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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Belezas do Rio Grande do Norte


Barra de Cunhaú


Aposentado? Fala sério


Muito preocupado com a crise no Egito


Até que é um bom lugar para se bater papo


Na hora do almoço? Rsrs


Praia de Sibaúma





Praia de Camurupim



Praia de Tabatinga



Rendeira em Tabatinga








sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Danem-se, miseráveis

     As construções precárias, algumas de pau-a-pique e chão batido, parece terem sido projetadas pelo mesmo arquiteto que fez os hediondos círculos retratados pelo florentino Dante Alighieri em sua Divina Comédia. Um pedaço de inferno no Nordeste de um Brasil tão rico. Raríssimas são, quase que num contra senso, as casas em que o céu não esteja representado. Em uma delas, duas, noutra, três. Às vezes, cinco anjos de olhos cintilantes e barrigas crescidas por abrigar tantos vermes, brincam sem saber que o futuro é perdição. O que pedem da vida? Quase nada. Uma bola de plástico, quando muito, para dar vazão às puerilidades, ou uma boneca sem braços. Talvez, presentes de um protetor que ceifa-lhes o sopro divino aos poucos – o prefeito. Sim, senhoras e senhores, o prefeito e seus vereadores são os demônios que eliminam quaisquer possibilidades de tais crianças ascenderem socialmente. Roubam-lhes o direito a saúde. Ao invés de sanear o município, e evitar assim a presença de pestes, fazem arremedos de pavimentos que, superfaturados, tornar-se-ão em belas casas de praias, apartamentos luxuosos e carros importados. Oferecem salários de miséria aos professores e atraem, para a nobre função, profissionais desencorajados e também vencidos pela desgraça. A merenda escolar, que para alguns anjinhos é a principal refeição do dia, chega em forma de comida de cachorro. Cachorro de pobre, diga-se de passagem. Por quê? Porque políticos inescrupulosos precisam de filé-mignon na mesa de suas mansões. "Danem-se, miseráveis, o que nos interessa são apenas os votos dos teus pais", gritam pelas ruas quando fazem comícios. Depois, correm para o céu do litoral. Gula, avareza e luxúria lhes esperam – só para citar alguns pecados. Ah, fotografias em jornais, aparições na TV e coisas do gênero acompanham o Manual do Explorador. Não podem, isso não podem, esquecer do próximo dia das crianças. Uma nova boneca de 1,99 e uma nova bola, também de 1,99, aquietarão os filhos dos escravos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Estudar? Que nada!

    A professora de inglês chegou à sala de aula e esperou pacientemente que os adolescentes se acomodassem. A escola de idiomas, uma das mais badaladas do Brasil, é reduto de meninos e meninas vindos de famílias abastadas. Os futuros donos de casa pareciam não se importar com a presença da teacher, e muito menos com o ambiente de estudo. Depois de alguns minutos de carnaval, a ensinadora, agora com a paciência para lá de esgotada, pediu silêncio e contou sobre um email que recebera. A correspondência eletrônica mostrava duas salas de aula – uma nos EUA e outra em um empobrecido país africano. Na escola Americana, os alunos, sentados diante de modernos computadores portáteis, dormiam. Enquanto isso, os africanos, esparramados pelo chão batido de um casebre, escreviam no piso, numa busca desenfreada pelo saber.


     Quando a professora terminou de contar, uma das adolescentes, 16 anos, foi incisiva: “A senhora acha que vai nos sensibilizar com essa história? Compre lápis e envie para eles”. A profissional, sentido o descaso da aluna com o estudo, perguntou se a moçinha não achava que estava rasgando o dinheiro dos pais, uma vez que eles pagavam para ela fazer um curso de idioma pelo qual não demonstrava ter o menor interesse. “Eu já sabem que não quero estudar inglês”. Sabendo que não se deve dar pérolas a porcos, como ensinou Jesus Cristo, a professora ignorou a futura advoga, médica ou empresária e se pois a ensinar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma cidade, um curral?

Terça-feira, 5h da tarde. Estou numa cidade do interior nordestino. Não vou revelar o nome do município em respeito aos seus moradores. É que, às vezes, os habitantes de um lugar sentem-se aviltados quando expomos a nudez do seu torrão. Lembrei do conselho que o meu professor e amigo argentino, Gustavo, deu-me: “Quando for viajar, leva um tênis na bolsa. Todo dia dá uma corridinha para manter a forma”. Venho fazendo isso na medida do possível. Hoje, no entanto, aproveitei o exercício para observar o percurso em detalhes.


Enquanto corria, precisava praticar salto em distância. Era o único jeito de escapar dos esgotos que cortavam as ruas. A água suja parecia o choro de um resto de Brasil entregue a malfeitores. Lembrei do curral dos meus animais e pensei: Eu não deixo o gado andar sobre lama. De fato, no meu sítio, os quadrúpedes são tratados com carinho. O recinto onde dormem e recebem trato é limpo. Não tem, acredite, paisano, cheiro ruim. Cheiro que tive de suportar enquanto corria. Eu morreria de vergonha de ser prefeito dessa cidade.

Vi uma escola fechada. As luzes estavam acesas. Falta um administrador, imaginei. De onde sairá o dinheiro para pagar a conta de energia? Do bolso dos escravos. Escravos que, oprimidos pelo sistema, trabalham de olhos vendados. Não podendo ver, não chegam ao conhecimento. E o conhecimento, sabemos, é uma forma de poder. E o poder, meu caro, os tiranos não querem dividir com ninguém. Que nojo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Delegado agride cadeirante

“Se a vítima não tiver um direito sobre o carrasco, então nao haverá justiça”
                                                                        José Saramago - escritor português

Damásio Marino é o nome dele.

- De quem se trata?

- De um delegado de polícia.

- O que ele fez para merecer ter o nome divulgado aqui?

- Agrediu um cadeirante.

- Por que?

- Porque o paraplégico reclamou com ele.

- E por que carga d’agua um camarada, que nem correr pode, meteu-se a questionar um “homem da lei”?

- Porque o bonitão, que não é deficiente físico, mas porta arma de fogo, estacionara o carro na vaga reservado a deficientes. Anatole Macedo, a vítima, achou-se no direito de pedir explicações ao semideus.

- E por isso apanhou?

- Sim, foi agredido pelo delegado que fez uso da arma para humilhar o cidadão.

- Onde foi que aconteceu essa barbaridade?

- Em São José dos Campos, São Paulo, na última segunda-feira.



    Meu amigo, minha amiga. Você sabe o que vai acontecer com o delegado? Nada. Isso mesmo; nada. “Ele será afastado da função, enquanto durar o inquérito”, dirá o porta-voz da Secretaria de Segurança Pública, recorrendo a uma frase comumente usada em situações como essa – que não são poucas. É a medida comumente adotada pelos donos das armas. Quando a população esquecer – o que não levará duas semanas – o verdugo voltará às atividades costumeiras.

     Aproveito e sugiro que a vida desse delegado seja escrutinada. Sim, porque ele não é, como diz o adágio, flor que se cheire. A Corregedoria tem uma ótima chance de descobrir quem é Damásio Marino. Como disse a rapariga dos óculos escuros de Ensaio sobre a cegueira, “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

 
PS: Para maiores informações sobre o caso, clique aqui.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Uma questão de saúde

"Política e saúde não combina". Quem disse isso foi uma enfermeira de plantão no hospital regional de um Estado nordestino. Para ela, o principal problema desses estabelecimentos são os péssimos administradores dos hospitais. "Eles são colocados aqui por políticos. Não entendem nada de administração, muito menos de hospital". Ela também denunciou que alguns médico não comparecem aos plantões nos finais de semana. "Os pacientes chegam e não tem quem os atenda. Depois o médico apresenta um atestado e fica por isso mesmo", indignou-se a profissional que trabalha no setor público há mais de vinte anos.

Andando por esse Brasil varonil, deparo-me, impotente, diante de pessoas como a enfermeira acima citada. Brasileiros irritados com a impunidade, com o desmando e com a falta de perspectiva para a solução de problemas que corroem o país.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Droga, droga e droga

Aproxima-se da meia noite. O posto de combustível às margens da BR fervilha. Mesmo assim, as bombas não despejam uma gota de gasolina, álcool ou óleo diesel nos tanques dos veículos. A movimentação é no pátio, onde caminhões estacionados servem de trincheiras para traficantes, viciados com narizes eufóricos e prostitutas. O estrago causado à sociedade é impossível de ser quantificado. Um rapaz de 19 anos comanda a boca. Aristeu, chamemos assim o moço, é um velho conhecido da polícia. Vende crak, maconha e cocaína. A mãe dele é falecida. O pai, potiguar, mora com uma pernambucana. O casal não aprova o modo de vida adotado por Aristeu. Jercino, nome fictício do pai, não permite que produtos advindos de roubo ou tráfico entrem em sua casa. “Não aceito vagabundo. Não quer trabalhar honestamente, então não apareça perto de mim”, esbraveja em tom de desabafo.

Por volta das 2h da madrugada, Aristeu chama um taxi. Vai à capital, há cerca de 20 km, buscar uma nova remessa de drogas. Ao ser perguntado se não tem medo de ser pego pela polícia, fala grosso: “Eu vendo para policiais, também. Se acontecer alguma coisa comigo, eu entrego todos eles. Meus clientes, aqui, são, na realidade, os caminhoneiros”. Um rapazola de 17 anos está agachado sob a carroceria de uma carreta. O cachimbo movido à pedra está em frenesi. Seu nome? Messias. É irmão de Aristeu. Quase alheio ao que se passa em redor, sorri quando um passante lhe diz uma pilhéria. Não estuda. Não trabalha. É um nordestino sem esperança de dias melhores. Um brasileiro anônimo. Um filho que morreu para o pai, embora não tenha ciência disso. E que está morrendo aos poucos pela boca. Ninguém faz nada. “Será preciso mais que um ‘messias’, para salvar Messias”, penso entristecido.

“Aqui ta tudo tomado pela droga”, diz Anastácia, madrasta dos rapazes. “Tem ‘minino’ de dez anos viciado em maconha”, assusta-me. “Outro dia, meu marido pegou Messias fumando ‘peda’ e deu-lhe uma surra. Queria fazer ele comer a ‘peda’. Só não matou porque eu não deixei. Eles - Aristeu e Messias - moram num barraco perto da nossa casa. Jercino não quer eles aqui. Mas quando ele sai para trabalhar, eu dou comida a eles. Tenho pena”.

O que contei, vi na periferia de uma capital nordestina. Um lugar empobrecido, onde o dinheiro do meu imposto parece não chegar.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Passeio de buggy pelas dunas

     Quem visita Natal, comete um pecado se não for andar de buggy pelas dunas. O passeio começa às 8h e termina às 16h.





Durante o passeio uma moça gritou amedrontada, devido as manobras "com emoção" que o bugueiro realizava. Ele tratou de acalmá-lá: "Faça como eu, feche os olhos".


O passeio é, antes de qualquer coisa, terapêutico.


Em Natal são quase mil bugueiros credenciados pela Secretaria de Turismo, fazendo passeios pelos litorais sul e norte. Cada buggy leva 3 ou 4 turistas. O almoço na beira da praia ganha um sabor todo especial.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Eita lugarzinho mais ou menos!

O Rio Grande do Norte é, realmente, um bom lugar para se conhecer. Alguns locais do Estado são quase que totalmente desconhecidos por quem não é daqui. Certas praias parecem desertas, mas têm estrutura para receber quem as visita. É o caso de Barra de Cunhaú, distante cerca de 90 km de Natal.





quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Seria o mundo um grande curral?

     Gerineldo ganhou um cincerro. E pelo visto nao gostou do adereço. Talvez aquele “telengo-tengo” que ele escuta, toda vez que mexe o pescoço, seja, realmente desconfortável. Ora, o tourinho nunca tinha visto algo parecido. De repente o adorno barulhento lhe foi imposto. Quem o colocou? O dono, certamente. É aquela mania que as pessoas têm de comandar quem é mais fraco do que elas. E os bois, colegas, apesar da força, são débeis na inteligência. Não fosse assim, o mundo seria um grande curral. Há quem diga que não seja muito diferente, mas vamos deixar isso por conta de cada mente. Os demais companheiros estranharam o ornamento. Ficaram alguns minutos arrodeando o colega, examinando, ao que pareceu, a novidade. Depois, como se faz com tudo que é moderno, recente e desconhecido, deixaram de lado e foram fazer o que mais lhes apraz: pastar. Gerineldo, entretanto, resolveu empenhar-se na missão 2011: tirar o chocalho do pescoço. A tarefa não é das mais fáceis. Vez por outra, ele esfrega o barulhento em uma árvore. Até agora, nada.

     Quando o tratador se aproxima do estábulo, é uma algazarra. Gerineldo se esquece da percussão que carrega e dispara em direção à ração. O olfato, meus caros, é, nos bovinos, assim como nos humanos, o sentido mais sensível. Principalmente quando comandado pelas reclamações das tripas. A fome tolhe o raciocínio dos quadrúpedes. Nada diferente do que acontece com os filhos de Adão. O terneiro, obcecado em satisfazer o desejo da barriga, preocupa-se apenas em se afofar na ração. É de boa paz, o chifrudo. Esse de quem estou contando. Não me refiro a todos os guampudos que conheço, que, convenhamos, não são poucos. E, por ser assim, não dá cabeçada em Bibigul – uma bezerrinha de seis meses que insiste em andar perto dele. Gerineldo não é o tipo que desconta nos outros o sofrimento que lhe caiu nos lombos. Mesmo tomando, vez em quando, umas bordoadas do Pirata - o manda-chuva do pedaço -, não se aproveita de quem é, por natureza, mais fraco do que ele. Ele parece entender que Bibigul não tem culpa no cartório. Por isso não descarrega-lhe o recalque.

     Depois de encher a pança, a porteira é aberta e ele livra-se da opressão do curral. Sua natureza exige liberdade. Não pode, por mais que o estomago peça, limitar-se ao redil. Bibigul o acompanha; Jipão também. Os três são adolescentes. O chocalho, agora, parece não incomodar. O intestino forrado é capaz de proezas que até Deus duvida.






quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Um coice na cara

     Dizem que os bichos são brutos, não pensam e não têm inteligência. Como diz o ditado, “cada quá com seu sarapiquá”. Eu, do meu lado, acho-os sensíveis, imaginativos e espertos. Não esperto no sentido de enganador, como se diz do jogador de futebol que ludibria o árbitro. Não esperto no sentido do guri, ou da guria, que engana o pai e a mãe dizendo que vai dormir na casa da amiga (o) e cai na vadiagem. Não esperto no sentido do político que gasta na campanha muito mais do que a soma de todo o salário que ganhará durante o mandato, sabendo que a teta pública é como a ponta de um iceberg, ou seja, o salário declarado é quase que uma gorjeta. Não esperto no sentido do empresário que apesar de andar de iate, recebe restituição do imposto de renda. A esperteza dos bichos é muito mais nobre. Falemos dos bovídeos.



     Outro dia, Bibigul deu-me uma aula de cidadania. Trata-se de uma terneira com seis meses. Leva esse nome em consideração a uma personagem do livro O Livreiro de Cabul. A matrona comia desesperadamente. E a minha Bibigul não é diferente. Sabendo que sempre lhe dou alguma comida especial, toda vez que ela me vê caminhando pelo pasto, dispara em minha direção. Os olhos da quadrúpede chegam dois metros na frente do corpo. É de assustar quem não a conhece. Quem a conhece gosta. Como dizia Chico Buarque, “Amo tanto e de tanto amar, acho que ela é bonita”. No entanto ela me lembra um coco-da-baía e um serrote embrulhados num jornal. Jipão detesta a coitada. Jipão é o nome de outra bezerra. Tem esse nome devido aos peitos exagerados que tem, apesar de ainda não ter feito o primeiro aniversário. O que tem a ver Jipão com mama grande? É uma história que contarei outro dia.


     Jipão e Bibigul têm os mesmos direitos no sítio. Jipão, entretanto, acha-se privilegiada. Deve ter a mentalidade daquele motorista que acredita que pode passar na frente de todos os carros que estão na fila do engarrafamento. Quando ela percebe a presença de Bibigul, corre para lhe dar cabeçada. Na hora que ganham ração, nem se fala. E foi numa dessas horas que Bibigul mostrou o que é ser cidadã. Ela estava comendo. Jipao veio babando para agredi-la. Bibigul esperou a aproximação e “pá”. Deu-lhe um coice no meio da cara. Jipão ficou desnorteada e saiu de banda. Bibigul, calmamente, exerceu o direito de comer. Entendi que entre eles a cidadania é conquistada, não vem de “mão beijada”. Pois, é.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Até amanhã

     Estou escrevendo esta crônica às 21h45. É véspera de ano, como diz a minha mãe. Daqui a pouco mais de duas horas estarei em 2011. Hoje de manhã joguei futebol na AABB, a última pelada do ano. Depois vim à praia. Almocei e fui subi para a varanda. A rede me esperava. Um livro foi grudado em minha mão. O vento sul obrigou-me, apesar do sol que brilhava, a me enrolar no cobertor. Só desci na hora de começar a Corrida de São Silvestre. E vibrei, evidente, com a vitória do brasileiro Marilson. Às 18h30 fui à praia. O sol ainda queimava. Tava difícil de caminhar por entre os viventes esparramados na areia. Depois de dez minutos andando rápido, contagiado, talvez, pelo clima da corrida que assistira, iniciei minha corrida. Quarenta minutos na areia fofa. Às 19h30 já estava de volta. Um banho.


     O barulho dos rojões me incomoda e indica a chegada do ano novo. Para mim, não é uma data especial. Já foi, confesso. É interessante como algumas pessoas, e eu sou uma dessas, mudam a forma de pensar ao longo dos anos. Muitos conhecidos meus juram que não mudam. E argumentam que o dia 31 de dezembro é um dia especial por diversos motivos. Para ser sincero, acho uma tolice da parte deles, mas fico calado. Como disse o tcheco autor de A Insustentável Leveza do Ser: “Quando o coração fala, não é conveniente que a razão faça objeções”. Nesse caso recolho-me a minha insignificância de um sem- coração. Sei, entretanto, que amanhã, quando eu acordar, ouvirei os noticiários falando sobre os mesmos políticos que meteram a mão no meu bolso no ano passado. Terei que ouvir as mesmas porcarias vindas dos potentes sons de alguns carros cujos motoristas insistem em empurrá-las nos ouvidos de quem passa.


     A única coisa, para ser bem sincero, marcante nesta noite, é que depois dela só precisarei de mais 10 dias para pegar o vôo com destino a Natal. E nesse caso, a noite do dia 10 de janeiro será infinitas vezes mais importante do que a de hoje. Mesmo assim, aos de bom coração desejo um abençoado 2011. Aos que me enchem o saco, peço que aproveitem a data para prometerem a si mesmo que pegarão mais leve. À você, paisano, que lê de vez em quando minhas crônicas, até amanhã. 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Duas sungas e um maiô

     Passou em disparada. Não devia ter mais do que cinco anos. Descaço, sem camisa, usava apenas uma sunga verde. A boca aberta só fazia berrar. Parecia ter sido predestinado a ser tenor. Até agora, o choro do danado reverbera em meu escutador de forró. Dez segundos depois, apareceu a mãe. Na mão direita, alguns brinquedos daqueles que as crianças gostam de usar para fazer piscinas na areia da praia. Na esquerda, uma espécie de esteira, daquelas que as mulheres adoram estirar na areia para, em seguida, prostrarem-se e esquecerem-se do mundo. E só abrirem os olhos se passar outra mulher perto precisando de uma inspeção. Os olhos denunciavam sua ascendência asiática. Caminhava olhando para o chão. Não sei se para não cair ou de vergonha de não ter o mínimo controle sobre um filho tão pequeno. Quase pisando nos calcanhares da mulher, veio o pai. Aquele famoso barriga de nós todos. Assim como o guri, vestia apenas uma sunga. Em uma das mãos, uma cadeira de praia. Na outra, um isopor. Ainda ouvi ela grunhir: “Não grite, filho”. Foi um combustível nas cordas vocais do rebento.



     Fui forçado a interromper minha leitura. Do alto da varanda, onde eu estava espichado na rede lendo Milan Kundera, fiquei observando a família de veranistas. “Poxa vida”, pensei, “são quase duas horas da tarde. E nesse caso o guri deve até ter razão em chorar tanto. Deve estar com fome”. Aí escutei o homem berrar: “Você vai ter que almoçar, sim. Caso contrário, não vai à tarde para a praia”. Aí minha dúvida aumentou. Não quanto ao chororô, mas quanto à cabeça baixa da senhora. “Afinal, ela anda cabisbaixa envergonhada com o comportamento do piá ou com o jeitão do marido?”. No fim da tarde, quando fui caminhar, vi o trio na beira do mar. A mulher esparramada na esteira e o pai reclamando com o menino: “Você já chupou três picolés; não vou comprar mais”. Ao que o pimpolho respondeu: “Se não me der eu vou embora”. Preferi não assistir o desfecho da contenda. Mais tarde, quando eu já estava em casa, eles regressaram. Os dois bebês de sunga e a senhora de maiô. Ê, verão.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Papai Noel maranhense

     Memórias das Minhas Putas Tristes. Esse é o livro. Há quem diga que a obra está no topo das mais lidas pelos políticos brasileiros com idade acima dos 70 anos. Não pela reflexão que o personagem nonagenário de Garcia Marquez faz sobre a vida, e sim pelas putas. Putas tristes, putas felizes ou seja lá qual for o tipo de comportamento que apresentem. Sheid, meu cachorro, que há tempos estava fora do nosso planeta, com medo do efeito estufa, elegeu o deputado Pedro Novais como legítimo representante dos anciãos dados ao baixo meretrício. O político maranhense promoveu uma orgia em um motel da capital brasileira do reggae. “Eram vários casais, várias pessoas, e nós cobramos por casal”, explicou a gerente do estabelecimento. E acrescentou: “era um dos quartos mais caros; já que tem piscina, banheira, sauna, tudo isso”. Deputado desde 1983, ex- auditor fiscal do Tesouro Nacional e advogado, o raparigueiro botou a despesa na conta da Câmara. Vacilou.



     No início do mês natalino, o Papai Noel da putaria foi indicado para assumir um ministério no governo Dilma. Aí a cueca caiu. Os inimigos políticos do piá, acostumados às “práticas republicanas” e pós-graduados em sacanagem, denunciaram, por pura inveja, o ancião da luz vermelha. Ou você, paisano, acha que só agora o delito foi descoberto? Claro que não, não é? Nossos homens públicos sabem direitinho como, quando e como roubar o erário. Na hora que resolvem ferrar um colega, é muito fácil. Tem gente dizendo que o Sr. Novaes é inocente, as putas é que são culpadas de terem seduzido o vovô maranhense. Ouvi um cidadão dizer que a festança no motel, paga com o dinheiro público, foi uma palhaçada. Aí eu sou obrigado a discordar. Por favor, senhoras e senhores, não vamos envolver Tiririca nesse mar de camisinhas.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Vamos desinfetar a Daniela

         O verão chegou ontem. Digo e provo. Pelo menos aqui, em Floripa, foi ontem que ele deu as caras. E era por volta das 17h. Como é que posso provar? Ora, ora, com meu testemunho. Acostumado que fui, desde pequeno, com as quentes águas do meu Nordeste, só tomo banho de mar em Florianópolis quando a estação do calor aparece. No último verão catarinense, que durou cerca de 20 dias, entrei na água salgada pelo menos em 15 deles. E ontem, paisano, após minha caminhada vespertina pela praia da Daniela, o calor me empurrou para a ponta do atlântico do balneário. É bem verdade que a água não tava quentinha, mas deu para o gasto. O verão chegara.



         O que não deu para o gasto foi o furdunço em que se transformou a areia do lugar. Há poucos anos – cinco é um bom parâmetro – eu costumava dar minhas corridinhas por entre as famílias que frequentavam o pedacinho do céu entre os mortais. Ontem, no primeiro dia do meu verão, mal pudemos caminhar. Em determinados momentos, tivemos que fazer fila indiana para passar por entre os guarda-sóis, barracas e barracões. Sem falar nos vendedores ambulantes, nos banhistas e nos solistas. Por “solistas” entenda aquelas pessoas que, fascinadas com o fulgor do astro-rei, espicham-se sobre toalhas, cadeiras ou coisas do gênero e põem-se a torrar. Eu, Denise – minha mulher – e meu sobrinho Thiago, tínhamos que cuidar para não atropelar as tantas bundas que dominavam a paisagem. É de admirar o quanto as senhoras não cuidam dos seus traseiros. O passante é que precisa ficar atento para não causar uma crise no patrimônio alheio.


         Uma coisa, entretanto, Fez-me mudar o humor: a quantidade de maconheiro na areia. Digo “maconheiro” porque sei que os usuários da marijuana detestam de serem chamados assim. É como o tomador de álcool; podem xingá-lo de qualquer coisa, menos de bêbado. Teve uma hora em que fui obrigado a respirar a catinga da droga. Os clientes dos traficantes aproveitam o descaso policial e fazem seus cigarros na frente de todo mundo. Você não verá, paisano, um único policial na praia. Traficantes e usuários aviltam a lei e o direito dos demais cidadãos na maior cara de pau. Vou mandar emails para as igrejas evangélicas pedindo que elas venham espantar os maledetos. Ah, sim, bastará um grupo de jovens cantando, tocando violão e falando de Cristo. Os maconheiros não suportam religião. Será a campanha “Vamos desinfetar a Daniela”.


PS: Antes que me incomodem, o "desinfetar" não se refere às pessoas, mas ao mal cheiro provocado pela fumaça.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Fora, filho de Deus

Hoje é Natal. E com a data, vieram os presentes. Comércio em alta. O povo nas ruas. Mas acima de tudo, felicidade. Eu, por exemplo, ganhei um binóculo potentíssimo, um vinho do Porto e um violão de 12 cordas. Saí no lucro. Por mim, podemos comemorar a festa de Noel de dois em dois meses. Meu sobrinho Tiago foi quem trouxe o instrumento musical. “Achei que combinava com o sítio e comprei para o senhor”, disse-me. Ganhei, certamente, uns quilinhos a mais, depois da comilança que a festa pede. As comemorações pelo aniversário do bom velhinho estão a cada ano mais animadas. Salve o dia 25 de dezembro. O abençoado dia em que na Groelândia, na Polônia ou em outra geladeira qualquer, nasceu Papai Noel.


É bem verdade que alguns religiosos tentaram, mas não conseguiram, colocar o menino Jesus no meio dessa parada. O tempo mostrou que a data era, de fato, do colorado barbudo. Cristo é, sabidamente, carta fora do baralho. Também não tinha como ser diferente. Aquele discurso que o Jovem Galileu apregoou, de fé, amor e simplicidade, não tem nada a ver com o espírito natalino. Ora, ora, o Natal exige dinheiro, dívida e diversão. Jantares com mesas fartas, bebidas e, mais tarde, uma balada. Se der, depois um motelzinho. Fora, filho de Deus, na festa de Noel você não tem lugar.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Neymar, o homem do ano

         Já percebeu, amizade, como as pessoas gostam de frases bonitas? "É melhor só do que mal acompanhado", por exemplo, todo mundo repete, embora muitas vezes estejam rodeados de praguinhas. "Melhor é servir do que ser servido", é outra pérola que estou cansado de escutar vindo da boca de pessoas que são incapazes de dar um pão a um doido. Ontem minha mulher ganhou um livreto com essas preciosidades. Enquanto eu jantava ela ia lendo cada uma. Confúcio, Gandhi e Dostoiévsk foram citados. Sinceramente, achei uma baboseira. Discordei de quase todas, ou pelo menos remendei algumas. Dane-se o que eu acho das idiotices contidas no exemplar, o importante é que vende pra caramba. E se dá dinheiro, paisano, é sucesso. Como Neymar, jogador de futebol do Santos Futebol Clube. O rapazinho foi eleito por uma famosa revista como sendo o homem do ano. Quando vi a notícia achei um disparate. Ora, o rapaz é, sabidamente, mal-educado. O treinador do Santos que ousou repreender o mocinho foi demitido sumariamente. Porcarias de frases, porcarias de eleições.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A raposa, a sacanagem e o lobo

          Pode me chamar de grosso, pode me chamar de babaca e até de idiota, como já fizeram alguns anônimos, mas não me chame de ignorante, porque um leitor contumaz não merece tal pecha. E desde minha mais tenra idade entendi o que significava a expressão “raposa cuidando do galinheiro”. Não precisei ler A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Muito menos A República de Platão. Pornopolítica, de Arnaldo Jabor, nem sonhava em ser publicado. A palavra sacanagem ainda era considerada um palavrão e indigna de ser pronunciada por gente de bem. Os artistas da banda baiana Leva Nóiz talvez nem fossem nascidos; nesse caso, o hit “a sacanagem é comigo, é comigo mesmo”, com suas duas notas musicais – sol menor e ré – não embalava os festeiros da boa terra. Uma coisa é certa, o governador eleito de Santa Catarina, Raimundo Colombo, já “sartava” nesse mundo de meu Deus. Só não sei se, como eu, ele conhecia a famosa frase. Explico.

          Na última segunda-feira, o eleito divulgou alguns nomes que comporão seu governo. Entre eles, um chamou-me atenção. Trata-se de Dalmo Claro de Oliveira, presidente da Federação das Unimeds de Santa Catarina desde 1999. Dalmo será o secretário de saúde do Estado natal de Guga. E eu pergunto: “Colombo, meu filho, o que é isso?”. Ora, ora, paisano, a Unimed é uma empresa. O objetivo de uma empresa é o lucro. E como ela obtém o tal lucro? Aumentando o seu quadro de associados, lógico. Pensando bem, Colombo tem razão. Dalmo poderá, com o mínimo de esforço, resolver o problema da saúde de Santa Catarina. Já imaginou, simpatia, o povo adquire plano de saúde da Unimed e desafoga os hospitais públicos. Fantástica solução, Colombo. Mesmo assim, para muitos, isso não passa de uma manifestação clara da sabedoria popular: “É a raposa cuidando do galinheiro”, advertiu um amigo meu profissional de saúde.

          Teve uma amiga minha que me perguntou: “E se o Dalmo entregar o cargo na Unimed?”. Aí eu acho que o ditado popular vai mudar para “lobo em pele de cordeiro”. É mole ou quer mais?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A dor do bad boy

          Gente, o corno precisa ser respeitado. E quero, antes de mais nada, fazer uma confissão: hoje não observei o direito de um chifrudo. Eu estava pilotando minha motoca quando escutei um barulho agudo, como se fosse de um liquidificador amplificado. E eu, que ultrapassava um caminhão, mal tive tempo de olhar de lado. Veio uma moto em altíssima velocidade, meteu-se entre eu e o cargueiro e zummm. Freou mais à frente, fez novas e arriscadas ultrapassagens e sumiu. Abri o bocão e disse-lhe uns desaforos. Arrependi-me, entretanto. Lógico; fiz errado. Errado, não, erradíssimo. O cara para dirigir daquele jeito, todo imprudente, só sendo galhudo. E o coitado não estava nem aí com a segurança dele. Ele só se preocupava, não tenho dúvida, com o flagrante que queria dar. De certo ele foi avisado que a mulher estava com o Ricardão e saiu em disparada para pegá-los com a boca na botija.

         Aquele motoqueiro, paisano, tinha o direito sagrado e venerado que todo cabrão tem. O direito de esquecer o mundo e vingar o enfeite que colocaram na cabeça dele. Nesse caso não importa se ele está de moto, de carro ou de bicicleta. Vai dirigir tresloucadamente pondo em risco a vida dos demais guiadores. Precisamos, simpatia, compreender o momento do galhudo. Portanto, faço um pedido, quando você vir um bobão “costurando” no trânsito, tente entender. É a galhada cobrando o preço. E falo assim porque um policial amigo meu parou um Audi-A3 fazendo manobras perigosas e ouviu do rapaz a seguinte justificativa: “Seu guarda, o senhor não me leve a mal. Uma colega minha acabou de me ligar dizendo que minha namorada está na praia com outro. Eu quero pegar os dois, seu guarda”. O militar, sensibilizado com a dor que escorria dos olhos do bad boy, não aplicou a multa, embora tenha pedido para ele maneirar no acelerador.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Eu devia estar contente

          O telefone tocou novamente. À semelhança da canção de Jorge Bem, atendi e não era o meu amor. “Alô, é o senhor Gilead Maurício?”, perguntou a voz do outro lado. “Sim, pode falar”, fui educado. Digo fui educado porque o certo era ele se identificar primeiro e depois indagar se era, de fato, eu. Tudo bem, prossigamos com o telefonema. “Estamos ligando para confirmar o exame de rotina com doutora Fulana de Tal, conforme já havíamos agendado com o senhor”, lembrou-me a voz. “Ok, estarei lá”, tranqüilizei-a. Fui, conforme o combinado.

          Cheguei ao consultório e fui atendido por um médico que fez de tudo para que eu me sentisse confortável. “Agora vamos verificar sua pressão”, disse após alguns minutos de puerilidades. Depois verificou peso, altura e auscultou meu bombeador de sangue. “O senhor é um jovem senhor muito saudável, seu Gilead”, constatou e repassou-me à médica Fulana de Tal. Eu acabara de passar pela fase um. Nem quero falar sobre a fase dois. Até porque, foi tudo tranqüilo. A frase dita pelo primeiro médico fora suficiente para atingir meu espírito, alma e ego. “Quer dizer que eu sou um jovem senhor saudável?!”, murmurei sob o capacete, enquanto acelerava a motocicleta.

          Toda a realidade do tempo desabou sobre minha negra cabeleira. Tempo que é mais forte do que a morte. Mais duro do que o ciúme. Mais insensível do que um filho – e não importa de que filho se trate, nem de quem. Quando cheguei em casa, olhei uma foto minha aos trinta anos. Há quem diga que envelhecemos mais e pior nos retratos. “É, talvez o médico tenha razão; sou um jovem senhor”, constatou um cara até então desconhecido que olhou diretamente nos meus olhos pelo espelho do banheiro. Não era aquele mesmo que eu acabara de ver em cima de uma potente motocicleta dentro de um porta-retratos. Tava longe de ser aquele moleque que corria atrás de uma bola de meia nos anos 1970. Não, era um senhor; jovem, mas senhor.

          Eu devia estar contente, como cantou Raul seixas. Afinal, ligam-me para agendar um check-up. Afinal, estou saudável. Afinal posso pilotar minha motocicleta. Afinal, consigo jogar meu futebolzinho duas vezes por semana. Afinal posso me refestelar com páginas de autores consagrados. Mas não estou. Estou desconfiado. Ressalto que não estar contente não significa estar triste. Assim como não torcer pelo Vasco não significa ser flamenguista. Ainda bem que no dia 11 de janeiro vou a Natal passar três semanas. Verei meus pais e verei minha linda e adorável Gabriela – meu presente dado por Deus. Quem sabe se até lá o tempo não desfaz essa má impressão que me causou.