Utilização do conteúdo

Autorizo o uso do material aqui produzido, desde que seja dado crédito ao autor e não tenha uso comercial

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Se beber, não case! 2 - assista e vomite

     Você pagaria, meu brother, para ouvir uma palestra em que quatro ou cinco homens pregassem escancaradamente que cocaína e outras drogas do gênero deixam a vida mais divertida? Você pagaria para ouvir norte-americanos ridicularizando outros países? Você pagaria para ouvir que nações consideradas pobres, como a Tailândia, por exemplo, precisam de um estadunidense para torná-las mais ordeiras? Você pagaria para ver conterrâneos de George Bush zombando de religiosos budistas? Você pagaria para ver - e daria risada ainda por cima – gente civilizada exibindo um macaco fumante? E se esse mesmo macaco fosse um aviãozinho do tráfico, você aplaudiria? Você pagaria para ouvir um punhado de ianques alardeando que esbórnia, quebra-quebra e desrespeito a outras culturas é uma coisa engraçada? Não?! Pois eu paguei.

     Meio a contragosto, mas paguei. Não só eu, como milhares de pessoas em todo o mundo. E nesse aspecto, louvemos os norte-americanos. Os caras conseguem rir da cara - os caras rindo da cara é horrível - dos não-norte-americanos e ainda os fazem pagar pelos gracejos. E fazem isso no formato filme. Se beber, não case! 2 é uma dessas películas que lotam as bilheterias dos cinemas. Não me tenha por puritano ou algo semelhante. Muito menos como um taciturno incapaz de gargalhar. O filme é uma apologia às drogas, sim. E o faz isso sob a máscara da comédia. Claro que um parvo vai dizer que euzinho aqui não entendeu o “espírito da coisa”. Vai procurar um marido, respondo a esse filhote de demência. Tem mais:

     No filme, um velho monge budista é sacaneado por turistas estadunidenses em plena Bangkok. A capital tailandesa é mostrada como se fosse um antro onde se aninha tudo o que não presta no mundo. É aquela mania que alguns países têm de se acharem o umbigo do mundo e que o resto, ao pé da letra, é puro resto. A bebedeira é mostrada como algo engraçado, inocente e para ser aceita como tempero da vida. A cocaína é retratada como um ingrediente saboroso capaz de deixar o usuário mais descontraído e menos chato. Lógico que vai ter um discípulo de lúcifer me mandando email e me chamando de otário, quadrado, antiquado. “Não sabe nem ver um filme, babaca”, dirá o celerado. O fato é que tenho mais de um neurônio. E são suficientes para me fazerem ver o que está por trás – e até pela frente – de uma película como a que me refiro.

     Paguei, paguei para rir da desgraça. Paguei para rir do grotesco, do bizarro, da incultura. E agora, meu Deus do céu? O que fazer para redimir minha pobre alma? Também não é para tanto, Gile. Já estás arrependido. Chegaste até a escrever esta crônica purgatória. Oxalá Palocci fizesse o mesmo. E que igual fizesse FHC, Sarney, Gilmar Mendes e outros artistas tupiniquins. Na comédia chamada Brasil, o choro das crianças famintas, a morte por descaso na segurança pública e a corrupção endêmica roubariam a cena. Mas ai, em se tratando de roubo, a disputa por melhor ator seria acirrada.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Cruz de Malta é o meu pendão

     Depois de onze anos sem conquistas no cenário nacional, o Vasco da Gama sagra-se campeão da Copa do Brasil 2011. O grito calado dos torcedores vascaínos só largou a garganta depois da última apitada do árbitro. Iludido, o Coritiba até que tentou - contando inclusive com o os pontapés e os socos do atacante Bil -, mas vai ter que esperar. Infinitamente superior, o time carioca fez um gol logo no primeiro ataque e passou a dominar as ações. Em duas falhas da, até então, irretocável defesa, levou a virada. No segundo tempo, contudo, tratou de igualar o marcador. Mesmo sem jogar bem, querendo vencer na base da força, os paranaenses conseguiram o terceiro gol após um desvio mal feito do capeão. Eder Luiz, melhor jogador em atividade no Brasil ontem à noite, ainda entortou três marcadores do Coxa e presenteou Bernardo, mas o moço parou no goleiro Edson Bastos.

Parabéns, Vasco da Gama. Parabéns torcida cruzmaltina. Agora é só aproveitar o Brasileirão para treinar. A Libertadores 2012 já tem um candidato. Resta comemorar com os vencedores:
  
Vamos todos cantar de coração
A Cruz de Malta é o meu pendão
Tu tens o nome de um heróico português,
Vasco da Gama, a tua fama assim se fez!

Tua imensa torcida é bem feliz
Norte e sul,
Norte e sul deste Brasil
Tua estrela, na terra a brilhar, ilumina o mar!

No atletismo és um braço;
No remo és imortal;
No futebol és o traço de união Brasil-Portugal!

No atletismo és um braço;
No remo és imortal;
No futebol és o traço de união Brasil-Portugal!



 


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ronaldo, o pré-sal futebolístico

     Como dizem os serranos: “Se foi, o cascão”. E pronunciam o “se” como tendo um circunflexo sobre o e. Cascão, gordo, gorducho, dentuço, Ronaldo... Nome ou apelido jamais caiu-lhe tão bem quanto o mais famoso de todos – Fenômeno. Quem viu, como eu, o magricelinha jogador do Cruzeiro aprontando suas peripécias enquanto bordava os gramados no seu primeiro campeonato brasileiro, sabia que aquele menino não era só cheio de dentes que mal cabiam na boca. Era um pré-sal futebolístico. Uma certeza de lucros astronômicos para quem nele investisse. E foi o que fizeram os europeus. Levaram nossa jazida – sim, nossa; hoje todo brasileiro sabe que Ronaldo é do Brasil – por uma quinquilharia. Mesmo assim, burilaram o guri e ele veio a ser o maior artilheiro das copas do mundo.

     Há quem diga que a crônica feita por um fã fica sempre sub judice. Ora, dane-se quem pensa assim. Não é porque admiro – é seria um parvo se pensasse diferente – o gordo que vou deixar de escrever sobre ele. Conversando com um colega ontem à noite, ele me espetou: “Não faça a crônica, o texto ficará muito imparcial”. Fala sério, jacaré, desde quando o jornalismo é imparcial? Desde quando o ser humano é imparcial? A imparcialidade é um mito usado por quem quer esconder suas preferências. Você, nobre leitor, tem irmãos, primos, tios, pais, colegas ou coisas do gênero? E entre teus irmãos não preferes um determinado? E entre teus primos não gostas mais da companhia de um em detrimento da de outro? Quando se gosta, paisano, quando se tem preferência, nossos julgamentos passam pelo crivo do coração. E o coração, simpatia, jamais será imparcial. É por isso que muitas vezes ficamos indignados quando vemos a mãe de um criminoso defendendo o rebento. Não aceitamos tamanho absurdo. Coisas do coração, meu caro. Só entendemos quando caímos na mesma trincheira da mãe do transgressor. Voltemos ao cascão.

     Ele jogaria no meu time mesmo com trezentos quilos. Ou os senhores acham que algum time do futebol brasileiro tem um centroavante com a qualidade dele? Jogando pelo São Paulo ele faria – de tanta assistência de Dagoberto -, no mínimo, três gols por jogo. E bastaria jogar, como ontem, quinze minutos. É uma pena o futebol ser tão retrógrado. Tivesse no comando da FIFA pessoas mais evoluídas na arte de administrar, e o esporte bretão seria como o basquete ou o vôlei. O atleta poderia entrar e sair da partida por vezes indeterminadas. Aí o Brasil não teria perdido o Fenômeno tão cedo. Já pensou, cidadão, se o Santos contasse com os preciosos serviços do dentuço? Já poderia considerar-se campeão da Libertadores. O futebol, entretanto, insiste em viver na era das cavernas. Seus dirigentes, atolados em denúncias, estão mais preocupados em salvar a pele e garantir uma polpuda conta bancária. E nós, reles mortais, temos que ficar órfãos de craques. Adeus, Ronaldo, o futebol te deu a glória, o futebol tirou-a. Continuarás, mesmo assim, durante os próximos 45 séculos, sendo o eterno Fenômeno. E quando tiver um campeonato aqui na AABB de Floripa, vou te ligar para seres o goleador do meu time.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Assassinatos no campo

     Fui criticado. Injustamente, diga-se de passagem. Nove. Foi esse o número de emails que recebi de alguns leitores deste blog. Imagine, paisano, que chegaram a me chamar de jornalista ditador. E tudo porque me autonomeei interventor da República Três Platôs. Um camarada mais preocupado com a qualidade de vida dos bovinos alertou-me que está pensando em fazer uma denúncia contra mim na sociedade protetora dos animais. Segundo ele, estou interferindo na ordem da natureza. Ora, ora, como se ele não estivesse usando energia advinda de uma hidrelétrica que, para ser construída, avariou quase que um ecossistema inteiro. “Ah, jacaré, para ter direito a me criticar tens que voltar às cavernas”, respondi-lhe complementando que o modo de vida que adotamos tem alterado drasticamente o meio ambiente. Chateado, mandei que ele fosse procurar um marido, lavar uma louça ou limpar um quintal. E para deixar claro, não pretendo me demitir do cargo que ora assumo. A não ser que meu patrimônio cresça de modo incompatível com o cargo que tenho. Aí, meu chapa, não serei um cara de pau de quilate elevadíssimo para querer justificar batom na cueca. Mas por enquanto...

     Além do mais, a República precisa de mim. Desde que me tornei interventor, a vida dos quadrúpedes melhorou sensivelmente. O campo virou um lugar mais tranquilo para a bicharada. Para se fazer uma comparação, vejamos o que acontece na república brasileira. No Pará – fique de queixo caído -, 98% dos assassinatos no campo ocorridos nos últimos dez anos ficaram impunes. Esse dado é do governo federal. Não me levem a mal, amigos, mas não permitirei que uma lástima dessas aconteça na República Três Platôs. Tendo um grama de vergonha no olho já poderei evitar esse flagelo. Caso eu não o faça, podem ter certeza, aliei-me a grileiros, a fazendeiros que eliminam vidas por um hectare de mata nativa, a madeireiros que não têm limites para a ganância, a policiais e fiscais corruptos – que recebem mais dinheiro quando ficam calados -, a juízes e promotores comprados por caminhões de reais sujos de sangue. Sangue de homens pobres que se puseram contra interesses escusos. A intervenção no Três Platôs vai continuar. Tenho alguns motivos para isso.

     O primeiro deles é que não fui eleito com a ajuda de empresários avarentos. Nenhum dono de empresa deu-me um centavo para a campanha. Até porque não houve campanha. Tivesse euzinho recebido, teria que governar para satisfazer interesses de hienas que não pensam duas vezes antes de abocanhar a riqueza do campo. O segundo é que não estou vinculado a nenhum partido político. Essas instituições, que mais parecem covis, são algemas que aprisionam as convicções de qualquer homem público. Não, não deixarei que a República Três Platôs torne-se um Brasil, onde a anarquia disfarçada reina deitada eternamente em berço esplêndido. Ficarei interventor até que a ordem e a disciplina – fruto da educação – sejam uma realidade consolidada. Que me mandem email, que digam que sou ditador, que me achem cruel. Pior, muito pior, é governar um país com tantos assassinatos no campo e não fazer nada para mudar o panorama.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Uma república se faz com quadrúpedes

     Não teve jeito, a República Três Platôs agora tem um interventor. Eu. Isso mesmo, euzinho em carne e osso – ultimamente, mais carne do que osso. Sim, porque já fui mais osso do que carne. Aquele tipo que para se esconder basta ficar de lado. A magreza, no entanto, não era falta de saúde. Usava a bicicleta como transporte – coisa que hoje acho um suicídio quando feito nas ruas das grandes cidades. Nadava, jogava futebol tocava. E antes das peladas ainda tinha – o professor de artes marciais Nelson Arevallo, de Blumenau, pode confirmar – uma hora e meia de socos e pontapés. O futebol ainda pratico, mas se outrora fui ponta esquerda, hoje limito-me à zaga central. Pontapé ainda dou, basta um firuleiro se meter à besta. Como costumo jogar entre colegas na AABB de Floripa, raramente preciso puxar a peixeira para botar um boleiro para correr. Pedalar, entretanto, está fora dos meus planos. O ciático, esse desgraçado amante dos quarentões, não tolera um selim. Minhas bikes estão semi-aposentadas. São como honestidade em político – só de vez em quando. Em se tratando de natação... zero. Uma braçada ou outra. E no verão. Quanto à música, só na República Três Platôs. Um violãozinho, umas nesgas de queijo e salame. Sem crise, sou interventor.

     A nomeação foi feita por mim mesmo. Aprendi a técnica com os donos do Brasil. Se o judiciário pode, se o legislativo pode, se o executivo pode, eu também posso. Chamei a mim mesmo num canto, e disse: “a República precisa de você, homem de Deus”. Esses quadrúpedes precisam de regras, de um chicote, de um mandatário. Estabeleci meu salário, como fazem nossos magistrados, estipulei minha exígua carga horária, semelhante aos legisladores, e dei-me ao luxo de fazer o que bem entendo, como o executivo. Pronto, fácil assim virei, da noite para o dia, um interventor. E tratei de mostrar aos bovinos como é que se vive. Um balde de ração por dia para cada um. É o famoso bolsa-ração. Quem não me obedece, companheiro, tem que pastar. Pirata, o manda-chuva dos moradores da República Três Platôs, entendeu bem minha política. Parece até que fizemos um acordo. Não que tenhamos feito, evidentemente. Ele ganha, contudo, bem mais farelo que os demais. Como tenho poder de polícia, posso mandar prender e mandar soltar quem bem entendo, Gerineldo anda de cara amarrada pro meu lado. Acha que estou pegando demais no pé dele e deixando Jipão fazer o que quer. O danado entende que, por se tratar de uma república, todo o sistema é corrupto. Ele que não se meta comigo. Sou capaz de forjar provas contra ele e encerrá-lo num curral até o dia dele ir parar num frigorífico.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ei, bonitão, atende o celular

     Digo não ao rejeitar uma chamada do celular. Digo não sem ficar vermelho. Digo não sem me importar com a cara de quem está do outro lado da linha. Digo não com uma insensibilidade maior do que a de um governante que não disponibiliza médico para seus eleitores. Digo não. Digo não com a empáfia de um professor que não aceita reavaliar a nota de um aluno. Digo não antes de ouvir ao menos um olá. Digo não porque tenho na ponta de um dedo, o que aperta a tecla não, o poder. O poder de dizer não. O maior de todos os poderes. Mais destrutivo do que a bomba atômica lançada sobre Hiroshima. Mais violento do que político que rouba merenda escolar de crianças. Crianças essas que muitas vezes vêem no colégio uma chance de encher a pancinha aflita. Ah, o poder de dizer não. Mais forte que o tornado. Esse limita-se a destruir o que está na superfície. O não vai lá dentro, ao âmago da alma. E extrai da raquítica o que resta de vida, de auto-estima, de lucidez. O não do celular é o sim ao desprezo. É o sim ao “vai te danar”. Por isso é inexorável. Mesmo quem não sabe o que significa inexorável pode sê-lo; o não permite. Digo não e tomo um drink. Digo não e grito gol. Digo não e mastigo um sanduíche de frango. Digo não e gargalho. E digo.

     O não do celular. Tem a prepotência de um ignorante. Sabe aquele cara que se tivesse a mínima noção do que fala ficaria calado? O não do telefone é mentiroso, como o candidato que promete o que sabe ser impossível cumprir. O não causa a sensação de poder. Ora, ora, paisano, o poder do não é inatingível. O poder do sim é dele um estafeta. O sim é dos atoleimados, dos desocupados, dos românticos. O sim é dos fracos, dos sensíveis idiotizados, dos zés-ninguém. E o que é o homem, animal? Os dentes não resistem um ano sem ir ao dentista. Vira um caco esburacado. E fedido. Os olhos capengam ante qualquer lusco-fusco. A sapiência escafede ao mirar um rabo de saia, ou uma barriga de tanquinho. A robustez e a beleza viram farrapos à ingestão de um pastel vencido. E o poder do homem é transportado em um caminhão limpa-fossa. Ah, ah, ah. Eis o homem. Eis a beleza. Eis o poder. Eis o não do celular. Diga sim e seja homem.

     Diga sim e tenha força para explicar. Diga sim e escute. Diga sim e lance ao mar o que mais te pesa. Diga sim e jogue-se ao mar. Diga sim e admita a própria impotência – nada é mais humano que esse sentimento. Diga sim e chore. Diga sim e admire-se de não poder sorrir. Diga sim e sinta-se supremo ao menos por dois segundos. Diga sim e ouça o “que bom que você atendeu” do outro lado. Diga sim e seja educado. Ou manda a boa educação que viremos a cara a quem passa por nós na rua e diz “ei, fulano, quero falar contigo”? Diga sim e peça desculpa por não poder conversar por muito tempo. Diga não ao não. Diga sim e tenha um bom fim de semana.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Democracia...rsrsrs

     No sítio quem manda é o Pirata. É o mais velho, o que tem o chifre maior e o mais forçudo. Apesar de ser touro, Gerineldo ainda é um frangote e não tem força suficiente para enfrentar o boi mestiço de Jersey com Charolês. Sendo assim, mesmo castrado Pirata é o presidente da República Três Platôs. Três Platôs é o nome do sítio onde eles vivem, e, apesar de não constar no documento da propriedade, chamo-o de República. E, de fato, é isso mesmo, uma República com todas as letras. Pirata, dando chifrada em um e coice noutro, é o mandatário. Apesar de parecer um amor de animal, vira um Arthur Bernardes quando defende os próprios interesses. Bernardes, lembra dele, aquele presidente da república do brasil – assim mesmo, com um ‘b’ pequeno – que cumpriu o mandato inteiro com o país em Estado de Sítio? Perseguindo a tudo e a todos, boicotando a fraquíssima imprensa da época e vendo chifre em cabeça de cavalo, o “Paulista de Macaé”, como era conhecido, governou o gigante adormecido. Pirata segue a mesma linha, ao primeiro sinal de ameaça, desfere uma cabeçada no raquítico Gerineldo. “E daí?”, você pode está pensando. Em frente, paisano.

     Daí que Gerineldo está crescendo e, sendo um touro, será eleito pelas próprias forças como o novo regente do pedaço. Engana-se quem pensa que, uma vez tendo combatido o tirano Pirata, o mestiço de Nelore com Jersey – é essa a genética de Gerineldo – estabelecerá a democracia no campo. Necas de pitibiriba, papangu. Gerineldo, assim como fez Getúlio Vargas ao tomar o poder de Washington Luiz em 1930, imporá uma ditadura que fará Idi Amim Dada parecer um anjo bicudo. É assim, meu caro, entre os animais de chifre. É assim na República Três Platôs. É assim sob o plumboso céu de meu Deus. E acho mesmo que até lá em cima a coisa é na base da força. Basta saber que, conforme a Bíblia, Lúcifer era um “bola cheia” do céu até fazer oposição ao criador – danou-se inferno adentro.

     Gerineldo acha que Pirata precisa ser mais flexível, dividir o poder e ser menos reacionário. Pirata, cônscio da efemeridade do posto que ora ocupa, nem discute tamanha absurdez. Somos todos democratas, em casa, na escola ou no trabalho. Em casa enquanto filhos, na escola enquanto alunos, no trabalho enquanto reles funcionários. No dia em que assumimos o jugo de pais, no dia que viramos professores, no dia em que vestimos a roupa de chefes, a democracia vira um passado distante, cujos raios luminosos são insuficientes para clarear um centímetro quadrado. Eh!, República, eh!, democracia. Eh!, nós.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Jeca, eu?

- Jeca Tatu é tua mãe, ô espirro de gato!

     Não disse, mas pensei seriamente em gritar no ouvido de Cunilda – chamemos assim minha colega de profissão. Limitei-me a retrucar:

- Pelo menos meus bois não dormem na minha cama.

     Na elegância dos seus um metro e cinquenta de urbanidade, a moça aventou que eu, um cara que gosta da vida no campo, corria sério risco de virar um Jeca Tatu. Ora, ora, meus senhores, li Urupês, de Monteiro Lobato. Acho-o de uma riqueza estilística comparada às encontradas em Saramago. O jornalista escritor retrata em cores vivas a - entre outras coisas – falta de higiene do caipira paulista. O romance daquele que veio a se tornar símbolo da literatura infantil brasileira foi adaptado para o cinema. O Brasil deu risada à custa da interpretação de Mazaroppi. O personagem convivia com os animais como se eles fossem da sua parentalha. E, num país amatutado, Jeca virou sinônimo de matuto, de capiau. Eu até teria ficado calado se não soubesse que ela mora em apartamento e cria um cachorro.

     E os apartamentos de hoje em dia você sabe como são amplos; para não dizer o contrário. A pessoa cria um cachorro dentro de um imóvel que, muitas vezes, não passa de 70 metros quadrados e acha-se no direito de alfinetar quem gosta de gado. Paisano, eu também moro em apartamento e sei, como poucos, o estrago que os caninos fazem em um condomínio. Antes que um tresloucado me condene ao inferno de Dante, adoro cães. Já tive mais de um, inclusive. Não dentro de um apartamento, ressalto. Cansei de entrar na garagem do prédio e ver as colunas do imóvel manchadas de urina de cães. Os donos de cachorros – tem exceções, claro – acham que as calçadas são latrinas para os latidores. A gente tem que andar olhando para o chão para não rechear os calçados. Tem apartamento mesmo que mais parece um canil.

     Aí uma sanfona de gambá vem querer dizer que sou Jeca. Fala sério né, ô, sapato de cobra. Ora Jeca!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Criticar, péssimo investimento

     O chefe chega para o funcionário e diz em tom contrito: “seja sincero, o que você acha da minha administração?”. Se o indagado não tem experiência, ou não se preocupa em ser demitido, deve mostrar as falhas do perguntador. Se, entretanto, conhece alguma coisa da vida, e não quer ficar desempregado, urge que olhe no grão dos olhos do cacique e minta. Minta com força. Rasgue elogios. Ou, se for mais experto, conte apenas o que vê de bom no administrador. Mas nunca, nunquinha critique um ser humano. Nós, e nós significa eu, você, seu vizinho, seu patrão, o prefeito, o presidente da República e o diabo a quatro. Odiamos críticas. Por mais inocentes que elas pareçam. Até mesmo as chamadas “críticas construtivas” são como ferroadas de abelhas no ouvido de quem as ouve. Certamente você, leitor, já ouviu falar em Tristão de Ataíde. Pois veja como ele reagiu quando Rubem Braga – um dos maiores cronistas brasileiros – escreveu uma crônica no Diário da Noite criticando a Igreja Católica.

     Alceu Amoroso Lima – o Tristão – era a maior estrela do grupo de intelectuais católicos dos anos 1930. Era membro do Centro Dom Vital, uma organização direitista “cristã” criada em 1922. O Centro mantinha uma coluna no jornal supervisionada por Tristão. A tal coluna, conforme ressaltaria o escritor Fernando Morais em Chatô o Rei do Brasil, “tentava passar a impressão de ser um espaço de reflexão politicamente de centro, embora fosse uma das mais reacionárias seções da imprensa de então”. E ela existia graças a um acordo entre Chateaubriand, o dono do periódico, e o clero católico. Quando Tristão leu a crônica enviou uma mensagem ao empresário: ou o “desatinado Rubem Braga” era demitido ou ele retiraria a coluna do Centro Dom Vital. Sobrou para quem? Rubem Braga dançou. Alceu Amoroso Lima, “mermão”, que coisa feia, hem?! Coisa feia, sim, mas que fazemos amiúde.  

     Outro dia um amigo meu, que não vou revelar o nome, choramingou nos meus escutadores de forró que o síndico do prédio em que ele morava era um horror. Que era ditador, que não tinha humildade, que reagia muito mal às críticas que ele fazia. Passado um tempo ele assumiu a vaga deixada pelo ditador. Em outra conversa comigo, orgulhou-se de ter dito “umas poucas e boas” para um condômino que veio se “meter a besta” com ele. “Ora, o cara veio querer que eu explicasse tudo que estava fazendo no prédio, e se achou importante o suficiente para me dar sugestões e criticar minha administração. Imagine se eu iria aceitar”, garganteou. Eu só não disse que ele era um babaca para não perder a amizade. É, paisano, fico com uma certeza que se agiganta a cada dia: só criticar quando tiver preparado para uma rebordosa.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

By, by, Avaí

     Meia noite e quinze. A madrugada da quinta feira está começando e a Avenida Beira-Mar Norte entra em ebulição. Biiiiiiip-biiiiiiiip-biiiiiiiip, fooooom-foooooom-foooooom. Essa barulheira é comum quando o Avaí joga – e ganha, claro. Os torcedores do time da Ressacada costumam sair em buzinaço pela área mais charmosa de Floripa. Hoje, entretanto, o motivo é outro. O Vasco da Gama sepultou os planos dos catarinenses. A equipe carioca humilhou os comandados do técnico Silas. O placar não retratou a superioridade vascaína. Tivesse o Vasco feito a metade das claríssimas chances de gol que teve e teria metido seis no Avaí. Os moradores da região fecharam a matraca e foram dormir. Já os torcedores cruz-maltinos soltaram o grito e as mãos. Mãos que não cansam de apertar a buzina.

     E foi uma derrota dupla para os torcedores do Avaí. É que todos os avaianos que conheço torcem também pelo Flamengo. Todos, não. O Rafinha, peladeiro da AABB, e o Zico, primo da minha mulher, são vascaínos. Os demais, são rubro-negros até a alma. Aí você já viu, né. O cara torce pelo Avaí e pelo Flamengo, enfrenta o Vasco em Florianópolis, toma um sapeca-iaiá... huuuum. Até parte da imprensa esportiva – como é chamada a turma que trabalha com futebol – é declaradamente flamenguista. E já contavam com a vitória antecipada. Escutei vários colegas meus alardeando que o Avaí golearia o Vasco. E a torcida avaiana, assim como a flamenguista, não pode ganhar um jogo que já acha o time o melhor do planeta. Deu até dó.

     E de nada adiantou a estratégia do Avaí de dar bordoada. Quanto mais batiam, mais dribles levavam. Marcinho Guerreiro, o xerifão de Floripa, ficou até zonzo; só chapéu ele tomou três. Parecia uma avalanche preta e branca no gramado da Ressacada. O melhor em campo, evidente, foi o goleiro Renan do Avaí. Não fossem as boas defesas do moço e a goleada teria sido histórica. Nem o comentarista de futebol da Rede Globo – o flamenguista Júnior – parecia acreditar. Com a voz taciturna, deixava claro a tristeza que sentia. Pobre Júnior, não adiantou secar o adversário. Foi uma partida perfeita dos vascaínos. Arrasaram o Avaí. Não foi só pela vitória, mas como ela veio. Os catarinenses não tiveram a menor chance. Só jogaram alguma coisa quando o time de São Januário entendeu que a vitória estava garantida. Ao Avaí, resta saber que tem um bom time e pode fazer uma campanha razoável no Brasileirão. Já a torcida vascaína de Floripa pode preparar a buzina que o título vem aí.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

     Dizem que o contato com a natureza nos deixa menos estressado. Dizem que quando ficamos um fim de semana num lugar bucólico, por exemplo, relaxamos e nos tornamos mais flexíveis. Dizem que o convívio com animais do campo – que não sejam jogadores de futebol, por favor – nos passa sossego, quietude, e que esse estado de espírito melhora nossa convivência com os mortais da cidade. Duvido. E duvido com um D beeeeeeeeeeem grande. Pra ser sincero, acho que a vida no campo prejudica, e muuuuuuuuuuuito, o bom convívio com nossos semelhantes urbanos. Por razões óbvias, jacaré. Entre o gado, para que tenhas uma ideia, as coisas funcionam de forma muito simples. Aquele que tem mais força, que é mais pesado e que é maior, é quem manda. É inimaginável que um terneiro de 300 kg enfrente um touro de 900 kg. O “preiboy” sabe que levará uma traulitada que se ele não cair é porque morreu em pé feito vela. O camarada que trata os quadrúpedes é respeitadíssimo por eles. Os chifrudos reconhecem o bem que o tratador lhes faz. Já na cidade...

     Quem manda em quem entre os homens? Quem define como as coisas funcionam? Quem respeita quem e quem merece ser respeitado? Não sabemos. As coisas não são claras. São como regras de futebol; até existem, mas a interpretação por parte de quem as aplica bagunça tudo. “Não há crime sem lei que o determine”, alardeia os bastiões da lei. Mesmo assim, embora matar seja crime, dependendo de quem seja o homicida o delito vira gás. Um fedelho que mal perdeu a catinga da frauda enfrenta um pai de família e o enche de adjetivos impróprios para a saúde bucal e auditiva. E se confia em que? No dinheiro do pai. Um ordinário de 16 anos estupra, espanca e mata. E o que acontece? Impunidade, paisano. Com um agravante: se o delinqüente for filho de rico, vai precisar de um psicólogo, se for filho de pobre levará uma boa surra antes de ir para uma cadeia para jovens marginais. Por isso a vida no campo é nociva. Sacou?

     No campo há respeito; na cidade isso é coisa de antigamente. No campo há regras claras; na cidade os julgamentos são anuviados pela força do capital. Aí o sujeito vai ao campo e relaxa, sem muito esforço entra em sintonia com a natureza. Aí quando ele volta para a cidade, meu chapa, e vê o pandemônio que o cerca, fica mais irritado do que quando saiu. O estresse é aumentado em 1000%. Por isso, caso alguém te diga “ta nervoso?, vai pescar” ou “vai passar um fim de semana num hotel fazenda que você desestressa”, pense duas vezes. O tiro pode sair pela culatra. Um vizinho meu me reclamou, ontem à noite quando eu chegava ao prédio onde moro, que cumprimentou um senhor que estava no elevador e o bonitão não respondeu. Esse meu vizinho, um aposentado de 65 anos, estava contrariadíssimo. “Que gente grossa que tem aqui”, desabafou. Depois de cinco minutos relatando atitudes de seus “mal educados”, segundo ele, condôminos, entrou no carro e saiu. Peguei o elevador, olhei no espelho e disse para mim mesmo: “que bom seria que isso aqui fosse um curral”.

domingo, 22 de maio de 2011

Começou o Brasileirão 2011

Começou o campeonato brasileiro de futebol. O Avaí, que pelas bandas de Florianópolis já está se achando campeão da Copa do Brasil, foi goleado pelo Flamengo, o mesmo Mengo eliminado da Copa pelo Ceará, o dito Ceará que tomou de 3 do Vasco, virtual eliminado da Copa pelo Avaí. Pois é, o que se pode esperar dessa competição? Rindo à toa está o Figueirense, que eu jurava que seria triturado pelo Cruzeiro. O Furacão, como o time da capital catarinense é conhecido, não conseguiu nem chegar às finais do Catarinão 2011, que foi vencido pela Chapecoense, que deve estar na série Y do brasileiro. Isso quer dizer que se o time de Chapecó tivesse disputado o campeonato mineiro, nem água para o Cruzeiro. A pergunta que não quer calar, é: tem lógica esse tal de futebol?

Agora tem time que começou o Campeonato Brasileiro do mesmo jeito que terminou o estadual - ou seja, envergonhando a torcida. É o caso do Grêmio. Depois de perder o título do Gauchão dentro de casa, conseguiu perder na estreia para o desorganizado Coríntians, que tem como craque o zagueiro Chicão. O Fluminense, a mesma coisa. Depois de eliminado da Libertadores pelo fraquíssimo Libertdad do Paraguai, perdeu para o São Paulo no Rio.

Já tem gente apontando favoritos para conquistar o caneco. Acho uma temeridade, conforme afirmei antes. Mas na Série B, um dos favoritos ao acesso à série A é o ABC. Anote. É uma qustão de lógica. No ano passado o ABC venceu a série C e veio para a B. Neste ano ele saltará da B para a A. E em dezembro eu estarei em Natal para comemorar com o Mais Querido.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Vereadores, motoqueiros e Berthold Brecht

     O vereador sobe à tribuna. Os companheiros de profissão ficam de olho. E aí ele comete o primeiro pecado: traz à tona um projeto de lei que regulamenta a profissão de motoboy em Florianópolis. Um dos fazedores de lei municipal levanta-se da mesa posicionada no ponto mais alto da casa. Badeko é o nome do cidadão; nome de guerra, digamos assim. Ensacado num terno cuja calça parece ter cinco números a mais do que quem a usa, desce e dirige-se a um camarada dele. Não sabendo que é, no mínimo, falta de educação dar as costas a um pregador, faz isso sem o menor constrangimento. E ri. A boca solta atropela quem está fazendo uso do microfone. Para piorar, o afrodescendente furta a atenção de outros dois políticos. A essas alturas, Márcio de Souza, outro afrodescendente, tenta discursar. As palavras chegam aos olhos de não mais que quatro membros da câmara. Márcio persiste, argumenta que a necessidade da regulamentação de uma categoria como a dos motoboys é mais do que necessária, até porque já existe uma lei federal fazendo isso. Basta a câmara de vereadores municipalizar a lei. A luta é vã. Badeko sai do plenário. Quem sabe foi ao banheiro. Certas coisas é melhor fazer do que ouvir um companheiro fazer.

     Márcio de Souza não desanima e insiste em pecar. Apresenta números, estatísticas que comprovam a quantidade de motociclistas que morrem diariamente na capital de Santa Catarina. Alerta que o poder público pode fazer alguma coisa, e para começar a fazer a regulamentação da categoria é o primeiro passo. É a vez de levar outra “costada” na cara. João Amim é o nome da fera. De cenhos franzidos, o filho do ex-governador Esperidião Amim parece ter odiado o assunto. “Que diferença entre ele e o pai, hem?”, resmunga Pedro Luis Sabaciauskis, presidente da associação de motociclistas Amofloripa, que estava entre as cinco almas abnegadas que enfrentavam os 14 graus da noite florianopolitana. “Antes de começar a seção, fui falar com ele e ele me deixou falando sozinho”, reclama o empresário. “Não foi nem um pouco simpático. Tem muito o que aprender com o pai. O pai dele recebia até os adversários com um sorriso”, critica Sabaciauskis. Se, como diz Pierre Weil, o corpo fala, o de João Amim parece deixar claro que está incomodado com o discurso sobre motociclistas. E ele não está sozinho nessa incomodação. A lei No 12.009, de 29 de julho de 2009, sancionada pelo então presidente Lula, não sensibiliza os mandatários do Sul brasileiro. Vale salientar que a lei é federal e cada cidade é responsável pela sua municipalização. Até o momento o Centro-Oeste lidera o ranking de municipalização – 17,8% dos municípios já o fizeram. O percentual no Sul é de míseros 4,9% - o pior entre as regiões do Brasil. “Que morram esses motoqueiros danados”, parece ser o clamor surdo dos chefes políticos catarinenses.

     Sensibilizado com tantas mortes de motociclistas, Márcio de Souza pede que o projeto de lei apresentado por ele volte à comissão de constituição e justiça da Câmara. O tempo de Márcio estoura. "Chega de pecado", esbraveja o relógio.  João Amim, finalmente, pôde girar a cadeira e voltar a olhar o púlpito. Badeko vê-se livre do falatório de Márcio e consegue respirar outra vez dentro do plenário. Antes, porém, é interceptado por Pedro Sabaciauskis. “Deixa que eu vou pegar essa (...) e vou fazer passar”, retruca indignado o vereador, quando Pedro questiona o descaso dos vereadores com a lei que regulamenta a profissão de motoboys. Ah, antes disso, a Câmara prestou farta homenagem a uma rede de comunicação de Florianópolis da qual Badeko é funcionário. Parece que tudo uma questão de prioridade. “E as mortes de motociclistas?”, pergunto, “não merecem a atenção dos nossos vereadores”?

     Enquanto me retiro, uma voz malina sopra nos meu ouvidos: "O que João Amim e Badeko querem é que Márcio de Souza retirem o projeto para eles poderem apresentar". Nego-me, juro, a acreditar que uma coisa dessas seja verdade. Se bem que, como disse Berthold Brecht certa vez: "As leis e as salsichas, é melhor não saber como são feitas".  




terça-feira, 17 de maio de 2011

A burrice está com a corda toda

Como disse Rui Barbosa certa vez, "há tantos burros mandando em homens de inteligência, que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma ciência". É ou não é, paisano, a mais pura verdade? Olhe ao seu redor e tire as próprias conclusões.

- Quem manda no teu condomínio?
- Quem manda no teu bairro?
- Quem manda na tua cidade?
- Quem manda no teu Estado?
- Quem manda na empresa em que você trabalha?
- Quem manda no clube que você frequenta?
- Quem manda na igreja que você costuma ir?
- Quem manda nas estradas que você trafega?
- E por aí vai.

Gente do céu, a burrice é, sim, uma ciência.  Quando falo em burro, assim como o jurista citado, não faço menção a iletrados ou a incapazes de somar dois mais dois. Se prestarmos atenção ao que eles fazem, no entanto, nos erros absurdos que cometem, na maneira como nos escoiceiam, hum...

Mas é aí que está a ciência da burrice - no coice. O coice é, sim, senhoras e senhores, a chave de tudo. Analise uma campanha política e veja se o vencedor não foi aquele que deu o coice maior no oponente!

Você já imaginou, amizade, na quantidade, e na qualidade, dos coices que alguns empresários dão para fazer suas fortunas?!

"Nêgo veio", como diz o caboclo, ouse desafiar alguns dos mandatários que eu citei no rol do segundo parágrafo. Prepare-se, porém, para o coice que levará. É interessante notar que um burro comandante sempre encontra outros burros que o carregam até o trono.

É, meu chapa, a burrice está com a corda toda.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Campeões estaduais de 2011

No início deste ano eu avisei a um dos meus irmãos, São Paulino roxo, que o Santos seria campeão paulista "com os pés nas costas". Não que eu seja santista, até porque eu nunca morei no litoral paulista, mas é que bastava olhar para o elenco do Peixe, observar os adversários e constatar sem medo de ser feliz.

Em Minas deu Cruzeiro. Deu a lógica. Só uma zebra bem gorda faria os comandados de Cuca perderem o título para o Galo. Dorival Júnior, técnico do Atlético, até que merecia, mas não tem um time forte nas mãos.

Na república gaúcha os colorados cairam na vanera e festejaram o título na casa do adversário. Pobre grêmio, pobre Olímpico. Ah, Renato Gaúcho, mais um vice, hem?!

E em Pernambuco? Deu Santa Cruz, "mô filho". Quero aqui mandar um alô para o Chico, vice-presidente do Sport, que tem apartamento aqui na Ilha da Magia, e dizer-lhe que: "não deu, camarada". A Cobra Coral fez a festa e picou o Leão antes de levantar a taça. Mas eu acredito no Sport e tenho certeza que o time voltará à divisão de elite do Brasileirão.

E no meu Rio Grande do Norte, terra do folclorita Câmara Cascudo? "ABC time do povo, campeão das multidoões...". Deu o óbvio. O Mais Querido, como o alvinegro natalense é conhecido, levantou o caneco mais uma vez. Agora jão são mais de 50 títulos estaduais. É, de fato, o campeão dos campeões. E só não será campeão da Copa do Brasil porque foi eliminado - com a ajuda do apito - pelo Vasco da Gama.

A única, isso mesmo, a única vergonha no futebol brasiileiro ficou por conta dos cariocas. Não é que a urubuzada comemorou o título invicto?! Fala sério, nané! Eu cheguei, no dia depois da conquista flamenguista, e falei para um rubronegro fanático: "O Flamengo envergonhou o futebol carioca". Quase perdi o amigo. O Ceará tratou de sair em minha defesa e despachou o Flamengo da Copa do Brasil.

Santa Catarina também deu seu vexame. A Chapecoense foi campeã. Calma, calma, o time do Oeste mereceu ganhar. Eliminou, inclusive, o Avaí, que está a quatro partidas de ser Campeão da Copa do Brasil. Tem uma coisa, entretanto, que precisa ficar claro: no ano passado a equipe foi rebaixada para a segundona do Catarinense. Forças ocultas fizeram o Atlético de Ibirama desistir de disputar o estadual de 2011 e a vaga foi cedida para a chapecoense. hummmmmmmmmmmm...

Sábado começa o Brasileirão 2011. Aqui vai o meu provavel campeão:
Santos, ou São Paulo, ou Corintians - não esse não - , ou Palmeiras - não depois do vexame contra o Coritiba, não - ou Vasco, ou Fluminense, ou Cruzeiro, ou Internacional, ou...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Avaí derrota educação na noite de Floripa

– Figueira filho da (…). – Gritou o fanático torcedor azul e branco. - Figueira, a quem ele se refere, é o torcedor do Figueirense, arquirrival do Avaí.

– Vai tomar (…), Avaí de (…). – Respondeu o rapaz do apartamento ao lado.

– É Avaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaí, cara&^%$#*. – Esgoelou-se outro adorador do time que acabava de fazer o terceiro gol no São Paulo.

– Vai pra (...), seu (...). Secador duma (...). – Alguém fez coro às belas vozes que se apresentavam pelas sacadas dos prédios na noite de quarta feira.

– Cala a boca aí, seu (...). – Mandou um camarada de mais idade. Pela voz, não tinha menos do que 60 anos. Podia ter dormido sem escutar:

– Vai dormir, velho, gaúcho de merda. Tu nem é manezinho (apelido dado ao nativo da ilha de Santa Catarina), po*&%$. Te manda daqui. Sai da minha área seu (...). – E as expressões racistas, contra os gaúchos, principalmente, ecoaram por uma das regiões ditas mais “nobres” de Florianópolis.

     Cada um que ia até a sacada, ou à janela, do apartamento onde se empoleira, gritava como quem acaba de perder a mãe vítima de uma facada no peito. A noite da orla marítima de Floripa esfacelou-se em palavrões que o menorzinho tinha três metros de altura. Graças ao meu bom Deus, nenhum grito feminino foi ouvido. Pelo menos nessa fossa transbordante elas não colocaram seus delicados pezinhos. O desfile de vozes era todo masculino. O Avaí precisava vencer o São Paulo com, pelo menos, dois gols de diferença para se classificar para as semifinais da Copa do Brasil. E realizou a façanha. Como quem anda de montanha russa pela primeira vez, os torcedores do time do Guga não conseguiam conter a própria boca. E nesses momentos, paisano, o espírito do homem transborda e o excesso procura um orifício para ganhar a liberdade. Acha-a pelas cordas vocais. As cadeias que aprisionam as idéias, vontades e desejos se soltam. Liberamos os bichos que moram dentro de nós: preconceito, ódio, desejo de matar...
 
     E quem não tem nada a ver com a pocilga, não consegue fechar as narinas por mais de um minuto. Os tampões nos escutadores de boleros mostram-se ineficientes e as cavidades auriculares dobram-se à torpeza de homens que, àquela hora da noite, bem poderiam estar procurando um marido, uma louça pra lavar ou um pai que a mãe deixou numa zona qualquer. E ainda se acham educados, os tais senhores. No outro dia, como se nada tivesse acontecido, vestem-se com roupas de grifes, perfumam-se e entram em seus possantes. A alma, essa companheira invisível aos olhos de muitos, acompanha-os cabisbaixa. Enrolada em uma túnica escura, com uma echarpe da cor do urubu e descalça, cheira a cadáver de quinze dias. Observo-os, matéria e alma, e as ânsias de vômito me invadem. Com o adiantar das horas, vou me restabelecendo.

Até o próximo jogo.















quinta-feira, 12 de maio de 2011

Salmo 104

     Gente do céu, cada dia eu me surpreendo mais com a qualidade dos emails que recebo. Um amigo me alfinetou: - Me diga com quem andas que eu te direi o nível das mensagens que você recebe -. Pura maldade daquele canalha. Um dia dividi meus contatos em parentes, amigos, colegas, fontes e contatos. Não deu certo. É que tinha amigo que era colega. Tinha contato que era parente. Tinha até contato que era amigo, colega e fonte! Virou uma salada mista. Deixei tudo num saco de gato só. Não importa se é parente, colega ou seja lá o que for, taxei todos de contato. Mas não pense que saio abrindo todo recado que me enviam. Olho primeiramente o nome do remetente. É com dor no coração que descarto alguns de cara. Odeio fazer isso; é como virar o rosto quando alguém me diz bom dia. Não posso, entretanto, responder bom dia ao mesmo cidadão cinco ou seis vezes numa manhã. Ah, nunca, isso mesmo, nunca abro aqueles Power Pointers melosos que correm na internet como um câncer em adiantada metástase. Aquilo é puro vírus. Hoje, no entanto, ao abrir minha caixa depois de dois dias, deparei-me com o seguinte texto:

Salmo 100:4 - Deus tem visto suas lutas. Deus diz que elas estão chegando ao fim. Uma bênção está vindo em sua direção. Se você crê em Deus, envie esta mensagem para 20 amigos, retornando também a quem lhe enviou. Não ignore, você está sendo testado (a). Se rejeitar, lembre-se que disse Jesus: "Se me negas entre os homens, te negarei diante do Pai". Dentro de 4 minutos te darão uma boa notícia. Funciona mesmo. Não custa tentar !

     Juro que tentei, paisano, conectar uma coisa a outra. Salmo 104, enviar mensagem e frase solta de Jesus. Bem, ao menos aproveitei para ler os trinta e cinco versículos do salmo. Salmo é uma espécie de poesia judaica. E poesia, nobre leitor, é sempre bem vinda. Olhei o nome de quem me enviou. Opa, o camarada não é chegado à versificação dos sentimentos. Nesse caso, ficou fácil identificar a motivação única de tal mensagem: uma bênção. E bênção, paisano, é geralmente entendida como alguma coisa boa ligada a finanças. O meu contato atesta que a corrente funciona. Eu, que não sou muito dado a essas pajelanças, não enviei a mensagem. Na verdade, fico com vergonha de me ver usando um texto bíblico para auferir vantagens financeiras. Tenho plena certeza que a pessoa que me enviou a tal corrente não é nenhuma aproveitadora, apenas vê as coisas diferentes de mim. Ah, pensei em fazer uma crítica a quem usa textos bíblicos de maneira equivocada, mas desisti. Ninguém é obrigado a nascer sabendo ler e escrever.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A mãe do Guilherme, a Mãe do Leonardo

     - Ai, que desanimador – digitou, quase que balbuciando, uma jovem leitora. Senti o pesar da moça, mesmo não sabendo de quem se tratava, pois seu comentário foi anônimo. E o anonimato é uma espécie de trincheira usada pela maioria dos comentadores de internet. Opa, não entro no mérito do certo ou errado de tal atitude. Às vezes, é por timidez, a pessoa não quer ter o nome exposto e, se coçando após a leitura de um texto, tecla algumas frases e assina: anônimo. Outras vezes, é por puro senso de sigilo. Não pretende colocar o nome e ter sua identidade secreta revelada. Tem, evidente, trezenas de justificativas para se manter oculto por trás de um comentário. O chato é quando tal anotação é maldosa, maliciosa. Do contrário, como diria o filósofo da TV, “Faz parte”. Invocando os meus superpoderes rítmicos, estratosféricos e palatinaikos, percebi desgosto na frase da jovem.

     - Você ta é com inveja por não ser mãe – esbravejou uma colega direto no meu email. Nem se deu ao trabalho de comentar no blog. – Ai, to morrendo, sim, senhora -, respondi com o cinismo característico de um Diógenes. Ué, o nobre leitor, ou leitora, ou outra coisa, ainda não havia percebido que carrego uma aura cínica sobre meus cabelos embetumados? Cínico, sim. Por favor, não é esse cinismo encontrado em políticos e outros contraventores que, ao serem entrevistados, após provas irrefutáveis de seus crimes, bravateiam: “Eu sou uma pessoa honesta, transparente e de consciência limpa”. Não, não é esse tipo de cinismo. É o cinismo que surgiu com Antístenes e teve em Diógenes o seu principal expoente. A escola cínica bebeu na sabedoria socrática e serpenteia, até hoje, pelos vinte e cinco cantos do nosso planeta. Gente do céu, um texto, quase um textículo (permita-me o questionável neologismo), acerca do dia das mães não deveria causar tantas reclamações por parte das mulheres. Digo “por parte das mulheres” porque nenhum, nenhum homem ousou me contrariar. Todas as mensagens que recebi vieram de mulheres. Calma, senhoras, eu também devo minha vida a uma mãe. E agradeço a Papai do Céu por ela. Questionei, só isso, algumas palhaçadas que são feitas em nome das genitoras. Um comentário feito nesse blog pela minha amiga Janair, lá de Chapecó, entretanto, foi uma covardia.

     A mensagem, que você pode ler nos comentários à esquerda da página, começou com: “Amigo Gile”. Aí você já viu, né?! Vem bordoada pela frente. Emocionada, a mamãe Jana poetizou a respeito da maternidade. E fez isso com um brilhantismo e uma educação que só uma mãe realizada é capaz de fazê-lo. Foi, no entanto, covarde. Calma, calma, eu não seria grosseiro, jamais, com a esposa do meu grande amigo Bruno. O que o leitor não sabe é que ela é mãe dos filhos mais lindos e adoráveis que essa terra viu nascer nos últimos três anos – Guilherme e Leonardo. O Gui é meu faixa. Como eu, adora macarrão e sagu. Se expressa como gente grande. Parece um diplomata. O Léo é ágil, cândido e gracioso. O que não dá para saber, mesmo olhando os dois lado a lado, é que eles são gêmeos. Como são diferentes os pimpolhos. Um é loiro, puxou à mãe; o outro é moreno, a cara do pai. Os quatro moram em uma deliciosa casa rodeada de verde e de água nos arredores de Chapecó. Aí fica fácil, dona Jana, falar na beleza de ser mãe. Outro dia, alguns amigos estavam dando risada e doidivanas interveio: “quero ver rir, assim, duro”. Pois é.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mãe: expulsa e padecendo feliz

     Xingando um peladeiro que o incomodava, o colega de time soltou a voz:

- Tomara que na próxima encarnação você nasça mulher, que é pra sofrer, seu fominha – fominha, na gíria do futebol, é o cara que não passa a bola para o companheiro.

     Insatisfeito, completou:

- Por mim, além de mulher, você será mãe, que é pra sofrer até morrer, seu (...).

     Caso o nobre leitor seja um homem acostumado ao meio futebolístico, substitua os três pontinhos por um palavrão maior do que a cara de pau dos nossos políticos. Sendo mulher, e dessas que enrubescem com um simples e despretensioso “vai à merda”, não mecha nos pontinhos; deixe-os lá, faça de conta que o finalzinho da frase não existe. Como fazem os pais quando não querem admitir que os filhos estejam fazendo merda. Opa, senhoras distintas, substitua a “merda” também, por favor. Quem me conhece, sabe que não sou dado a impropérios. A formação judaico-cristã trava minha boca. A mesma educação impede-me de acreditar em reencarnação. Por isso, não concordo, em parte, com o que o camarada do xingamento inicial do texto disse. Só em parte.

     Esse papo de que o outro reencarnará, para mim, é furado. Sim, porque minha crença, quando faço uso dela, baseia-se na Bíblia. E o livro sagrado é veementemente contrário a reencarnação. Então, você pode estar se perguntando, com que parte do xingamento o Gile concorda? – Com a praga jogada – respondo. Vamos combinar, se existisse reencarnação, seria muito ruim para um peladeiro voltar na forma de mulher. Não de uma mulher qualquer, diga-se de passagem, mas de uma dama com filhos. Claro, voltar como mulher, sangrando todo mês, portando TPM e cólicas menstruais, seria péssimo para qualquer marmanjo. Para completar, todo homem, por mais miserável que seja, encontra uma Eva em quem possa mandar. Tudo isso seria superável, mas ser mãe...
 
     É uma roubada. Tanto é verdade que um dissimulado inventou que “ser mãe é padecer no paraíso”. Pense agora, simpatia, em cinco mães que você conhece. Feche os olhinhos e pense. Quantas delas têm um jardim imenso com cascatas? Quantas delas podem andar peladonas dentro de sua propriedade sem precisar se preocupar com assovios maldosos de um mequetrefe qualquer? Quantas delas têm liberdade de fazer o que bem entendem da vida? Nenhuma? Pois no paraíso as coisas eram mais ou menos assim. Raciocine comigo: se ser mãe é padecer no paraíso, e a tal mãe não tem paraíso, ser mãe é, apenas, padecer. É triste mas é verdade. De acordo com a bíblia, a mulher, enquanto estava no paraíso, não teve filhos. Expulsa de lá, foi condenada pelo Criador: “Com dores darás a luz”. O que ele não disse, para não ser sarcástico, é que as dores do parto acompanhariam as futuras mamães para o resto da vida. E não se engane, candidata a mãe, os dias são cada vez piores. Os filhos indo de pior a pior, insensíveis aos sofrer materno. Apesar de não ser dado à efemérides, parabenizo as mães pelo dia delas. Coitadas, pelo menos um dia no ano elas merecem ser lembradas.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Grêmio é uma piada

Fluminense: FORA!
Internacional: FORA!
Grêmio: FORA!
Cruzeiro: FORA!
Ganso: DENTRO!

Fala sério, ô cambada de boleiro desclassificada. O Fluminense, o único dos perdedores por quem torci, precisa urgente de um goleiro. O jogo estava empatado até que o pegador de bolas bobeou. A zaga é boa, mas levaria gol de cabeça do meu amigo Rivelino que tem 1,61 de altura.

O internacional ficou vermelho de vergonha. Também, com o futebol que vem jogando, só os fanáticos colorados acreditariam que a equipe teria melhor sorte. Os peladeiros da AABB, aqui de Floripa, arrancariam, no mínimo um empate, jogando contra eles lá no Beira-Rio.

E o Grêmio? Esse é uma piada. Ô time feio! O entrosamento da equipe me lembra a sincronia que existe dentro de um balaio de gatos. Foi longe demais.

O Cruzeiro... Ah, o Cruzeiro. Que pecado! Não sou torcedor da Raposa, mas fiquei triste com a sua eliminação. Isso é mau para o futebol bonito.

Quanto a Ganso... Se os companheiros de clube colaborarem um pouquinho, ele levará o Peixe à maré da glória na Libertadores. Agora, mais do que nunca, quem dá bola é o Santos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Igreja 0X0 Buteco

     Pense numa combinação para dar errado: igreja evangélica e buteco. O Word, esse ignorante, já me corrigiu. Assinalou com um vermelho a palavra buteco. Ele exige, como se meu editor fosse, que eu escreva boteco. Não farei, entretanto, tal coisa. Isso porque, boteco e buteco não são, nem de longe, a mesma coisa. Buteco tem a cara do povo. Lembra bebum. Lembra cachaça. Lembra, também, futricas. Para muitos, é o caso do meu amigo Crasbonaldo, lembra confusão. Para ele, quase todo rolo tem início na ingestão de álcool. Um professor que tive na faculdade de Administração, bebaço bem resolvido, com se dizia, costumava recitar, ironicamente, sua litania de sexta à noite: “A bebida degrada a alma e corrompe o homem”. Um belo dia, passeando por Roma, teve um mal súbito e se foi. Os alunos receberam a nota de falecimento com pesar. “Problemas de coração”, informava a universidade. No corredor, o zum-zum-zum revelava outra versão: “Foi a marvada, a manguaça, a branquinha”. Se foi o músculo cardíaco ou o fígado quem pifou, não sei até hoje. Sei que o intelectual – pois ele era um desses – morreu bem próximo ao Coliseu. “Morreu bem”, brincou um aluno menos sensível. Mentes mais maliciosas e cheias de picardia acreditam piamente que buteco tem grande afinidade com sexo. As mulheres, principalmente elas, pensam assim. Diga, o coitado do marido, que vai ao buteco... “Vai atrás de (...), não é? Pois então, amizade, imagine um boteco e uma igreja divididos por uma única e miserável parede. Daquelas construídas com tijolos de oito furos, que são tão eficientes em evitar a propagação do som tanto quanto um balaio é próprio para ser usado como depósito de gasolina. Já o boteco é coisa de grã fino e não merece espaço nessa crônica. Fica para outro dia.

     Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Cultos às terças, quintas e domingos; sempre às 19h. Escola dominical no domingo às 9h. Some-se a essa bagatela as reuniões de jovens, de senhoras, os ensaios da mocidade e outros ajuntamentos necessários ao bom andamento da instituição e o resultado será um templo aberto quase sempre. Numa igreja pentecostal, as reuniões são, via de regra, entusiasmadas. A música é no dez. Os sermões, para que ninguém durma e para que tenham maior credibilidade por parte dos presentes, são feitos por preletores cujas carótidas parecem prestes a explodir. Fora do prédio, o movimento fica por conta de jovens namorados que aproveitam o descuido dos pais para trocarem beijos inocentes. Ah, candidatos a namorados também ficam do lado de fora buscando um coraçãozinho desocupado. O problema, paisano, é quando, do lado de fora, um sujeito “mais pra lá do que pra cá”, grita: “Bota uma dose aí pra mim, ô”. Que barbaridade, Gilead, você pode estar pensando. Calma, paisano, pois esse quadro pode ser visto aqui em Florianópolis.
Para quem chega ao trevo de Jurerê internacional e da Daniela, no Norte da Ilha, basta olhar à direita. Igreja e buteco irmanam-se por uma parede. Os religiosos chegaram primeiro, sou testemunha. Não foram capazes, por que eu não sei, de impedir que a concorrência se instalasse. Se bem que, como dizia um evangélico das antigas, “material de fazer crente é o descrente”. Será, penso agora, que o pastor deixou os bebuns se achegarem para pescá-los posteriormente? Não, seria muito arriscado. Quando tem jogo de futebol, então! Louvores a Deus e gritos de gol se confundem. Creio mesmo que quem sai ganhando nesse negócio são os da cachaça.

– Pra onde você vai, mal-acabado? – pergunta a dona encrenca.

– Vou pra igreja, querida –, responde o maridão.

– De bermuda e camiseta? – desconfia a mulher.

– É a modernidade, meu amor – improvisa o homem, certo de que, caso a esposa vá atrás dele mais tarde, basta livrar-se do flagrante, o copo, e dar um passo para o lado. Apenas um passo será suficiente para levá-lo do bar à igreja.

     Curioso como sou, dia desses vou parar para conversar com o pastor e com o dono do bar. O que danado eles fizeram para conviver pacificamente? Com a fórmula na mão, ficarei milionário. Poderei unir norte-americanos e mulçumanos, noras e sogras, pais e filhos e por aí vai. Igreja e buteco, é brincadeira?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Flores, política, religião e Ernest Hemingway

    Não, não me peça para falar de flores. Não, porque as lagartas precisam delas. Falar de flores é louvar as lagartas. Sim, eu sei, os beija-flores não merecem meu não. Adoro os pequeninos alados, e sei que as flores fornecem-lhe o alimento diário. Mesmo assim, prefiro o jardim sem lagartas. Ainda que meu ato represente o fim dos colibris, das flores e até mesmo do próprio jardim. As insaciáveis lagartas fazem as lindas flores desaparecerem em segundos. Elas formam uma legião de destruidores de canteiros. Apossam-se das floreiras com uma sede de extermínio semelhante a do exército Hitlerista. Empanturram-se do néctar que o semeador acreditou ser exclusivo dos cuitelinhos. Quando estes chegam com suas asas ultra velozes, só encontram restos dos talos que um dia hastearam flores, rosas e crisântemos. Ah, veem, por mais triste que possa parecer, hostes de pançudas lagartas refesteladas deslocando-se para novas flores que um sonhador plantou. Não me peça para falar de flores.

     Não me peça para falar de flores se não queres ouvir de lagartas. Não que eu tenha perdido a capacidade de sonhar, meu Deus do céu. Tivesse essa desgraça acontecido, eu seria um morto vivo, um zumbi, ou coisa do gênero. Só não posso me dar ao luxo de dormir enquanto lagartas vorazes dizimam meu jardim. Nem muito menos acreditar, como querem alguns, que as lagartas fazem parte de um processo natural. Para lá com essa conversa fiada. Coloquemos nossos sonhos na mochila e sigamos adiante. Chegará a hora de abrirmos. O momento, no entanto, é de agir. Capitais brasileiras, tidas como evoluídas social, financeira e culturalmente, tornaram-se ninhos de neonazistas que matam minorias. Câmaras municipais, estaduais e federais converteram-se em covis de salteadores do nosso rico dinheirinho. Lares, ou o que restou deles, viraram centro de consumo e distribuição de tóxicos e entorpecentes. Instituições religiosas, que até poucos anos algumas serviam para salgar a sociedade, estão gangrenadas por charlatões, hienas da fé e corruptos a serviço da politicagem purulenta. Não me peça para falar de flores.

     Não me peça para falar de flores se teus ouvidos são insensíveis a dor de quem chora em um corredor de hospital. Que sofre na madrugada de um pronto socorro por não ter um médico para atendê-lo. Sofre por não ter um leito. Sofre por não ter remédio. Porque o dinheiro para suprir tais necessidades paga a cocaína de políticos indecentes e criminosos. Compra o uísque que ajuda a embalar as noitadas de assassinos travestidos de defensores da sociedade. Pagam o motel e as meretrizes usadas por vereadores, deputados e senadores. Falar de flores quando crianças descem à sepultura por falta de alimentação? Porque empaletozados furtaram-lhe o direito à merenda? Falar de flores quando o assalariado paga imposto de renda, e o dono de iate gaba-se da restituição a que teve vez? Falar de flores quando a realidade se torna cada dia pior? Falar de flores quando a justiça é pervertida por bastardos julgadores comprometidos com a mentira? Falar de flores quando o “defensor da liberdade” aponta um míssil para quem empunha um bodoque? Lembro das palavras de Robert Jordan, personagem principal do livro Por quem os sinos dobram de Ernest Hemingway: “O mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele, e odeio ter que deixá-lo”. Lutemos agora, antes que as lagartas nos destruam e nos sepultem sob o que restar do nosso jardim.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Osama não morreu

     Que o príncipe da Inglaterra casou, sabemos. As fartíssimas imagens de televisão não deixam dúvida. Embora seja um tanto quanto idiota, um monte de endividados que nunca botaram seus pés cheios de unhas encravadas na terra da rainha celebraram o casório de um cara que eles não têm a menor noção de quem seja. Concordando ou não com os bobalhões de plantão, o matrimônio ocorreu. Que o Flamengo foi campeão carioca invicto, também sabemos. Deu a lógica. Nos pênaltis, ninguém, pelo menos no Rio, ganha do mengão. Coitado dos jogadores do Vasco; de tanto medo, chutaram a bola para longe do gol rubro-negro. Que nenhum ignorante acerca do futebol ache que a equipe da Gávea é a melhor entre os cariocas. Que é a mais forte, entretanto, não se pode negar. E a força, amizade, sempre sai vencedora. Conte-me um caso, na história, em que a força foi derrotada. Faça isso e mudarei meu nome para Apolônio, Godofredo ou Vantuil. Que me perdoem os Vantuís que navegam por este blog, mas acho esse nome meio esquisito. Só conheci um Vantuil em toda a minha vida. Morava perto da casa da minha vó materna. Era um militar da Aeronáutica. Andava em uma moto única na rua e parecia um sumo pontífice em dia de visita aos seus fiéis. A empáfia em pessoa. Outra coisa que sabemos, para finalizar esse parágrafo: Osama Bin Laden está morto.

     Mesmo sem imagens irrefutáveis do assassinato, ou do assassinado, Obama disse e está dito. A bem da verdade, foi divulgada uma “fotinha” do, até então, líder da Al-qaeda. E o povo, como todo bom telespectador, precisa de imagem. Somos igual São Tomé, precisamos ver para crer. Por isso, enquanto os EUA não apresentarem imagens indiscutíveis do Barbudo morto, as teorias sobre a morte, ou não morte, do bonitão vão crescer mais do que conta bancária de político. Político eleito e em pleno exercício de mandato, ressalte-se. Ora, ora, se até hoje há quem jure de pés juntos que Elvis Presley está vivo! Mesmo empanturrado de drogas e quase estourando de tanta química no organismo, conforme imagens da época, tem gente certa de que o cantor não “fechou o paletó”! Imagine, paisano, o que não vão dizer de Osama. Na real os americanos entraram numa roubada. Lutar contra Bin Laden foi como brigar com bêbado. Se você bate no bebum, não fez mais do que o esperado. Se apanha, ta ferrado. Onde já se viu apanhar de um “pé de cana”? Por isso, todo mundo na face da terra sabia que uma hora ou outra Osama “entraria na boquinha da garrafa”. Entrou. Entrou ou foi para o céu?

 
     É aí que mora o perigo, jacaré. Para uma penca de seguidores de Osama, nesse momento ele está no paraíso. Virou mártir. E como tal, precisa ser reverenciado, idolatrado e vingado. Nem mesmo a matança indiscriminada feita pelos norte-americanos no Iraque e no Afeganistão será capaz de deter os correligionários do assassinado. Príncipe Wiliam é passado, como passado é o título do Flamengo. Osama, por outro lado, é futuro. Um futuro de bombas, assassinatos e medo. O medo se espalhará mundo a fora ao primeiro atentado cometido pelos remanescentes da Al-qaeda. Americanos e aliados dormirão abraçados com o temor de uma explosão. Obama matou Osama. Não bastava assassinar o bêbado, “we can”. Precisaria ter eliminado a cachaça. E essa, meu caro, não se extingue.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O casamento dos ingleses

     Mel está no cio. Sério, a terneira precisa urgente de um touro apaixonado. É que o Pirata é castrado, e o Gerineldo ainda é muito novo. Entrei em contato com um vizinho e ele me cobrou R$ 70,00 para levar um reprodutor até o sítio. Achei caríssimo. Aonde já se viu, cobrar uma exorbitância dessas para saciar os desejos da vaquinha. E é coisa rápida, pois os animais, diferentemente dos humanos, não se preocupam muito com a festança que o sexo proporciona. O macho vai lá, cobre a fêmea e se manda. Ela só vai pensar nele depois de mais de um ano. Caso contrário, o sítio seria um cabaré de cego dentro de um balaio de gato. Liguei para um veterinário fazer uma inseminação artificial. – São cem reais –, avisou o camarada. – Mas o senhor tem que ver o dia exato em que ela entra no cio. Doze horas após, é que a inseminação pode ser feita. Nem antes, nem depois. Se não, ela não emprenha – advertiu o instruído nos negócios de animais.

     Ora, eu não moro no sítio, pensei. Como é que vou monitorar o cio de uma novilha? Descartei a segunda opção. Será que a Mel terá que esperar o Gerineldo crescer? No feriado de Páscoa, estive por lá e nada. A chifruda não deu sinal de urgências sexuais. Sabendo que o desejo da danada voltará depois de três semanas, desde que não haja cruza, fiquei preocupado com a solução para a beldade. Abri o jornal hoje cedo e deparei-me com a manchete: “União de fazer inveja”. Em seguida o periódico tricotava: “Milhões de pessoas no mundo todo acompanham o casamento de Kate e William hoje”. Na hora do almoço, uma televisão dentro do shopping se exibia com imagens do casamento dos ingleses. Um monte de desocupados se extasiava ante o aparelho. Fiquei indignado. Se bem que não é coisa das mais raras eu ficar assim. Olhei para um cidadão que aparentava ter seus cinqüenta anos e gritei-lhe em pensamento: “Vai limpar um quintal, morcegão”. Uma moça, que não tinha mais do que vinte anos, era toda devaneios, e eu dei-lhe também um grito mudo: “vai lavar uma louça, menina”. Voto vencido, debandei daquele manicômio metido a lúcido.

     Não faz nenhum sentido para mim assistir babacamente o casamento de dois estranhos. Mesmo que esses desconhecidos façam parte da nobreza britânica. Aliás, por serem ligados a corte, causam-me verdadeira repulsa. O que fizeram os ingleses por suas colônias na África e no Oriente? Quando o exército da rainha era expulso de uma colônia, deixava-a destruída. Empobrecida mais do que antes da chegada dele. Por não ser ignorante quanto a esses fatos, cuspi no casamento dos bretões. No momento, o único casamento que me chama a atenção é o da Mel. Essa, sim, merece meu apreço, mesmo que o noivo dela ainda seja indefinido. Kate, William?! Como se diz em Blumenau: “que nojo”.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O jogador que beijou muito

     Não, não sou saudosista. Não superestimo o passado. Não digo que os tempos idos foram melhores do que os atuais. Seria imprudente falar assim. Não recordo apaixonadamente o fato de ter direito a um par de sapatos por ano. E era assim na minha infância. Mas como esquecer o primeiro kichute que ganhei? No início dos anos 1970, esse calçado fez sucesso no Brasil. Era um misto de tênis e chuteira. E a meninada adorava. Imagine só: a gurizada, ao mesmo tempo em que ia estudar, estava prontinha para uma partida de futebol. E isso, depois da conquista do tricampeonato de futebol pela Seleção Brasileira no México, foi como mel na chupeta. A Alpargatas, fabricante da marca, chegou a vender 9.000.000 de pares em determinado ano. O pirralho que não tivesse um, não era gente. Quando fui presenteado com um, foi a glória. É legal lembrar-se disso, mas é um tempo que se foi. E o prazer de ganhar um kichute não supera, nunca, a dificuldade pela qual passávamos. Hoje, tudo é mais fácil. As diversas marcas de tênis desfilam nos pés da macacada como se fossem chuchu na serra. O passado uso como lição, como aprendizado, como escola. Por isso não sou saudosista. Até prefiro os dias atuais. É, mas tem umas coisas da chamada modernidade que não entram na minha cachola.

     O futebol, por exemplo. Já contei, em outras crônicas, que o rádio de pilhas fez meu imaginário ganhar ares de Spielberg. Com o passar do tempo e o advento da televisão, as partidas futebolísticas tornaram-se produto comercial. E nada mais que isso. E como tudo que envolve dinheiro merece, no mínimo, ser questionado, desiludi-me com o esporte bretão. Continuo gostando do danado, mas não acredito nem um pouco em sua lisura. Até que é aceitável o fato da modalidade ter virado comércio, pois o mundo é puro comércio. O nascimento é um comércio, viver um comércio, o casamento é um comércio, e até a morte – por incrível que pareça – é puro comércio. Tem coisas, entretanto que passam dos limites.

     Ontem, assisti 15 minutos do jogo entre Real Madri e Barcelona. O futebol jogado pelas duas equipes era infinitamente pior do que o das peladas que participo na AABB de Floripa. O problema é que, além do péssimo futebol, o telespectador ainda tem que ouvir asneiras de pseudos-jornalistas. Em determinado momento, ao se referir a um atleta do Barcelona, o narrador esbaldou-se: “Ele beijou muito na boca nesse final de semana”. O ignorante profissional nem ao menos sabe a sutil diferença entre fim e final. E é fácil: só tem final quem tem inicial; quem tem início tem fim, não final. Assim sendo o tal jogador, caso tenha beijado muito, o fez no fim de semana, nunca no final. Língua portuguesa à parte, mas continuando em matéria de língua, o que eu tenho a ver com os beijos de um peladeiro? Será que o tal narrador pensa que disse alguma coisa importante e que tenha a ver com o futebol? Ou o cara é viciado em novela, apesar dele não ser da Globo? Aí não tem jeito, paisano, “que saudade do meu rádio de pilhas”.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Divina indignação

     Outra vez, Jipão agrediu Bibigul. Covardemente, diga-se de passagem. O leitor contumaz desse blog sabe que Jipão é o nome de uma terneira Jersey, e Bibigul é uma bezerrinha mestiça de Holandesa, bem mais nova do que a agressora. A holandesinha leva esse nome porque é glutona, como é a personagem homônima na obra O Livreiro de Cabul. Jipão não tolera a presença de Bibigul. Na hora da ração, nem se fala. É preciso que o tratador, no caso eu, fique entre as duas. Caso contrário, Bibigul terá que se contentar com o pasto, enquanto Jipão se refestela no trato especial. É uma violência imbecil, como toda violência. E covarde, como já disse na segunda frase deste parágrafo. Digo isso porque todo ato violento parte de um agente mais forte para uma vítima mais fraca – isso é uma tremenda deslealdade. A destruição da cultura indígena, por exemplo, é um típico caso de covardia perpetrada por brancos metidos a filhos de Deus. Tanto no Brasil, como nos Estados Unidos, os conquistadores europeus chegaram municiados de bíblias, sacerdotes e armas de fogo. O índio não tinha outro recurso: ou aceitava a escravidão, entregava suas terras e se convertia a nova religião, ou era assassinado. O mesmo ocorreu com os negros, com os judeus na campanha nazista e com as minorias em todo o mundo. A violência é um ato covarde. E insano, também.

     Daqui a alguns meses, Bibigul terá o dobro do tamanho da Jipão. Sim, a raça Holandesa é de grande porte, já a Jersey é nanica. Em breve, se as coisas continuarem nessa batida, a guerra vai ser inevitável. A guerra, meu chapa, é fruto da violência. A violência é insana, e a guerra é a insanidade materializada em toda sua plenitude. Um sujeito vê-se de frente a outro que nunca viu, não sabe o nome, onde mora, ou quem são seus familiares. Mesmo assim, puxa o gatilho e estoura-lhe os miolos. É insano. Agora, imagine uma guerra em que um lado dos combatentes tem mísseis enquanto o outro só dispõe de pedras. É muita covardia. Tudo isso para que? Para ser o dominador. Para ter o direito de mandar prender, soltar ou matar quem bem entenda. Aos de pedras na mão, resta tentar sobreviver, trocar os seixos por metralhadoras e contra-atacar. Como Bibigul está fazendo.
 
     E quando a covardia acontece pertinho de nós, dentro das empresas em que trabalhamos, nas salas de aulas em que estudamos ou no condomínio em que vivemos? Não fiquemos “sentados no trono de um apartamento com a boca escancarada e cheia de dentes esperando a morte chegar,”como cantou Raul Seixas. Você ainda tem a capacidade divina de se indignar. E essa indignação, paisano, é a chave de qualquer mudança.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O traficante de escravos e o senador Roberto Requião

      A propósito, paisano: você sabe quem financiou a corte portuguesa quando ela se instalou no Rio de Janeiro, lá pelos idos de 1808? Dom João e sua turma eram uma cambada de perdulários. Quebraram Portugal, deram no pé quando as tropas napoleônicas comandadas pelo fraquíssimo Junot se aproximaram, e navegaram rumo à liberdade da colônia tupiniquim. O Rio, que por incrível que pareça nunca teve um rio singrando suas terras, era um tremendo lixo. Esgotos a céu aberto, mercado infestado de todo e qualquer tipo de insetos, e muita, muita ignorância. Sim, meu caro, os livros e jornais eram proibidos de circularem entre os analfabetos do futuro Reino dos Políticos Desavergonhados. O lençol freático carioca era bem próximo da superfície e, por isso, não se construiam fossas sépticas na cidade. Todas as manhãs, um exército de negros escravos carregava barris de excrementos para jogar na praia. O barril nao era vedado e consequentemente vazava amônia e ureia nas costas dos carregadores. O fétido líquido recolhido dos penicos dos brancos deixava marcas nas costas dos africanos e eles eram apelidados de Tigres. E daí?, você pode estar me perguntando.

     Daí que nao terminei, camarada. As casas do Rio, apesar de parecerem bonitinhas para quem atracava na Baía da Guanabara, revelavam-se ordinárias para quem ousava entrar nelas. Onde Dom Jõao, o primeiro monarca europeu a por os pezinhos chulezentos no Novo Continente, iria morar? É aí que surgem os primeiros donos do Brasil. Digo primeiro donos porque essa categoria de nobres senhores se enrraizaria pelo nosso território e espalharia seu tentáculos pelas próximas gerações. Até hoje, seus herdeiros legítimos mandam e desmandam nas terras verde e amarelas. O pançudo Dom João foi morar no Palácio de São Cristóvão. A construção de três andares foi dada como presente por um grande traficante de escravos. Ora, ora, amizade, o tráfico de escravos foi uma das coisas mais repugnantes cometidas pelo ser humano em toda sua história. Calcula-se que, entre os séculos XVIII e XIX, 2.000.000 (dois milhões) de escravos foram arrastados dos seus mundos para o Brasil. Somando-se os que morreram na travessia do atlântico, cujo sofrimento é bem retratado por Castro Alves em “O navio Negreiro” e “Vozes D`África”, o número torna-se um despautério. Você sentiu um nó na garganta quando assistiu algum filme sobre a matança dos judeus pelos nazistas? Então, parceiro, imagine o que sofreram os miseráveis e desalmados africanos. Pois então, os responsáveis diretos pelo tráfico de escravos foram os principais financiadores da Corte de Dom João.

     Os tais traficantes, perpetradores da barbárie, tinham passe livre na corte. Eram os senhores mais respeitados da nação. Ai de quem ousasse ofender um desses traficantes. E o que mudou nesses quinhentos e onze anos de pós-descobrimento? Ontem, um repórter da Rádio Bandeirantes perguntou ao senador (com s bem minúsculo) Roberto Requião (PMDB-PR) se ele abriria mão da pensão de ex-governador. Irritado, o político arrancou o gravador da mão do profissional de imprensa e se mandou. Depois, apagou o conteúdo do aparelho e mandou um servo devolvê-lo ao rapaz. Insatisfeito com o crime praticado, e certo da sua impunidade, o caudilho paranaense publicou na internet: “Acabo de ficar com o gravador de um provocador engraçadinho. Numa boa, vou deletá-lo”. O coitado do jornalista tentou registrar queixa na Polícia do Senado, mas o pedido não foi aceito. Os policiais recusaram registrar a ocorrência. Insistente, o repórter foi à Corregedoria da Câmara para encaminhar uma reclamação. Hahaha. O Senado não tem corregedor desde a morte de Romeu Tuma.

     Dom João, danado, que semente ruim você plantou nessa terrinha, hem?






segunda-feira, 25 de abril de 2011

Na páscoa, rolou farelo

     Farelo. Exatamente, farelo. Foi o que rolou nessa páscoa. Nada de ovos de chocolate, coelho, ou álcool. Se bem que, álcool até que teve: duas taças de vinho com queijo e salame de Blumenau. Dividindo por quatro, deu meia taça por dia. Chocolate, nem pensar. Sendo fã de Jesus Cristo, aquele cara que ousou desafiar os religiosos da época lá pelas bandas de Israel, eu não iria me perdoar depois que profanasse a páscoa me empanturrando com ovos de chocolate. O coelho, por sua vez, nem ousou passar perto de mim. O nobre leitor deve saber que páscoa não tem nada a ver com chocolate; e muito menos com coelho. E com ovo? Fala sério, Zé Maria. A páscoa nada mais é do que a celebração da saída dos judeus do cativeiro egípcio. E era comemorada com pães sem fermento e ervas amargas. Essa história é contada no livro de êxodo, o segundo livro da bíblia. E aonde entra o coelho e o chocolate?
     Ora, ora, simpatia. É tudo conversa para boi dormir. Não tenho nada contra o feriado, pelo contrário. Principalmente como o último, que rendeu quatro dias de tranqüilidade no sítio. Mas que isso tem a ver com páscoa, ah, não tem não. Alguns religiosos, muito depois de Cristo, inventaram esse papo de coelho e ovo. Estes estão diretamente ligados aos cultos pagãos. Acho que foi uma jogada dos “donos do céu” para arrebanhar mais gente para suas hordas. Até proponho que, no Brasil, o atual símbolo da páscoa seja trocado por uma garrafa de cachaça. Não que eu beba, mas porque o álcool é adorado nos dias da folia pascal. E o farelo?

     Sim, o farelo. Já que eu estava no sítio, distribuí farelo a torto e a direito para os quadrúpedes do lugar. Isto sim é páscoa, devem ter imaginado os bovinos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Que dia de índio que nada!

     Para ser sincero, nem lembrei que antes de ontem, 19/04, foi o Dia do Índio. E tenho lá minhas razões para isso. Cresci ouvindo falar mal dos silvícolas, assistindo filmes onde eles apareciam como bandidos cruéis e sanguinários, anti-progressistas. Nos livros de histórias que estudei na adolescência, eram empecilhos para os portugueses desbravadores. Além do mais, eram idiotas, acreditavam que o bandeirante poderia tocar fogo nas águas e matá-los de sede. Preguiçosos, meu Deus do céu! Só queriam saber de pescar, festar e andar pelados. Ai, como eram libertinos. Foi isso, paisano que aprendi sobre os primeiros moradores das Américas. Sendo assim, parecia-me um contra-senso comemorar o dia deles. Talvez por esse motivo, nunca gravei a data.

     O tempo foi passando e a ignorância foi se achegando. Dos trinta em diante, então, eu já não sabia de quase nada. Nem da vida, nem do mundo e nem de mim mesmo. Imagina de índio! As certezas de adolescente abriram alas para a dúvida, a dúvida que amadurece, que é insaciável, que é descrente, que procura ver além da cortina. Seguindo a dica de Cristo – “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” -, debrucei-me sobre livros. Livros consagrados pela crítica, odiados pelos dominadores de plantão, baluartes da transparência. Baluartes, tão somente, já seria suficiente. Você pode está me perguntando: “E os livros de histórias do colégio?”. Simpatia, ainda hoje, lavo minha consciência para expurga-me das bestialidades contidas ali. Na busca pela verdade, viajei no tempo pelas letras de gente séria e encontrei fortes índios morando em aldeias saudáveis. De repente, portugueses desceram de embarcações e em nome de um reino tomaram posse do lugar. Religiosos pomposamente vestidos deram a chancela que os brancos precisavam. Pronto, reino e religião eram do que aqueles nativos careciam.

     Como cantaria, séculos depois, o Ultraje a Rigor, “não adianta nem nos desprezar, se a gente acostumar a gente vai ficar”. Os da selva, quando se viram enganados pelos europeus, odiaram-nos e desprezaram-nos. Não adiantou, os portugas se acostumaram e ficaram. O índio foi escravizado. Suas terras foram tomadas, seus filhos assassinados sob as bênçãos de um novo, e mais forte, deus. Suas vergonhas – conforme a carta de Pero Vaz de Caminha - foram cobertas, e eles foram envergonhados para sempre. Até o início dos século XX, eram assassinados covardemente por bugreiros – caçadores de bugres – que tinham carta branca para atirar em qualquer selvagem que vissem pela frente. Empurrados para o interior do país, foram sendo exterminados por balas, doenças e vícios trazidos pelos “civilizados” da Europa. Hoje em dia, vivem de favor em pequenas aldeias. Hipócritas como somos, temos a cara de pau de dar-lhes um dia. Nesse dia, as reportagens nos jornais – escritos, falados e televisivos – homenageiam os índios como se eles fossem animais domesticados que servem de espetáculo. O dia do índio, antes da chegada das caravelas de Cabral, era todo dia. Agora, o dia do índio já era, é apenas mais uma data comemorativa.