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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Polícia transgressora?!

     Tá no artigo 20, I, do Código de Trânsito Brasileiro: Compete à Polícia Rodoviária Federal, no âmbito das rodovias e estradas federais, cumprir e fazer cumprir a legislação e as normas de trânsito, no âmbito de suas atribuições;”. É que em um Estado de Direito, o Estado deve respeitar as leis que ele próprio cria.
     Tá no artigo Art. 22. "Compete aos órgãos ou entidades executivos de trânsito dos Estados e do Distrito Federal, no âmbito de sua circunscrição: I - cumprir e fazer cumprir a legislação e as normas de trânsito, no âmbito das respectivas atribuições;

Agora, paisano, dê, por favor, uma olhada na foto abaixo:



Vamos aproximar um pouco mais:



     Olhe onde a viatura policial estacionou. Eu estava chegando na Receita Federal, no Centro de Florianópolis, e não encontrei vaga para meu veículo; tive que parar longe e ir caminhando até o prédio. Quando cheguei, vi o carro da Polícia se esbaldando em cima da calçada. Acompanhei o sargento que desceu da viatura. Ele entrou no prédio da Receita, pegou uma senha e esperou tranquilamente para ser atendido. O pior de tudo é que o quartel da Polícia fica em frente a Receita. Bastava o fardado ter parado do outro lado da rua - em seu quartel - e atravessado a via pública. Não, preferiu o lado mais fácil, o lado do infrator.

     Que mau exemplo, autoridade

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A realidade não é colorida

A realidade que eu descobri
É bem diferente da que me mostraram
Nos bancos dos jardins.
Onde os artistas contracenam
Em meio a rosas, orquídeas
Violetas e jasmins.
O mundo me sorriu em preto e branco
E pelas ruas das cidades, o que eu vi?
Pedaços de pessoas procurando
Quem sabe ser feliz.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Pânico, a novela e a bunda

Ah, se eu pudesse voar...



Voaria para bem longe.


Fugiria do Brasil.


Fugiria dos deputados, dos prefeitos e do vereador que os traiu.






Daria adeus ao ministro do turismo.


Aquele da orgia no motel.


Iria trabalhar para o Julien Assange.


Mesmo que para isso eu tivesse que fugir das gangues.






Imagino-me livre desse cabaré.


Que graças à gente de bem como o Sarney está em pé.


Vejo-me dando adeus a essa TV imunda.


Que tem como ponto forte o Pânico, a novela e a bunda.






Ruas alagadas, nunca mais.


Ladrão saindo pelo ladrão, jamais.


Passaria uns dias na Itália.


Na Itália, não, pois rima com canalha.


 
 
E Berlusoni se esconde por lá.
 
Pense num rapaz desmoralizado.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Nízia Floresta não é a burguesia, mas fede

     Vamos supor que vossa senhoria seja convidada a votar na performance de alguém. Chega às vossas mãos uma ficha contendo três opções para você optar por uma: ótimo, bom e regular. Acontece que você achou o desempenho algo assim... sofrível, horroroso, uma lástima. Como é que você vai fazer para opinar? Se marcar ótimo, estará mentindo; se assinalar bom, também; optando por regular, nem assim estará dizendo o que pensa. E agora, José? Pois foi assim que me senti ao acessar o site da prefeitura municipal de Nízia Floresta, cidade localizada a 35 quilômetros de Natal/RN. Vi uma enquete onde o internauta poderia avaliar a administração da prefeitura. E grifo “prefeitura” com p minúsculo porque não tenho um p menor. As alternativas eram exatamente as mesmas que relacionei acima. Gente do céu, eu estive lá. É uma tristeza. O prefeito, conforme servidores públicos me confidenciaram, “só aparece na cidade uma vez por semana”. Fiquei horrorizado e perguntei a um funcionário: - Mas o prefeito não mora aqui?- E ele ironizou: - Ta brincando rapaz, ele só frequenta esta cidade no ano da eleição.



- Qual o salário do prefeito?- perguntei.

- Não posso dizer não "sinhô". – respondeu.

- Mas essa informação é pública -, retruquei.

- Ah, é? Então... é doze mil –



     Nossa senhora das botijas escondidas! O camarada recebe uma dinheirama dessas por um emprego e não precisa comparecer ao local de trabalho?! A cidade tem um litoral de praias belíssimas, as casas de veranistas multiplicam-se como formigueiros. Imagine, seu moço, o quanto a prefeitura arrecada de IPTU! A menos de vinte quilômetros distante da praia, esconde-se a pequena sede do município. As ruas são fétidas. Os esgotos correm por cima da pavimentação. O município tem 23 lagoas e abastece várias cidades do Estado potiguar. Mesmo assim, o lençol freático fica à mercê de pútridas lamas que serpenteiam pelo meio das ruas. Ora, ora, amado mestre, pois não é que o prefeito asfaltou certas ruas e deixou de fazer o saneamento básico? Ouvi falar, mas não creio que seja verdade, que o prefeito, que está no quarto mandato, é engenheiro. Não, não creio que um engenheiro seria tão irresponsável. O lugar da cidade melhor cuidado é o cemitério. Verdade, é limpo, pintado, e parece pronto a receber aqueles que não suportarem a catinga das ruas. Agora, vamos combinar, o cara ser prefeito de uma cidade e não ter coragem de morar nela, já diz tudo.


As barracas da feira são emolduradas pelos esgotos

A falta de esgoto permite que a frente da escola fique assim

Ainda bem que a tela não reproduz o cheiro

Bem vindo ao cemitério


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Édipo sem complexo

    Quem nunca ouviu falar no Complexo de Édipo? Quem não conhece o tal complexo, de certo tem ideia de quem seja Édipo. Um bom leitor tomou conhecimento do “pé inchado” – significado, em grego, do nome Édipo – certamente por intermédio da Odisseia de Homero, ou pela leitura de uma obra de Sófocles. Um brasileiro autêntico, sabe alguma coisa do rapaz porque assistiu a uma novela da emissora de Roberto Marinho. E se você, amizade, é admirador de Sigmund Freud, é sabedor da interpretação que a psicanálise freudiana concebeu ao episódio mitológico. Nem novela Global, nem elucubrações libidinosas do famoso austríaco me interessam. Importa-me, mesmo, é a atitude de Édipo ao descobrir que desposara a própria mãe: vazou os próprios olhos e fugiu de Tebas.

     Resumindo a história: Édipo era filho dos reis de Tebas, Laio e Jocasta. Laio foi informado, através do oráculo, que o menino o mataria e casaria com a própria mãe. Não teve dúvidas, mandou que o pimpolho fosse abandonado em um bosque, pendurado pelos pés, para morrer à míngua. Encontrado por pastores, Édipo foi levado a Corinto e adotado pelo rei Políbio. Cresceu sem saber nada sobre seus genitores. Mais tarde, ao ser chamado de filho postiço de Políbio, deixou Corinto. Em sua viagem, teve que duelar com um homem que não sabia quem era. Matou Laio. Chegando a Tebas, desvendou o segredo da Esfinge que atormentava os tebanos e recebeu como prêmio a mão da bela viúva de Laio. Depois de alguns anos, soube que Jocasta era sua mãe. Édipo, então, vazou os próprios olhos e se foi de Tebas.

     A atitude de Édipo, passada batida por muitos, que me chama a atenção é o código de ética dele. Hora, paisano, Édipo não cometeu crime algum quando casou com a mãe. Ele não sabia de quem se tratava. Jocasta foi um prêmio que ele, como benfeitor dos tebanos, recebeu. Mesmo assim, sentiu vergonha. Ele não fez nada de ilegal; sentiu-se, entretanto um imoral. Ontem um deputado americano, Christopher Lee, renunciou ao cargo na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Não roubou, não matou e nem cometeu crime previsto em lei. Foi, contudo, imoral. E renunciou. Bem que nossos homens públicos, como José Dirceu, Antônio Palocci e Pedro Novaes – ministro do turismo que fez uma orgia em um motel maranhense e botou a conta para a câmara pagar -, só para citar alguns, poderiam aprender com Édipo e fugir para o Afeganistão.



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Hê, boi

     Vou te falar, paisano: se tem um ser civilizado no planeta, esse tal é o boi. E quando falo boi, não me refiro ao touro castrado. Não. Isso é para quem é mais conhecedor da lida campeira. Boi, no caso deste post, é o macho da vaca. Aí tem o boi grande, o boi pequeno, o boi cargueiro e o boi de corte. É tudo boi, entretanto. É como homem. Quando se fala em homem não tem essa de heterossexual, homossexual ou torcedor do Flamengo. Homem é homem, como diz o filósofo e cantor cearense Falcão. E boi é boi, independente da crença. A verdade é que o quadrúpede é exemplo de civilidade. Ex-pli-ca-rei.


     Olhe, simpatia, uma fila de chifrudos. Eles seguem em passo cadenciado, um após o outro na direção escolhida. Você não verá, nem que a vaca tussa, um boi abestalhadamente parar e atrapalhar os demais. Nada disso. Tu não verás, amizade, um deles no meio de um movimentado calçadão parar abruptamente para observar uma vitrine e quem vir atrás ter que esperar o que o maluco, ou a maluca, quer fazer. Com o boi não tem isso. Um não atrapalha o outro. Um boi não atravessa uma frenética rua com o celular na orelha esquerda. Ele sabe que pode criar problemas para seus pares.

     Aprendo, cada dia mais, com os bois. Já pensei, juro que pensei, em sugerir a um deputado federal que eles façam um curral em frente ao Congresso. E vou dar a ideia aos vereadores para criarem um projeto de lei obrigando todos os estudantes da rede pública a visitarem regularmente uma fazenda. Só assim poderemos atingir um estágio satisfatório de civilização.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sarney, o matador

     Sarney comandará o Senado brasileiro por mais um mandato. É o quarto. Zé do Sarney, como era conhecido ao iniciar a vida pública no início da década de 1950, é, sem dúvida, o homem certo para o cargo certo. Um leitor mais ácido diria: "Todo Senado tem o líder que merece". José Ribamar Ferreira de Araújo Costa nasceu em Pinheiro, Maranhão, em 24 de abril de 1930. Como fazem muitos filhos de "nobres", pegou carona no nome do pai. Passou a assinar como José Sarney. O pai do herói chamava-se Sarney de Araújo Costa. Isso me lembra as tantas oligarquias que se perpetuam na administração do dinheiro do contribuinte brasileiro. Os Alves, no Rio Grande do Norte; os Bornhausen, em Santa Catarina; Os Carneiros, em Alagoas; e os Neves, em Minas, que investem pesado na busca do trono da Nação - vem aí, Aécio. Sarney é um escolado. Sim, senhor. Conhece, como ninguém, os partidos políticos tupiniquins. Jogou em todas as posições. Foi juniores do PSD, subiu ao profissional na UDN, jogou de centroavante na Arena e foi eleito "o melhor do brasil" (com letra bem minúscula, mesmo) atuando pelo PMDB.
     Um artilheiro nato, diriam os mais futebolísticos. Um matador, afirmariam os mais exaltados admiradores do esporte Bretão. Sendo ele quase dono do Maranhão, e estando o Estado natal do moço com IDH semelhante aos dos mais pobres países africanos, constato: realmente, Sarney é um matador. "A César o que é de César", como disse Jesus Cristo, Zé do Sarney é um ícone da democracia verde-e-amarela. E assumirá a direção do Senado por ter sido escolhido pelos colegas de profissão. Tudo bem que por onde eu passo escuto o povo dizendo impropérios contra o clã Sarney, mas isso não conta. Afinal de contas os Senadores gastaram muito dinheiro para assumir uma cadeira na casa e precisam de conchavos para fazer valer o retorno do investimento. Ao povo bastou votar. E fez isso de mãos desamarradas. Se bem que alguns receberam R$ 20,00, o que não deixa de ser uma algema. Claro que qualquer Senador dirá que não comprou voto, que é um homem honesto e que está lá para defender os interesses da nação. Como reza o aforismo: "Me engana que eu gosto". Só me resta bater palmas para Sarney e seus comandados. Eu, do meu lado, vou desligar esse laptop e assistir Ali Babá e os 40 ladrões, quem sabe assim esquecerei nossos políticos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O salário do palhaço

     Há pouco, recebi um email informando o valor que o deputado Tiririca vai custar aos cofres públicos.


Salário: R$ 26.700,00

Ajuda Custo: R$ 35.053,00

Auxilio Moradia: R$ 3.000,00

Auxilio Gabinete: R$ 60.000,00

Despesa Médica pessoal e familiar: ILIMITADA E INTERNACIONAL (livre escolha de médicos e clinicas).

Telefone Celular: R$ ILIMITADO.

Ainda como bônus anual: R$ (+ 2 salários = 53.400,00)

Passagens e estadia: primeira classe ou executiva sempre

Reuniões no exterior: dois congressos ou equivalente todo ano.
Aposentadoria: total depois de oito anos e com pagamento integral.
 
     Achei interessante como a mensagem foi redigida. Interessante é força de expresão. Achei mesmo foi ridícula. Ué, Tiririca é o único parlamentar que mamará na teta robusta da Nação? Gente do céu, quem votou no palhaço o fez por revolta. Ou tem algum quadrúpede que pensa diferente? Aí vem um engraçadinho criticar quem votou no circense, enviar mensagens detalhando o salário de Tiririca e ridicularizando eleitores e eleito. Até parece que Tiririca é o responsável pelas mazelas que infestam o Brasil. Não, paisano. Todos os deputados brasileiros ganham o mesmo. É por esse motivo que eles investem cifras astronômicas para chegarem aos cargos públicos. Ou você acha que a política é um sacerdócio? Ou você pensa que o empresário - para citar uma categoria - gasta uma fortuna na campanha para, depois, ajudar o povo? Fala sério, jacaré. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, a mecânica da política é a mesma: investimento pessoal. Agora, vamos combinar, se os deputados ficassem saciados com a dinheirama acima detalhada, seria, dos males, o menor. As falcatruas que eles fazem para beneficiarem A ou B, a sujidade como votam emenda e os assaltos ao erário é que fazem nosso país sangrar. E isso, meu bem, não é coisa de palhaço, é de bandido.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Belezas do Rio Grande do Norte


Barra de Cunhaú


Aposentado? Fala sério


Muito preocupado com a crise no Egito


Até que é um bom lugar para se bater papo


Na hora do almoço? Rsrs


Praia de Sibaúma





Praia de Camurupim



Praia de Tabatinga



Rendeira em Tabatinga








sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Danem-se, miseráveis

     As construções precárias, algumas de pau-a-pique e chão batido, parece terem sido projetadas pelo mesmo arquiteto que fez os hediondos círculos retratados pelo florentino Dante Alighieri em sua Divina Comédia. Um pedaço de inferno no Nordeste de um Brasil tão rico. Raríssimas são, quase que num contra senso, as casas em que o céu não esteja representado. Em uma delas, duas, noutra, três. Às vezes, cinco anjos de olhos cintilantes e barrigas crescidas por abrigar tantos vermes, brincam sem saber que o futuro é perdição. O que pedem da vida? Quase nada. Uma bola de plástico, quando muito, para dar vazão às puerilidades, ou uma boneca sem braços. Talvez, presentes de um protetor que ceifa-lhes o sopro divino aos poucos – o prefeito. Sim, senhoras e senhores, o prefeito e seus vereadores são os demônios que eliminam quaisquer possibilidades de tais crianças ascenderem socialmente. Roubam-lhes o direito a saúde. Ao invés de sanear o município, e evitar assim a presença de pestes, fazem arremedos de pavimentos que, superfaturados, tornar-se-ão em belas casas de praias, apartamentos luxuosos e carros importados. Oferecem salários de miséria aos professores e atraem, para a nobre função, profissionais desencorajados e também vencidos pela desgraça. A merenda escolar, que para alguns anjinhos é a principal refeição do dia, chega em forma de comida de cachorro. Cachorro de pobre, diga-se de passagem. Por quê? Porque políticos inescrupulosos precisam de filé-mignon na mesa de suas mansões. "Danem-se, miseráveis, o que nos interessa são apenas os votos dos teus pais", gritam pelas ruas quando fazem comícios. Depois, correm para o céu do litoral. Gula, avareza e luxúria lhes esperam – só para citar alguns pecados. Ah, fotografias em jornais, aparições na TV e coisas do gênero acompanham o Manual do Explorador. Não podem, isso não podem, esquecer do próximo dia das crianças. Uma nova boneca de 1,99 e uma nova bola, também de 1,99, aquietarão os filhos dos escravos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Estudar? Que nada!

    A professora de inglês chegou à sala de aula e esperou pacientemente que os adolescentes se acomodassem. A escola de idiomas, uma das mais badaladas do Brasil, é reduto de meninos e meninas vindos de famílias abastadas. Os futuros donos de casa pareciam não se importar com a presença da teacher, e muito menos com o ambiente de estudo. Depois de alguns minutos de carnaval, a ensinadora, agora com a paciência para lá de esgotada, pediu silêncio e contou sobre um email que recebera. A correspondência eletrônica mostrava duas salas de aula – uma nos EUA e outra em um empobrecido país africano. Na escola Americana, os alunos, sentados diante de modernos computadores portáteis, dormiam. Enquanto isso, os africanos, esparramados pelo chão batido de um casebre, escreviam no piso, numa busca desenfreada pelo saber.


     Quando a professora terminou de contar, uma das adolescentes, 16 anos, foi incisiva: “A senhora acha que vai nos sensibilizar com essa história? Compre lápis e envie para eles”. A profissional, sentido o descaso da aluna com o estudo, perguntou se a moçinha não achava que estava rasgando o dinheiro dos pais, uma vez que eles pagavam para ela fazer um curso de idioma pelo qual não demonstrava ter o menor interesse. “Eu já sabem que não quero estudar inglês”. Sabendo que não se deve dar pérolas a porcos, como ensinou Jesus Cristo, a professora ignorou a futura advoga, médica ou empresária e se pois a ensinar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma cidade, um curral?

Terça-feira, 5h da tarde. Estou numa cidade do interior nordestino. Não vou revelar o nome do município em respeito aos seus moradores. É que, às vezes, os habitantes de um lugar sentem-se aviltados quando expomos a nudez do seu torrão. Lembrei do conselho que o meu professor e amigo argentino, Gustavo, deu-me: “Quando for viajar, leva um tênis na bolsa. Todo dia dá uma corridinha para manter a forma”. Venho fazendo isso na medida do possível. Hoje, no entanto, aproveitei o exercício para observar o percurso em detalhes.


Enquanto corria, precisava praticar salto em distância. Era o único jeito de escapar dos esgotos que cortavam as ruas. A água suja parecia o choro de um resto de Brasil entregue a malfeitores. Lembrei do curral dos meus animais e pensei: Eu não deixo o gado andar sobre lama. De fato, no meu sítio, os quadrúpedes são tratados com carinho. O recinto onde dormem e recebem trato é limpo. Não tem, acredite, paisano, cheiro ruim. Cheiro que tive de suportar enquanto corria. Eu morreria de vergonha de ser prefeito dessa cidade.

Vi uma escola fechada. As luzes estavam acesas. Falta um administrador, imaginei. De onde sairá o dinheiro para pagar a conta de energia? Do bolso dos escravos. Escravos que, oprimidos pelo sistema, trabalham de olhos vendados. Não podendo ver, não chegam ao conhecimento. E o conhecimento, sabemos, é uma forma de poder. E o poder, meu caro, os tiranos não querem dividir com ninguém. Que nojo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Delegado agride cadeirante

“Se a vítima não tiver um direito sobre o carrasco, então nao haverá justiça”
                                                                        José Saramago - escritor português

Damásio Marino é o nome dele.

- De quem se trata?

- De um delegado de polícia.

- O que ele fez para merecer ter o nome divulgado aqui?

- Agrediu um cadeirante.

- Por que?

- Porque o paraplégico reclamou com ele.

- E por que carga d’agua um camarada, que nem correr pode, meteu-se a questionar um “homem da lei”?

- Porque o bonitão, que não é deficiente físico, mas porta arma de fogo, estacionara o carro na vaga reservado a deficientes. Anatole Macedo, a vítima, achou-se no direito de pedir explicações ao semideus.

- E por isso apanhou?

- Sim, foi agredido pelo delegado que fez uso da arma para humilhar o cidadão.

- Onde foi que aconteceu essa barbaridade?

- Em São José dos Campos, São Paulo, na última segunda-feira.



    Meu amigo, minha amiga. Você sabe o que vai acontecer com o delegado? Nada. Isso mesmo; nada. “Ele será afastado da função, enquanto durar o inquérito”, dirá o porta-voz da Secretaria de Segurança Pública, recorrendo a uma frase comumente usada em situações como essa – que não são poucas. É a medida comumente adotada pelos donos das armas. Quando a população esquecer – o que não levará duas semanas – o verdugo voltará às atividades costumeiras.

     Aproveito e sugiro que a vida desse delegado seja escrutinada. Sim, porque ele não é, como diz o adágio, flor que se cheire. A Corregedoria tem uma ótima chance de descobrir quem é Damásio Marino. Como disse a rapariga dos óculos escuros de Ensaio sobre a cegueira, “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

 
PS: Para maiores informações sobre o caso, clique aqui.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Uma questão de saúde

"Política e saúde não combina". Quem disse isso foi uma enfermeira de plantão no hospital regional de um Estado nordestino. Para ela, o principal problema desses estabelecimentos são os péssimos administradores dos hospitais. "Eles são colocados aqui por políticos. Não entendem nada de administração, muito menos de hospital". Ela também denunciou que alguns médico não comparecem aos plantões nos finais de semana. "Os pacientes chegam e não tem quem os atenda. Depois o médico apresenta um atestado e fica por isso mesmo", indignou-se a profissional que trabalha no setor público há mais de vinte anos.

Andando por esse Brasil varonil, deparo-me, impotente, diante de pessoas como a enfermeira acima citada. Brasileiros irritados com a impunidade, com o desmando e com a falta de perspectiva para a solução de problemas que corroem o país.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Droga, droga e droga

Aproxima-se da meia noite. O posto de combustível às margens da BR fervilha. Mesmo assim, as bombas não despejam uma gota de gasolina, álcool ou óleo diesel nos tanques dos veículos. A movimentação é no pátio, onde caminhões estacionados servem de trincheiras para traficantes, viciados com narizes eufóricos e prostitutas. O estrago causado à sociedade é impossível de ser quantificado. Um rapaz de 19 anos comanda a boca. Aristeu, chamemos assim o moço, é um velho conhecido da polícia. Vende crak, maconha e cocaína. A mãe dele é falecida. O pai, potiguar, mora com uma pernambucana. O casal não aprova o modo de vida adotado por Aristeu. Jercino, nome fictício do pai, não permite que produtos advindos de roubo ou tráfico entrem em sua casa. “Não aceito vagabundo. Não quer trabalhar honestamente, então não apareça perto de mim”, esbraveja em tom de desabafo.

Por volta das 2h da madrugada, Aristeu chama um taxi. Vai à capital, há cerca de 20 km, buscar uma nova remessa de drogas. Ao ser perguntado se não tem medo de ser pego pela polícia, fala grosso: “Eu vendo para policiais, também. Se acontecer alguma coisa comigo, eu entrego todos eles. Meus clientes, aqui, são, na realidade, os caminhoneiros”. Um rapazola de 17 anos está agachado sob a carroceria de uma carreta. O cachimbo movido à pedra está em frenesi. Seu nome? Messias. É irmão de Aristeu. Quase alheio ao que se passa em redor, sorri quando um passante lhe diz uma pilhéria. Não estuda. Não trabalha. É um nordestino sem esperança de dias melhores. Um brasileiro anônimo. Um filho que morreu para o pai, embora não tenha ciência disso. E que está morrendo aos poucos pela boca. Ninguém faz nada. “Será preciso mais que um ‘messias’, para salvar Messias”, penso entristecido.

“Aqui ta tudo tomado pela droga”, diz Anastácia, madrasta dos rapazes. “Tem ‘minino’ de dez anos viciado em maconha”, assusta-me. “Outro dia, meu marido pegou Messias fumando ‘peda’ e deu-lhe uma surra. Queria fazer ele comer a ‘peda’. Só não matou porque eu não deixei. Eles - Aristeu e Messias - moram num barraco perto da nossa casa. Jercino não quer eles aqui. Mas quando ele sai para trabalhar, eu dou comida a eles. Tenho pena”.

O que contei, vi na periferia de uma capital nordestina. Um lugar empobrecido, onde o dinheiro do meu imposto parece não chegar.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Passeio de buggy pelas dunas

     Quem visita Natal, comete um pecado se não for andar de buggy pelas dunas. O passeio começa às 8h e termina às 16h.





Durante o passeio uma moça gritou amedrontada, devido as manobras "com emoção" que o bugueiro realizava. Ele tratou de acalmá-lá: "Faça como eu, feche os olhos".


O passeio é, antes de qualquer coisa, terapêutico.


Em Natal são quase mil bugueiros credenciados pela Secretaria de Turismo, fazendo passeios pelos litorais sul e norte. Cada buggy leva 3 ou 4 turistas. O almoço na beira da praia ganha um sabor todo especial.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Eita lugarzinho mais ou menos!

O Rio Grande do Norte é, realmente, um bom lugar para se conhecer. Alguns locais do Estado são quase que totalmente desconhecidos por quem não é daqui. Certas praias parecem desertas, mas têm estrutura para receber quem as visita. É o caso de Barra de Cunhaú, distante cerca de 90 km de Natal.





quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Seria o mundo um grande curral?

     Gerineldo ganhou um cincerro. E pelo visto nao gostou do adereço. Talvez aquele “telengo-tengo” que ele escuta, toda vez que mexe o pescoço, seja, realmente desconfortável. Ora, o tourinho nunca tinha visto algo parecido. De repente o adorno barulhento lhe foi imposto. Quem o colocou? O dono, certamente. É aquela mania que as pessoas têm de comandar quem é mais fraco do que elas. E os bois, colegas, apesar da força, são débeis na inteligência. Não fosse assim, o mundo seria um grande curral. Há quem diga que não seja muito diferente, mas vamos deixar isso por conta de cada mente. Os demais companheiros estranharam o ornamento. Ficaram alguns minutos arrodeando o colega, examinando, ao que pareceu, a novidade. Depois, como se faz com tudo que é moderno, recente e desconhecido, deixaram de lado e foram fazer o que mais lhes apraz: pastar. Gerineldo, entretanto, resolveu empenhar-se na missão 2011: tirar o chocalho do pescoço. A tarefa não é das mais fáceis. Vez por outra, ele esfrega o barulhento em uma árvore. Até agora, nada.

     Quando o tratador se aproxima do estábulo, é uma algazarra. Gerineldo se esquece da percussão que carrega e dispara em direção à ração. O olfato, meus caros, é, nos bovinos, assim como nos humanos, o sentido mais sensível. Principalmente quando comandado pelas reclamações das tripas. A fome tolhe o raciocínio dos quadrúpedes. Nada diferente do que acontece com os filhos de Adão. O terneiro, obcecado em satisfazer o desejo da barriga, preocupa-se apenas em se afofar na ração. É de boa paz, o chifrudo. Esse de quem estou contando. Não me refiro a todos os guampudos que conheço, que, convenhamos, não são poucos. E, por ser assim, não dá cabeçada em Bibigul – uma bezerrinha de seis meses que insiste em andar perto dele. Gerineldo não é o tipo que desconta nos outros o sofrimento que lhe caiu nos lombos. Mesmo tomando, vez em quando, umas bordoadas do Pirata - o manda-chuva do pedaço -, não se aproveita de quem é, por natureza, mais fraco do que ele. Ele parece entender que Bibigul não tem culpa no cartório. Por isso não descarrega-lhe o recalque.

     Depois de encher a pança, a porteira é aberta e ele livra-se da opressão do curral. Sua natureza exige liberdade. Não pode, por mais que o estomago peça, limitar-se ao redil. Bibigul o acompanha; Jipão também. Os três são adolescentes. O chocalho, agora, parece não incomodar. O intestino forrado é capaz de proezas que até Deus duvida.






quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Um coice na cara

     Dizem que os bichos são brutos, não pensam e não têm inteligência. Como diz o ditado, “cada quá com seu sarapiquá”. Eu, do meu lado, acho-os sensíveis, imaginativos e espertos. Não esperto no sentido de enganador, como se diz do jogador de futebol que ludibria o árbitro. Não esperto no sentido do guri, ou da guria, que engana o pai e a mãe dizendo que vai dormir na casa da amiga (o) e cai na vadiagem. Não esperto no sentido do político que gasta na campanha muito mais do que a soma de todo o salário que ganhará durante o mandato, sabendo que a teta pública é como a ponta de um iceberg, ou seja, o salário declarado é quase que uma gorjeta. Não esperto no sentido do empresário que apesar de andar de iate, recebe restituição do imposto de renda. A esperteza dos bichos é muito mais nobre. Falemos dos bovídeos.



     Outro dia, Bibigul deu-me uma aula de cidadania. Trata-se de uma terneira com seis meses. Leva esse nome em consideração a uma personagem do livro O Livreiro de Cabul. A matrona comia desesperadamente. E a minha Bibigul não é diferente. Sabendo que sempre lhe dou alguma comida especial, toda vez que ela me vê caminhando pelo pasto, dispara em minha direção. Os olhos da quadrúpede chegam dois metros na frente do corpo. É de assustar quem não a conhece. Quem a conhece gosta. Como dizia Chico Buarque, “Amo tanto e de tanto amar, acho que ela é bonita”. No entanto ela me lembra um coco-da-baía e um serrote embrulhados num jornal. Jipão detesta a coitada. Jipão é o nome de outra bezerra. Tem esse nome devido aos peitos exagerados que tem, apesar de ainda não ter feito o primeiro aniversário. O que tem a ver Jipão com mama grande? É uma história que contarei outro dia.


     Jipão e Bibigul têm os mesmos direitos no sítio. Jipão, entretanto, acha-se privilegiada. Deve ter a mentalidade daquele motorista que acredita que pode passar na frente de todos os carros que estão na fila do engarrafamento. Quando ela percebe a presença de Bibigul, corre para lhe dar cabeçada. Na hora que ganham ração, nem se fala. E foi numa dessas horas que Bibigul mostrou o que é ser cidadã. Ela estava comendo. Jipao veio babando para agredi-la. Bibigul esperou a aproximação e “pá”. Deu-lhe um coice no meio da cara. Jipão ficou desnorteada e saiu de banda. Bibigul, calmamente, exerceu o direito de comer. Entendi que entre eles a cidadania é conquistada, não vem de “mão beijada”. Pois, é.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Até amanhã

     Estou escrevendo esta crônica às 21h45. É véspera de ano, como diz a minha mãe. Daqui a pouco mais de duas horas estarei em 2011. Hoje de manhã joguei futebol na AABB, a última pelada do ano. Depois vim à praia. Almocei e fui subi para a varanda. A rede me esperava. Um livro foi grudado em minha mão. O vento sul obrigou-me, apesar do sol que brilhava, a me enrolar no cobertor. Só desci na hora de começar a Corrida de São Silvestre. E vibrei, evidente, com a vitória do brasileiro Marilson. Às 18h30 fui à praia. O sol ainda queimava. Tava difícil de caminhar por entre os viventes esparramados na areia. Depois de dez minutos andando rápido, contagiado, talvez, pelo clima da corrida que assistira, iniciei minha corrida. Quarenta minutos na areia fofa. Às 19h30 já estava de volta. Um banho.


     O barulho dos rojões me incomoda e indica a chegada do ano novo. Para mim, não é uma data especial. Já foi, confesso. É interessante como algumas pessoas, e eu sou uma dessas, mudam a forma de pensar ao longo dos anos. Muitos conhecidos meus juram que não mudam. E argumentam que o dia 31 de dezembro é um dia especial por diversos motivos. Para ser sincero, acho uma tolice da parte deles, mas fico calado. Como disse o tcheco autor de A Insustentável Leveza do Ser: “Quando o coração fala, não é conveniente que a razão faça objeções”. Nesse caso recolho-me a minha insignificância de um sem- coração. Sei, entretanto, que amanhã, quando eu acordar, ouvirei os noticiários falando sobre os mesmos políticos que meteram a mão no meu bolso no ano passado. Terei que ouvir as mesmas porcarias vindas dos potentes sons de alguns carros cujos motoristas insistem em empurrá-las nos ouvidos de quem passa.


     A única coisa, para ser bem sincero, marcante nesta noite, é que depois dela só precisarei de mais 10 dias para pegar o vôo com destino a Natal. E nesse caso, a noite do dia 10 de janeiro será infinitas vezes mais importante do que a de hoje. Mesmo assim, aos de bom coração desejo um abençoado 2011. Aos que me enchem o saco, peço que aproveitem a data para prometerem a si mesmo que pegarão mais leve. À você, paisano, que lê de vez em quando minhas crônicas, até amanhã.