umbigo do mundo e que o resto, ao pé da letra, é puro resto. A bebedeira é mostrada como algo engraçado, inocente e para ser aceita como tempero da vida. A cocaína é retratada como um ingrediente saboroso capaz de deixar o usuário mais descontraído e menos chato. Lógico que vai ter um discípulo de lúcifer me mandando email e me chamando de otário, quadrado, antiquado. “Não sabe nem ver um filme, babaca”, dirá o celerado. O fato é que tenho mais de um neurônio. E são suficientes para me fazerem ver o que está por trás – e até pela frente – de uma película como a que me refiro.

     Paguei, paguei para rir da desgraça. Paguei para rir do grotesco, do bizarro, da incultura. E agora, meu Deus do céu? O que fazer para redimir minha pobre alma? Também não é para tanto, Gile. Já estás arrependido. Chegaste até a escrever esta crônica purgatória. Oxalá Palocci fizesse o mesmo. E que igual fizesse FHC, Sarney, Gilmar Mendes e outros artistas tupiniquins. Na comédia chamada Brasil, o choro das crianças famintas, a morte por descaso na segurança pública e a corrupção endêmica roubariam a cena. Mas ai, em se tratando de roubo, a disputa por melhor ator seria acirrada.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Cruz de Malta é o meu pendão

     Depois de onze anos sem conquistas no cenário nacional, o Vasco da Gama sagra-se campeão da Copa do Brasil 2011. O grito calado dos torcedores vascaínos só largou a garganta depois da última apitada do árbitro. Iludido, o Coritiba até que tentou - contando inclusive com o os pontapés e os socos do atacante Bil -, mas vai ter que esperar. Infinitamente superior, o time carioca fez um gol logo no primeiro ataque e passou a dominar as ações. Em duas falhas da, até então, irretocável defesa, levou a virada. No segundo tempo, contudo, tratou de igualar o marcador. Mesmo sem jogar bem, querendo vencer na base da força, os paranaenses conseguiram o terceiro gol após um desvio mal feito do capeão. Eder Luiz, melhor jogador em atividade no Brasil ontem à noite, ainda entortou três marcadores do Coxa e presenteou Bernardo, mas o moço parou no goleiro Edson Bastos.

Parabéns, Vasco da Gama. Parabéns torcida cruzmaltina. Agora é só aproveitar o Brasileirão para treinar. A Libertadores 2012 já tem um candidato. Resta comemorar com os vencedores:
  
Vamos todos cantar de coração
A Cruz de Malta é o meu pendão
Tu tens o nome de um heróico português,
Vasco da Gama, a tua fama assim se fez!

Tua imensa torcida é bem feliz
Norte e sul,
Norte e sul deste Brasil
Tua estrela, na terra a brilhar, ilumina o mar!

No atletismo és um braço;
No remo és imortal;
No futebol és o traço de união Brasil-Portugal!

No atletismo és um braço;
No remo és imortal;
No futebol és o traço de união Brasil-Portugal!